Guilherme Derrite chega ao Senado após gestão na Segurança de SP marcada por alta da letalidade policial

Piemonte Escrito em 05/10/2026


O secretário da Segurança Pública de SP, Guilherme Derrite (PL), durante evento na Academia de Polícia Militar do Barro Branco, em 23/05/2025. Pablo Jacob/GESP Ex-capitão da Rota e aliado do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), Guilherme Derrite (PP) foi eleito senador por São Paulo com 30,69% dos votos após uma passagem de três anos pela Secretaria da Segurança Pública marcada pelo aumento de mais de 80% das mortes decorrentes de intervenção policial, sob a defesa de uma política de linha dura contra o crime. A outra vaga coube a André do Prado (PL). Além deles, Marcos Pontes, também do PL, completa a bancada de São Paulo no Senado. Esta não é a primeira vez de Derrite ocupando uma cadeira no Congresso Nacional. Em 2018, foi eleito deputado federal por São Paulo e, em 2022, foi reeleito. O capitão da reserva é considerado uma das principais lideranças da chamada "bancada da bala" — formada por parlamentares ligados às forças de segurança pública e pautas de endurecimento penal. Entre 2023 e 2025, Derrite deixou a Câmara dos Deputados para comandar a Secretaria da Segurança Pública no governo Tarcísio de Freitas (Republicanos). Durante os três anos como secretário, ele se licenciou duas vezes. Em março de 2024, ele deixou a função temporariamente para reassumir o posto de deputado federal e ser relator do projeto de lei que acabou com as saídas temporárias, conhecidas como "saidinhas", de presos do regime semiaberto em feriados e datas comemorativas. A segunda exoneração aconteceu em novembro de 2025, quando o secretário da Segurança Pública voltou à Câmara dos Deputados para ser relator do projeto de lei Antifacção. De olho nas eleições de 2026, Derrite não retornou mais ao cargo no governo paulista e passou a se dedicar à articulação política em Brasília. A relatoria do projeto, uma das principais propostas do Congresso na área de segurança pública, também ajudou a ampliar a projeção nacional do deputado. No Congresso, Derrite apresentou um substitutivo ao texto enviado pelo governo e defendeu uma legislação mais dura contra organizações criminosas e milícias. Quando a proposta voltou do Senado, em fevereiro deste ano, ele recomendou que os deputados rejeitassem a maior parte das mudanças feitas pelos senadores. A Câmara seguiu a orientação, preservando boa parte do texto construído pelos deputados sob sua relatoria. Entre os pontos mantidos está a criação do crime de “domínio social estruturado”, com penas de 20 a 40 anos. O projeto foi posteriormente sancionado e virou a Lei 15.358/2026. Tarcísio de Freitas e Guilherme Derrite durante cerimônia de aniversário da Rota, em SP TOMZÉ FONSECA/FUTURA PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO Letalidade policial A passagem de Derrite pela Secretaria da Segurança Pública foi marcada pelo aumento da letalidade policial. Dados do Grupo de Atuação Especial da Segurança Pública e Controle Externo da Atividade Policial (Gaesp), do Ministério Público de São Paulo, mostram que o número de pessoas mortas por policiais em serviço ou de folga passou de 477 em 2022, último ano antes da gestão Tarcísio-Derrite, para 877 em 2025 — alta de 83%. O patamar registrado em 2024 e 2025 não era visto desde 2017, no governo Geraldo Alckmin (atual vice-presidente), quando ainda não havia câmeras corporais nos uniformes dos policiais militares. O Gaesp acompanha os dados de letalidade policial desde 2017. O aumento ocorreu em meio à defesa, por Derrite e pelo governo Tarcísio, de uma política de segurança mais dura. Logo no início da gestão, as operações da PM na Baixada Santista se tornaram um dos principais símbolos dessa estratégia. A Operação Escudo, em 2023, e a Operação Verão, em 2024, deixaram 84 mortos, segundo dados consolidados pelo Ministério Público. Juntas, tornaram-se a segunda ação coordenada pela polícia com maior índice de mortalidade. A primeira é o massacre do Carandiru, que aconteceu em 1992 e deixou 111 detentos mortos durante uma invasão da PM. As operações também provocaram críticas de moradores, organizações de direitos humanos e da Defensoria Pública, que apontaram denúncias de violações de direitos e tortura. O governo paulista, por outro lado, sustentou que as ações eram necessárias para combater o crime organizado e os policiais agiam em confrontos com criminosos. Tarcísio, Flávio Bolsonaro, Guilherme Derrite e Ricardo Nunes na Marcha para Jesus WERTHER SANTANA/ESTADÃO CONTEÚDO/ESTADÃO CONTEÚDO Carreira na polícia Nascido em Sorocaba, no interior de São Paulo, Derrite ingressou aos 18 anos na Academia de Polícia Militar do Barro Branco. Formou-se em Ciências Sociais e Segurança Pública e também cursou Direito. O futuro senador começou a carreira em 2006 como tenente atuando em Osasco, na Grande São Paulo. Depois chegou à Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar), considerada uma das mais tradicionais tropas de elite de São Paulo, onde trabalhou entre 2010 e 2013. Foi nesse período que construiu parte da imagem de policial de linha dura que mais tarde levaria para a política. Em 2015, uma gravação, revelada pela Ponte Jornalismo, feita quando ainda era oficial da PM veio a público e provocou uma crise na corporação. No áudio, Derrite afirmou considerar “vergonhoso” que um policial passasse cinco anos trabalhando nas ruas sem ter ao menos três ocorrências com resultado de morte de suspeitos. A fala ocorreu durante uma discussão sobre a transferência do então tenente Rafael Telhada da Rota para outra unidade e em meio ao debate sobre medidas para reduzir a letalidade policial. Derrite chegou a ser detido pela Corregedoria da PM devido à gravação. O caso foi posteriormente arquivado pela Justiça Militar. Após deixar a Rota, Derrite atuou na Força Tática e na formação de policiais militares. Entre 2015 e 2018 trabalhou também como oficial do Corpo de Bombeiros da Polícia Militar. A experiência na PM se tornou posteriormente uma das marcas de sua carreira política. Ao chegar ao Congresso, Derrite passou a atuar principalmente em pautas ligadas à segurança pública e ao endurecimento penal. André do Prado, Tarcísio de Freitas e Guilherme Derrite na urna do Morumbi Marília Barbosa/g1