Por que a Cidade do México está afundando tão rapidamente

Piemonte Escrito em 01/05/2026


A Cidade do México está afundando em um ritmo tão acelerado que o fenômeno já pode ser observado do espaço. Imagens recentes divulgadas pela NASA revelam que, em algumas áreas da capital mexicana, o solo está cedendo cerca de 2 centímetros por mês — o equivalente a cerca de 24 centímetros por ano. Ao longo de menos de um século, a cidade já afundou mais de 12 metros, segundo especialistas. Esse processo está diretamente ligado à extração intensiva de água subterrânea, que provoca a compactação do solo — especialmente porque a cidade foi construída sobre o leito seco de um antigo lago. Prédio histórico levemente inclinado na Cidade do México. Rebecca Blackwell/AP A origem do problema remonta à própria formação da metrópole. Com cerca de 22 milhões de habitantes em uma área urbana de aproximadamente 7.800 km², a Cidade do México ocupa uma região que já foi dominada por lagos. Muitas vias do centro histórico, por exemplo, eram antigos canais. Com o crescimento urbano e a demanda por água, o aquífero subterrâneo foi sendo esgotado ao longo de décadas. Esse processo não só acelera o afundamento do solo como também agrava uma crise hídrica crônica que afeta a região. Os dados fazem parte de um novo mapa de subsidência (afundamento do solo) produzido com informações da missão NISAR, um satélite desenvolvido em parceria entre a NASA e a agência espacial indiana (ISRO). No mapa, as áreas em azul escuro indicam regiões onde o afundamento supera 2 centímetros por mês. As medições foram realizadas entre outubro de 2025 e janeiro de 2026 e ajudam a confirmar tanto a gravidade do problema quanto a precisão do equipamento em seu primeiro ano de operação. Os efeitos já são visíveis em diversos pontos da cidade. Construções históricas, como a Catedral Metropolitana — cuja obra começou em 1573 — apresentam inclinações perceptíveis. Entre os pontos mais afetados estão o principal aeroporto da cidade e o icônico monumento do Anjo da Independência, no Paseo de la Reforma, inaugurado em 1910. Nesse monumento já foram adicionados 14 degraus ao longo dos anos para compensar o rebaixamento do terreno ao redor. No monumentos Anjo da Independência foram adicionados 14 degraus para compensar o rebaixamento ao longo dos anos. NASA As imagens da NASA também destacam áreas que preservam vestígios do passado. Entre elas estão o Lago Nabor Carrillo, construído sobre o antigo Lago Texcoco, e o Lago Chalco, uma região úmida ao sul que já foi parte de um grande corpo d’água. Esses ambientes têm importância ecológica, sendo, por exemplo, habitat histórico do axolote mexicano, uma espécie ameaçada de extinção. Satélite monitora florestas, geleiras e áreas agrícolas O satélite NISAR utiliza dois tipos de radar — de banda L e banda S — capazes de penetrar vegetação e monitorar diferentes tipos de superfície com alta precisão. A tecnologia permite acompanhar mudanças no terreno ao longo do tempo, o que é essencial para entender fenômenos como a subsidência. Além de contribuir para estudos urbanos, os dados do NISAR devem ajudar pesquisadores a monitorar florestas, geleiras e áreas agrícolas em todo o mundo, além de apoiar respostas rápidas a desastres naturais. No caso da Cidade do México, os novos dados reforçam um alerta antigo: sem mudanças na gestão da água e no planejamento urbano, o afundamento tende a continuar — com impactos crescentes para a infraestrutura e para a população.