Denúncia exclusiva: ANAC teria sido alertada sobre possíveis irregularidades na manutenção da Voepass antes do desastre que matou 62 pessoas
Um ex-inspetor da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) alertou, anos antes da queda do avião da Voepass em Vinhedo, no interior de São Paulo, sobre problemas envolvendo a empresa. Em um documento oficial de novembro de 2019, ele recomendou que a agência suspendesse a autorização de voo da MAP Linhas Aéreas, empresa que meses depois se fundiu com a Passaredo, dando origem à Voepass.
O caso veio à tona a partir de documentos de um processo judicial movido pelo ex-funcionário contra a Anac. Segundo o relato apresentado no processo, ele afirma ter sido perseguido por dirigentes da agência por apontar problemas relacionados à Voepass.
No documento de 2019, o inspetor afirmou haver problemas que justificariam a suspensão da autorização de voo da MAP. A recomendação, segundo o material, não foi seguida pela agência.
Ex-funcionário da Anac alertou a agência de que a Voepass reaproveitava peças em seus aviões
Alerta sobre peças de aviões
Em 2022, outro alerta foi enviado à Anac. O ex-inspetor apontava que a Voepass estaria utilizando em suas aeronaves peças que poderiam não ter condições de aeronavegabilidade, ou seja, componentes que não haviam passado pelas verificações necessárias para comprovar que poderiam voltar a ser utilizados.
Segundo o relato, entre os componentes estavam peças pertencentes a um avião que havia sofrido um acidente em Rondonópolis, no Mato Grosso, em 2016.
Como a aeronave não poderia mais voltar a voar, ela teria sido desmontada pela própria empresa, que à época ainda se chamava Passaredo. As peças teriam sido reaproveitadas em outras aeronaves.
O ex-inspetor afirmou que, diante da falta de providências, levou a denúncia também às autoridades de aviação dos Estados Unidos e da União Europeia, a FAA e a EASA.
Segundo o relato, ele informou aos dois órgãos que peças do avião acidentado em Rondonópolis poderiam estar sendo utilizadas em aeronaves que voavam inclusive nos Estados Unidos e na Europa.
Processo interno e exoneração
Depois dos alertas, em 2023, a Anac abriu um procedimento interno contra o inspetor.
Ele foi acusado de insubordinação, problemas de relacionamento com colegas, ausência em um treinamento de brigada de incêndio e de provocar dano à imagem da Voepass ao enviar o e-mail às autoridades estrangeiras.
No ano passado, após 16 anos de trabalho na Anac, o inspetor foi exonerado.
As denúncias que ele havia feito contra a Voepass também chegaram a ser analisadas pelo Ministério Público Federal. Segundo o material, o MPF pediu o arquivamento da acusação de prevaricação — quando há suspeita de omissão de um funcionário público no cumprimento de suas funções — por falta de provas.
O processo cível, porém, continuou para apurar acusações de injúria e difamação feitas pelo ex-inspetor contra seus superiores na agência.
Voepass só perdeu autorização depois da queda
A Anac cassou a autorização de operação da Voepass em junho de 2025, dez meses depois da queda do avião que matou 62 pessoas em Vinhedo.
A investigação da Polícia Federal sobre o acidente aponta uma série de falhas que antecederam a tragédia. Entre elas está a existência de problemas no sistema de degelo da aeronave.
Segundo a PF, o sistema de degelo apresentou falhas pelo menos 15 vezes antes do acidente. Nenhuma das ocorrências, porém, teria sido registrada no diário técnico da aeronave. Se o defeito tivesse sido registrado, o avião não poderia ter decolado.
A investigação também aponta que havia previsão de gelo severo na rota do voo 2283 e que o modelo da aeronave não era homologado para operar nessas condições.
PF vai analisar eventual responsabilidade da Anac
Durante a investigação, a Polícia Federal indicou que também pretende analisar se houve falhas da Anac na fiscalização da companhia.
A PF pediu à Justiça Federal de Campinas o compartilhamento das provas da investigação com a própria agência e o encaminhamento de cópia do material à Procuradoria da República no Distrito Federal, para avaliar a existência de possíveis atos de improbidade ou crimes.
A Anac informou, segundo o material, que os achados da auditoria relacionados ao avião de Rondonópolis foram analisados e concluídos e que as peças passaram por checagens e verificações previstas nas normas para retorno ao serviço.
Sobre os relatórios do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) e da Polícia Federal, a agência anunciou que abrirá um processo interno para verificar eventual responsabilidade de servidores.
A Voepass afirmou que a segurança operacional sempre foi sua prioridade, que os treinamentos dos pilotos contemplavam os procedimentos previstos para condições de formação de gelo e que colaborou com as autoridades desde o início das investigações. A empresa também reiterou solidariedade às famílias das vítimas.
A defesa do presidente da Voepass afirmou que José Luiz Felício Filho não atuava diretamente na gestão cotidiana da operação no período do acidente. Segundo o advogado, em depoimento à Polícia Federal, o executivo afirmou que havia determinado medidas para garantir o cumprimento dos protocolos de segurança e que não tinha conhecimento de condutas contrárias a essas determinações. Após a queda, segundo a defesa, ele reassumiu a gestão e promoveu mudanças na estrutura e nos procedimentos operacionais.
A queda do voo 2283 aconteceu em 9 de agosto de 2024. As 62 pessoas que estavam a bordo morreram.
A Polícia Federal indiciou 16 pessoas, entre pilotos, funcionários de terra, gerentes, diretores e o presidente da Voepass. Segundo a investigação, os indiciados podem responder por atentado contra a segurança do transporte aéreo e falsidade ideológica.
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Do alerta à exoneração: os bastidores da história do ex-inspetor da Anac que alertou sobre problemas na Voepass antes da tragédia
Piemonte Escrito em 11/08/2026
