Órfãos do feminicídio: jovem do interior de SP assume guarda dos irmãos após morte da mãe

Piemonte Escrito em 11/03/2026


Brasil bate recorde de feminicídios em 2025 O número de feminicídios acende um alerta para vítimas que vão além das mulheres assassinadas. Em Novo Horizonte (SP), um jovem de 22 anos se viu obrigado a assumir a guarda dos dois irmãos mais novos após perder a mãe, que foi morta em 10 de março do ano passado, há um ano. No mês em que é celebrado o Dia Internacional da Mulher, as estatísticas chamam atenção para a violência enfrentada pelo gênero. Em 2025, o país bateu recorde de feminicídios com a média de quatro mulheres mortas por dia, conforme dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública. 📲 Participe do canal do g1 Rio Preto e Araçatuba no WhatsApp No estado de São Paulo, 266 mulheres foram assassinadas por homens, o maior número em um período de sete anos. Em São José do Rio Preto (SP), por exemplo, mais de 3 mil mulheres vítimas de violência doméstica buscaram ajuda entre janeiro e agosto de 2025. Em Novo Horizonte, Josiane Borges Furlaneto, de 36 anos, fez parte dessa estatística. O caso dela evidencia o impacto do crime. Josiane Borges Furlaneto e Ana Paula Goulart são vítimas de feminicídio em Novo Horizonte e Catanduva (SP) TV TEM/Reprodução Em entrevista à TV TEM, o filho de Josiane, Kauan Henrique de Moraes, de 22 anos, contou que, quando o ex-padrasto matou sua mãe, destruiu a família. O jovem precisou assumir a guarda dos dois irmãos mais novos. "Ela [mãe] era o suporte de toda a nossa família, cuidava de todo mundo. Eu estou tentando colocar em prática o que ela me ensinou: ser forte. Nem sempre é fácil, às vezes fico triste, acabo me abalando, mas sigo tentando. Quero ser forte, como ela sempre me ensinou, e cuidar da minha família e das pessoas que eu amo", relata Kauan. Kauan Henrique de Moraes, filho de Josiane, vítima de feminicídio em Novo Horizonte (SP) TV TEM/Reprodução Josiane foi morta a facadas dentro de casa pelo ex-namorado, Augusto César Leite, há um ano. O homem invadiu a residência da família durante a noite e atacou a vítima enquanto o filho de 14 anos dormia no quarto ao lado. O menino não acordou, mas entrou em choque ao saber da morte da mãe. A irmã da vítima contou que Josiane tinha medo do ex, mas não relatou sofrer ameaças. Para Juliana Borges Moreira, Augusto não deveria viver em sociedade pois destruiu a vida de uma mulher e condenou a família à ausência dela. "Ele planejou e premeditou tudo nos mínimos detalhes durante meses. Deu mais de 20 facadas nela dentro de casa. Acho que ele merecia prisão perpétua, mas, como isso não existe aqui, que ele receba a pena máxima possível. Ele acabou com a vida dela e, por isso, não deveria ter direito de viver em sociedade, sair, festejar, construir uma família ou trabalhar”, afirma Juliana. Juliana Borges Moreira, irmã de Josiane, vítima de feminicídio em Novo Horizonte (SP) TV TEM/Reprodução LEIA MAIS Mulher tem o corpo incendiado e é agredida pelo namorado Mulher é encontrada morta em casa e com ferimentos de pancadas na cabeça Mulher atacada pelo filho com facão e tem parte do braço amputado Para Kauan, desde o crime, nada foi como antes. "Eu vejo que, pouco a pouco, ele não matou só a minha mãe, ele destruiu a minha família inteira. Todo dia eu chego e vejo minha avó chorando. Meu avô, mesmo já sendo idoso, perdeu a vontade de viver. Do mesmo jeito, minha tia ficou depressiva e agora depende de remédios. Para conseguir dormir ou simplesmente viver, ela precisa tomar medicação." Órfãos do feminicídio A psicóloga Luane Natalle, coordenadora do Centro de Referência e Apoio à Vítima (Cravi), programa da Secretaria da Justiça e Cidadania do estado de São Paulo, explica que o crime causa traumas profundos e duradouros nos familiares das vítimas. Crianças e adolescentes se veem sozinhos e desamparados, mesmo quando são acolhidos por parentes. “O crime de feminicídio não implica apenas na perda direta da mãe. Muitas vezes, também resulta na perda da figura paterna, já que ex-companheiros, companheiros ou pais dessas crianças costumam ser os autores da violência. Isso afeta ainda mais o sentimento de pertencimento e segurança dessas crianças, que se sentem desamparadas”, explica Luane. Psicóloga Luane Natalle, coordenadora do Centro de Referência e Apoio à Vítima (Cravi), programa da Secretaria da Justiça e Cidadania do estado de São Paulo TV TEM/Reprodução Luto e revolta Ana Paula Goulart, de 39 anos, foi morta em 6 de dezembro de 2025 pelo namorado, dentro da casa onde moravam em Catanduva (SP). Para a mãe dela, Sônia de Fátima Zampieri Tonelli, a dor da perda é incurável. Ela relembra que nunca imaginou passar por uma situação dessas. "Nunca imaginamos que isso poderia acontecer com a gente. Mas, quando acontece, é que percebemos que pode acontecer com qualquer pessoa, com qualquer família. E quando acontece, acaba com a família inteira", conta Sônia. Sônia de Fátima Zampieri Tonelli, mãe de Ana Paula, vítima de feminicídio em Catanduva (SP) TV TEM/Reprodução Ana Paula deixou cinco filhos. O corpo foi encontrado no corredor da residência no dia seguinte ao feminicídio, com ferimentos na cabeça. Segundo a polícia, o suspeito cobriu a vítima com um cobertor e circulou pelo bairro como se nada tivesse acontecido. Initial plugin text Pedido de ajuda A juíza Patrícia Santos, da comarca de Urupês (SP), já julgou dezenas de casos de violência contra mulheres. Responsável pelo Programa Flor de Liz, que oferece apoio às vítimas, ela destaca: o primeiro pedido de ajuda é crucial para evitar o ciclo de violência e, consequentemente, um feminicídio. “O Poder Judiciário só recebe o pedido de medida protetiva quando algo já aconteceu. É importante destacar que, quando a mulher procura a polícia militar pedindo socorro, a delegacia faz o registro e, mesmo que ela não queira registrar o boletim de ocorrência, a informação chega até mim e eu já a incluo no programa. Por isso, o primeiro pedido de socorro pode evitar que o ciclo de violência chegue ao fim trágico, que seria um feminicídio”, finaliza a juíza. Juíza Patrícia Santos, da comarca de Urupês (SP), responsável pelo Programa Flor de Liz, que oferece apoio às vítimas de violência TV TEM/Reprodução Órfãos do feminicídio: jovem de São José do Rio Preto (SP) assume guarda dos irmãos após morte da mãe TV TEM/Reprodução Veja mais notícias da região em g1 Rio Preto e Araçatuba VÍDEOS: confira as reportagens da TV TEM