Planta que anda? Conheça a palmeira da Amazônia que parece se mover pela floresta

Piemonte Escrito em 07/06/2026


Paxiúba Brendon Campos/Instituto Inhotim Na Amazônia, uma palmeira apoiada sobre raízes que lembram pernas gigantes desperta curiosidade por supostamente se deslocar entre as árvores. Mas a planta anda mesmo? Segundo a doutora em Botânica e professora da Universidade Federal de Rondônia (Unir), Osvanda Silva de Moura, tudo não passa de ilusão. "É um processo natural de substituição das raízes de apoio. Novas raízes crescem e as antigas se decompõem, gerando uma falsa sensação de movimento", explica. Ou seja, as novas raízes crescem em outras direções, enquanto as antigas morrem naturalmente. Para quem observa a planta em épocas diferentes, a impressão é que ela mudou de lugar. A planta é conhecida popularmente como paxiúba ou “palmeira-andante”. A crença de que ela caminha pela floresta surgiu justamente por causa dessas "raízes escora", estruturas que podem atingir até dois metros de altura e lembram tentáculos ou grandes pernas de aranha. Porém, segundo Osvanda, não há evidência científica de deslocamento ativo do tronco. "O resultado é uma ilusão. O tronco parece se deslocar quando, na verdade, permanece no mesmo lugar", explica. Vídeos em alta no g1: Agora no g1 Adaptação para sobreviver As raízes que deram fama à paxiúba têm função essencial para a sobrevivência da espécie. Encontrada principalmente em áreas úmidas, como várzeas e regiões sujeitas a alagamentos, a planta precisa de um sistema eficiente de sustentação. "A principal função dessas raízes é garantir estabilidade em solos pantanosos, instáveis e frequentemente alagados", explica a professora. Além disso, as raízes ajudam na troca de gases em ambientes com pouco oxigênio e contribuem para que a planta alcance melhores condições de luminosidade. Socratea exorrhiza pertence à família das Arecaceae, que ocorre da América Central até à Bacia do Amazonas Carroll Perkins/iNaturalist Importância para a fauna A paxiúba também tem papel importante na cadeia alimentar da floresta. Seus frutos são consumidos por diferentes animais, como macacos, antas, porcos-do-mato e aves, incluindo tucanos. "Ela serve de base para a cadeia alimentar local. Os animais que consomem seus frutos também ajudam na dispersão das sementes, contribuindo para a regeneração da floresta", afirma Osvanda. As raízes ainda funcionam como abrigo para pequenos mamíferos, insetos e outros organismos. Uso por comunidades tradicionais A palmeira também faz parte do cotidiano de comunidades amazônicas. A madeira é utilizada na construção de casas e estruturas rústicas. Já as sementes são transformadas em artesanato e biojoias. Há registros de usos na medicina tradicional, além do aproveitamento das raízes espinhosas para ralar mandioca. "As raízes passam por um processo de preparação para que os espinhos fiquem mais resistentes e possam ser utilizados nesse trabalho", explica a pesquisadora. Como identificar a paxiúba? A espécie, conhecida cientificamente como Socratea exorrhiza, é típica da Amazônia, mas também ocorre em outras regiões tropicais da América Central e do Su. A planta possui raízes aéreas espinhosas que formam uma espécie de cone, sustentando o tronco acima do solo. O tronco é fino, reto e liso, podendo atingir entre 10 e 20 metros de altura — com registros de exemplares que chegam a cerca de 30 metros. As folhas ficam concentradas na copa e têm formato semelhante ao de plumas. Além de paxiúba ou paxiubeira, a espécie também é conhecida como palmeira-andante, palmeira-caminhante e sete-pernas. Risco de desaparecimento Como outras espécies amazônicas, a paxiúba enfrenta ameaças como desmatamento, queimadas e mudanças climáticas. Segundo a pesquisadora, o desaparecimento da espécie poderia causar impactos em diferentes níveis do ecossistema. "Os frutos alimentam diversos animais, as raízes servem de abrigo para a fauna e a espécie participa da dinâmica da floresta. Sua ausência provocaria efeitos em cascata", afirma. Além dos danos ambientais, comunidades que utilizam a planta também seriam afetadas. "Toda espécie possui uma função ecológica. A conservação da paxiúba é essencial para a manutenção da biodiversidade e do equilíbrio das florestas tropicais", conclui.