Quadros em escritório alvo da Operação Distrato expunham metas para supostas fraudes tributárias, dizem investigadores

Piemonte Escrito em 18/07/2026


Anotações encontradas por investigadores durante a Operação Distrato Reprodução/TV Globo Anotações encontradas por investigadores durante a Operação Distrato revelam, segundo a visão dos próprios agentes, o funcionamento interno e a organização de metas de um escritório ligado à advogada Mayra Fahur de Paula. Em quadros brancos, o grupo estabelecia, conforme apontado pelos investigadores, objetivos para a aplicação de golpes tributários federais e estaduais: a meta era realizar 30 ligações por dia, além de 10 reuniões semanais e o fechamento de oito contratos por mês. A estrutura contava com uma divisão específica de tarefas, com cinco advogados dedicados a fraudes federais e dois focados em crimes envolvendo ICMS, segundo a análise dos auditores fiscais. A defesa de Mayra de Paula afirma que não existe, e jamais existiu, qualquer vínculo societário com o advogado Nelson Wilians, ou entre seus respectivos escritórios. Mayra também diz que a relação mantida foi uma parceria técnica pontual para a prestação de serviços específicos, já encerrada. Os quadros, que traziam ainda frases motivacionais como "O NÃO que você tem hoje, pode ser o impulso de muito SIM para AMANHÃ!", exemplificam, na interpretação do Núcleo de Inteligência Fiscal em Recuperação de Ativos (Nira), a “natureza metódica da atividade criminosa investigada”.  Esta evidência faz parte da Operação Distrato, deflagrada pelo Comitê Interinstitucional de Recuperação de Ativos (Cira-SP), que investiga uma organização suspeita de sonegar R$ 3,8 bilhões em créditos de ICMS, segundo auditores e procuradores. A ação cumpriu 38 mandados de busca e apreensão em São Paulo e no Paraná, mirando escritórios de advocacia, consultorias e intermediadoras que, conforme as suspeitas dos investigadores, simulavam créditos tributários para reduzir indevidamente o imposto devido ao estado de São Paulo. Operação contra fraude de R$ 3,8 bilhões em ICMS mira grupos econômicos com advogados em SP e PR O escritório de Mayra Fahur é descrito pelos auditores fiscais como uma das peças em um vasto ecossistema financeiro ligado ao advogado e empresário Nelson Wilians. Segundo os investigadores, durante o cumprimento dos mandados de busca e apreensão, Mayra ordenou que funcionários apagassem remotamente o servidor para destruir provas. Segundo o relatório do Nira, o grupo econômico estruturado em torno de Wilians apresenta, na visão dos agentes, "o grau mais elevado de sofisticação organizacional" entre os núcleos analisados. A estrutura, que transcende o exercício da advocacia, mantém uma clara separação entre direção estratégica, execução operacional e blindagem patrimonial, sob uma unidade de comando centralizada, conforme concluíram os investigadores.  Entre os principais achados do relatório, segundo os auditores, destaca-se que a organização utilizava empresas de fachada, inativas ou sem estrutura operacional para emitir documentos fiscais falsos. Para dar credibilidade, os investigados utilizavam, de acordo com o levantamento, helicópteros e carros importados em reuniões com clientes. A empresa Wilians Sons Inc. (Ilhas Virgens Britânicas) compartilhava o mesmo e-mail de contato que empresas do grupo no Brasil, reforçando a conexão operacional apontada pelos investigadores. Além disso, documentos como um e-mail enviado por Mayra de Paula em 27 de maio de 2024, encontrado pela fiscalização, confirmam, para os agentes, sua função como "ponte" entre o discurso jurídico e a execução material das fraudes, operando a partir de um endereço em Campinas, no interior de São Paulo, compartilhado por outros integrantes do núcleo. O relatório aponta ainda uma "diversificação incomum" de ativos, incluindo uma frota numerosa de veículos de luxo (Rolls-Royce Phantom, Ferrari SF90 Stradale, Lamborghini Urus) e aeronaves, como um helicóptero executivo (Leonardo AW169) e um jato (Embraer EMB-135BJ), todos vinculados, segundo a fiscalização, ao núcleo econômico.  Em nota, o escritório Nelson Wilians Advogados informou que a gestão das operações mencionadas era de responsabilidade exclusiva do escritório De Paula Advogados & Consultoria Jurídica, sem vínculo societário com o NWADV. O escritório afirmou ainda que, ao identificar inconsistências, encerrou a parceria e comunicou seus clientes, prestando total colaboração às autoridades. O Alpha Group, também investigado, negou a prática de ilícitos fiscais ou penais, expressando "perplexidade e surpresa" com a investigação e colocando-se à disposição das autoridades. Anotações encontradas por investigadores durante a Operação Distrato Divulgação O governo estadual enfatizou, por meio dos órgãos envolvidos, que a apuração é criteriosa, buscando separar quem agiu de forma consciente do proveito ilícito de quem possa ter sido enganado de boa-fé. Até o momento, a Secretaria da Fazenda já realizou verificações fiscais em mais de 750 empresas. Nota do escritório de Mayra de Paula: Em resposta às recentes matérias veiculadas na imprensa e às manifestações do escritório Nelson Wilians Advogados (NWADV), o escritório De Paula Advogados & Consultoria Jurídica e sua sócia, Mayra Fahur de Paula, vêm a público para restabelecer a verdade dos fatos e reafirmar seu compromisso com a ética e a transparência. Esclarecemos que não existe, e jamais existiu, qualquer vínculo societário entre Mayra Fahur de Paula e o advogado Nelson Wilians, ou entre seus respectivos escritórios. A relação mantida foi uma parceria técnica pontual para a prestação de serviços específicos, já encerrada. O De Paula Advogados é uma banca autônoma, com governança e estrutura independentes. A participação do escritório De Paula Advogados em parcela ínfima das operações em questão se deu estritamente no âmbito técnico-jurídico, como um dos elos de uma complexa cadeia de serviços que foi idealizada, estruturada e comercializada por terceiros. A tentativa de atribuir responsabilidade integral ao nosso escritório distorce a realidade e busca fazer ignorar a atuação dos demais e principais envolvidos. O escritório e sua sócia estão à inteira disposição das autoridades competentes para prestar todos os esclarecimentos necessários, colaborando ativamente para a correta apuração dos fatos. Acreditamos que a verdade prevalecerá por meio da análise técnica e isenta dos documentos e provas.