Rosa Magalhães: a trajetória da 'mestra', a maior campeã do Sambódromo, enredo do Salgueiro

Piemonte Escrito em 17/02/2026


Salgueiro anuncia homenagem a Rosa Magalhães como enredo do carnaval 2026 Rosa Magalhães, a maior vencedora da era do Sambódromo da Marquês de Sapucaí, será homenageada pelo Salgueiro nesta terça-feira (17) em seu desfile. Dona de uma trajetória que atravessa mais de 50 carnavais e 7 títulos do Grupo Especial, a carnavalesca morreu em julho de 2024, aos 77 anos, vítima de um infarto. 📱Baixe o app do g1 para ver notícias do RJ em tempo real e de graça Professora, artista plástica, figurinista e cenógrafa, a "mestra" Rosa Magalhães ajudou a redefinir o carnaval carioca ao transformar literatura, história, mitologia e identidade brasileira em desfiles de rigor estético, riqueza visual e leitura sofisticada. Seu impacto na evolução do "maior espetáculo da Terra" é tamanho que o Salgueiro a transformou em enredo com o título “A delirante jornada carnavalesca da professora que não tinha medo de bruxa, de bacalhau e nem do pirata da perna-de-pau”. Títulos e trabalho de Rosa Magalhães ao longo de 50 anos de avenida fazem da carnavalesca a grande dama do carnaval do Rio Reprodução/G1 Formação Rosa Lúcia Benedetti Magalhães nasceu no Rio de Janeiro, em 8 de janeiro de 1947, em uma família profundamente ligada à cultura. Era filha do escritor e acadêmico Raimundo Magalhães Júnior, integrante do júri do primeiro desfile das escolas de samba, em 1932, e imortal da Academia Brasileira de Letras, e da autora teatral Lúcia Benedetti. Formada em Pintura pela Escola de Belas Artes do Rio de Janeiro e em Cenografia pela Escola de Teatro da Uni-Rio, Rosa construiu também uma sólida carreira acadêmica, tornando-se professora de Cenografia e Indumentária na Escola de Belas Artes da UFRJ e na Faculdade de Arquitetura Benett. Essa formação técnica e intelectual seria decisiva para a maneira como ela passaria a pensar o carnaval como narrativa visual e espetáculo total. Aprendiz de Pamplona Fernando Pamplona foto de 17/12/2012/Thiago Lontra/Agência O Globo A entrada de Rosa no carnaval aconteceu em 1970, quando foi convidada por Fernando Pamplona a integrar a equipe do Salgueiro. No ano seguinte, a escola conquistou o título com o enredo “Festa para um rei negro”. O desfile daquele ano marcou uma ruptura estética ao valorizar a cultura negra em plena ditadura militar. Rosa se formou no que ficou conhecido como a “Academia do Samba”, ao lado de nomes como Arlindo Rodrigues, Joãosinho Trinta, Maria Augusta e Lícia Lacerda. Naquele período, Laíla era o diretor de harmonia da escola. Essa convivência moldou a visão de carnaval que Rosa levaria por toda a carreira: rigor conceitual, narrativa clara e acabamento refinado. Depois da passagem pelo Salgueiro, ela desenhou figurinos para a Beija-Flor e trabalhou na Portela, onde, em parceria com Lícia Lacerda, criou figurinos e alegorias para enredos desenvolvidos por Hiram Araújo, aprofundando seu domínio técnico. 'Bumbum Paticumbum Prugurundum': o 1º título Bum Bum Paticumbum Prugurundum, do Império Serrano, de 1982. Reprodução/ TV Globo O primeiro campeonato de Rosa Magalhães como carnavalesca veio em 1982, no Império Serrano, ao lado de Lícia Lacerda, com o histórico enredo “Bumbum Paticumbum Prugurundum”. O desfile propunha uma leitura crítica do próprio carnaval, dividindo a festa em três fases — Praça Onze, Candelária e Sapucaí — e questionando a espetacularização da folia. Mesmo desfilando ao meio-dia, sob forte calor, o Império conquistou o título em uma virada histórica. “Foi um desfile difícil, ao meio-dia, um sol desgraçado. E o povo jogava gelo, água, para refrescar os desfilantes. E o povo ia em frente. E foi uma surpresa. Passamos de último para primeiro”, contou Rosa Magalhães em depoimento dado em 2014. Afirmação na década de 1980 Estácio de Sá faz feijoada para homenagear Rosa Magalhães Após o título no Império Serrano, Rosa passou pela Imperatriz Leopoldinense, pela Tradição e pela Estácio de Sá. Em 1987, ainda em parceria com Lícia Lacerda, assinou o carnaval da Estácio com “Ti-ti-ti do sapoti”, desfile que se tornou um dos mais lembrados da década pelo humor, pela crítica e pela leitura carnavalesca refinada. Em 1988, Rosa assinou seu primeiro carnaval sozinha, ainda na Estácio, com “O boi da bode”. No ano seguinte, voltou à escola com “Um, dois, feijão com arroz”, reafirmando sua identidade autoral. No início da década de 1990, retornou ao Salgueiro, agora como carnavalesca, conquistando o terceiro lugar em 1990 e o vice-campeonato em 1991. Nesse último ano, a "mestra" apresentou um enredo sobre a Rua do Ouvidor, samba que é citado no hino da escola em 2026. Anos de glórias na Imperatriz O período mais vitorioso da carreira de Rosa Magalhães começou em 1992, quando assumiu o carnaval da Imperatriz Leopoldinense. Pela escola de Ramos, construiu uma hegemonia inédita e conquistou cinco títulos do Grupo Especial, tornando-se o nome mais associado ao sucesso da agremiação. Comissão de frente da Imperatriz Leopoldinense, para o enredo 'Catarina de Médicis na corte dos tupinambôs e tabajères", o primeiro título-solo de Rosa Magalhães, em 1994 Arquivo/Riotur O primeiro título veio em 1994, com “Catarina de Médicis na Corte dos Tupinambôs e dos Tabajéres”, desfile que misturou história europeia e cultura indígena brasileira com luxo e narrativa sofisticada. Em 1995, veio o bicampeonato com “Mais vale um jegue que me carregue que um camelo que me derrube, lá no Ceará”, um enredo irreverente, popular e visualmente impactante. O auge absoluto ocorreu no tricampeonato histórico de 1999, 2000 e 2001. Em 1999, a Imperatriz venceu com “Brasil, Mostra a Sua Cara em... Theatrum Rerum Naturalium Brasiliae”. O desfile foi inspirado em registros científicos do período colonial. Em 2000, a escola celebrou os 500 anos da chegada dos portugueses com “Quem descobriu o Brasil foi seu Cabral, no dia 22 de abril, dois meses depois do carnaval”. Já em 2001, a consagração veio com “Cana-caiana”, enredo sobre a história da cana-de-açúcar e seus derivados. Relembre o desfile da Imperatriz em 2000 7º título na Vila Depois da longa passagem pela Imperatriz, Rosa assumiu o carnaval da União da Ilha e, em seguida, da Vila Isabel. Foi pela escola de Noel que conquistou seu sétimo e último título do Grupo Especial, em 2013, com “A Vila canta o Brasil, celeiro do mundo – ‘Água no feijão que chegou mais um’”. O desfile exaltava a agricultura brasileira e ficou marcado por soluções cênicas criativas, como a comissão de frente que revelava a terra como força vital. A vitória garantiu o terceiro título da história da Vila Isabel. Alegoria idealizada por Rosa Magalhães para a Unidos de Vila Isabel, campeã de 2013, todo decorada com fuxicos gigantes Alexandre Durão/G1 Mangueira, São Clemente e Portela Após o título na Vila, Rosa passou por Mangueira, São Clemente e Portela. Na São Clemente, foi responsável por desfiles elogiados pela crítica e premiados, levando a escola a resultados expressivos e reconhecimento inédito. Na Portela, assinou os carnavais de 2018 e 2019. Nesse último ano, levou para a avenida “Na Madureira Moderníssima, hei sempre de ouvir cantar um sabiá”, enredo que homenageava Clara Nunes e o bairro de Madureira, garantindo à escola o quarto lugar. Portela vai homenagear Clara Nunes na avenida em 2019 Outros carnavais Em 2020, Rosa comemorou cinco décadas de trajetória no carnaval e retornou à Estácio de Sá. Já em 2021, voltou à Imperatriz Leopoldinense após 11 anos. Em 2022, desenvolveu um enredo sobre Arlindo Rodrigues. Seu último carnaval foi em 2023, no Paraíso do Tuiuti, ao lado de João Vitor Araújo. Rosa Magalhães relembra campeonatos em seus 50 anos de carnaval ‘Campeã’ Olímpica Fora da avenida, Rosa Magalhães também foi responsável por grandes eventos culturais. Ela foi que desenvolveu a cerimônia de encerramento dos Jogos Olímpicos Rio 2016 e venceu um prêmio Emmy pelo figurino da abertura dos Jogos Pan-Americanos de 2007. Em 2022, Rosa recebeu o título de Doutora Honoris Causa da Uerj. “Estou muito feliz e honrada com essa condecoração de uma instituição tão respeitada no meio acadêmico”, afirmou na ocasião. Primeiro ato do encerramento da Rio 2016 teve mosaico do Cristo Fabrizio Bensch/Reuters Saudade no samba Rosa Magalhães morreu em 25 de julho de 2024, mas seu legado segue vivo no carnaval. A Imperatriz Leopoldinense batizou seu barracão na Cidade do Samba com o nome da carnavalesca, e o Salgueiro levará sua obra para a avenida em 2026. Para o carnavalesco Jorge Silveira, a homenagem traduz a dimensão da artista. “É uma linda homenagem à professora Rosa Magalhães. A gente abre o desfile do Salgueiro entrando na biblioteca e os personagens vão nos receber nessa homenagem”, afirmou. A destaque Samille Cunha também exaltou a importância da carnavalesca para o carnaval. “Ela marcou a história do carnaval. Foram 50 carnavais e eu tive a honra e prazer de desfilar em 38 enredos dela”, disse. Rosa Magalhães, campeã absoluta do carnaval, morre no Rio de Janeiro Maior campeã da era do Sambódromo, Rosa Magalhães deixou uma obra que atravessa gerações e permanece como referência absoluta do carnaval carioca. Virou enredo Esse ano, o Salgueiro, a primeira escola que abriu as portas para Rosa Magalhães, vai prestar uma grande homenagem a "mestra" do carnaval. A escola pretende transformar a avenida em uma grande biblioteca imaginária, na qual cada setor do desfile representará um universo criativo explorado por Rosa em sua trajetória. Cada setor do desfile funcionará como uma estante de memórias, reunindo mitos, viagens, personagens e símbolos que Rosa traduziu em carnaval. A escola prepara uma homenagem à professora que ensinou a avenida a ler o mundo em forma de festa. Rosa Magalhães celebra ala das baianas em desfile da Imperatriz Leopoldinense Reprodução/ TV Globo