'Por que se orgulhar?': Como pessoas LGBT+ de Sorocaba e Jundiaí viveram o processo de se entender e se assumir

Piemonte Escrito em 28/06/2026


Como pessoas LGBT+ de Sorocaba e Jundiaí viveram o processo de se entender e se assumir Indo além de ser apenas mais uma data no calendário ou motivo para usar as cores do arco-íris com fins publicitários, o Dia Internacional do Orgulho LGBTQIAPN+, celebrado neste domingo (28), permite que a sociedade tenha um momento de reflexão sobre diversidade, identidade e liberdade. Para celebrar a data, o g1 conversou com representantes da comunidade das regiões de Sorocaba e Jundiaí (SP) que compartilharam suas histórias de autoentendimento, amor e coragem por serem quem são e por amarem quem amam. 📲 Participe do canal do g1 Sorocaba e Jundiaí no WhatsApp Além dos depoimentos pessoais, cada pessoa respondeu à pergunta: "Por que se orgulhar?" Veja as respostas mais abaixo. Parada LGBTQIAPN+ em Sorocaba (SP) em 2025 @anallops/Reprodução A sigla, que hoje soma nove letras, um dia foi apenas "GLS", referindo-se a gays, lésbicas e "simpatizantes", englobando pessoas aliadas à causa. Ao longo dos anos, as identidades de gênero e as orientações sexuais, que sempre estiveram entre nós, começaram a "ganhar forma" com o aumento dos debates sobre o assunto e receberam termos específicos, incluídos na sigla da comunidade. Atualmente, as letras que compõem a sigla LGBTQIAPN+ referem-se a lésbicas, gays, bissexuais, pessoas transgênero, queer, intersexo, assexuais, pansexuais e não binárias. Outras identidades são representadas pelo símbolo “+”. 🏳️‍🌈 Lésbica (L) O Dia do Orgulho representa uma conquista que não para por aqui. Representa o início de uma jornada que não é leve ou fácil; é contínua. (...) A gente tem de sair para as ruas, falar sobre isso, mostrar na mídia. A gente tem de lembrar sempre que nós existimos, estamos aqui, e o Dia do Orgulho representa que nós não estamos sozinhos. Aline Marchetti, de 35 anos, professora e intérprete de Libras, é uma mulher lésbica de Sorocaba (SP) Arquivo pessoal Aline é de Sorocaba (SP), tem 35 anos, é professora e intérprete de Libras e se identifica como uma mulher lésbica. Ao g1, ela contou que o processo de entender-se lésbica foi doloroso. Afinal, por muito tempo ela não quis aceitar quem era. 🔎 Lésbica é uma mulher que se envolve romanticamente com outras mulheres, sejam elas cisgêneras ou transgêneras. "Eu sempre gostei de usar roupas mais largas, roupas masculinas, e eu me via em um cenário no qual usar esse tipo de roupa era uma 'Maria João', como me chamavam na escola. Eu me sentia mal, porque eu gostava de usar aquelas roupas, me sentia confortável, mas incomodava a sociedade. Para não incomodar, eu precisava não ser quem eu era", disse Aline. A importância da representação Aline casou-se há cinco meses e, depois que assumiu sua sexualidade, disse que se tornou uma pessoa mais livre e feliz. Além disso, ela afirma que tornou-se seu próprio apoio emocional na jornada de autodescoberta. A professora ainda contou que parte do processo de aceitação e normalização de uma relação lésbica por parte de sua família aconteceu com a ajuda da mídia, porque muitas das novelas a que sua mãe assistia eram protagonizadas por pessoas LGBT. "Entro de mãos dadas com minha esposa em restaurantes, shoppings e parques, e as pessoas naturalizaram isso, mas a gente também não pode generalizar. (...) Depois que assumi minha sexualidade, houve muito mais lutas e batalhas, principalmente por parte de minha mãe. Mas hoje a gente já superou isso, minha mãe ama minha esposa, e as duas batem altos papos. Meus irmãos também me ajudaram muito", acrescentou. 🏳️‍🌈 Gay (G) O Dia do Orgulho é um manifesto de coragem. De coragem de ser. A gente precisa levar em conta que a nossa realidade no Brasil é a do país que mais mata pessoas LGBT no mundo. E ter coragem para ser, viver e permanecer é um ato de bravura. E quem tem essa coragem deve sentir orgulho, sim. Carlos Eduardo Cardoso dos Santos, de Sorocaba (SP), é um homem gay e representa a letra 'G' da sigla LGBTQIAPN+ Arquivo pessoal Carlos Eduardo Cardoso dos Santos é analista de relações públicas em Sorocaba (SP) e um homem gay de 24 anos que pôde se assumir com o apoio de familiares e amigos ainda na adolescência. 🔎 O termo gay é popularmente associado a homens que gostam de homens, sejam eles cisgêneros ou transgêneros. "Me entender como homem gay eu sempre me entendi, desde criança, só não sabia o que era isso ainda. O processo veio mais dos outros do que de mim mesmo. As pessoas me apontavam como uma criança mais sensível, mais afeminada. Eu não me via assim. (...). Enquanto meus colegas estavam paquerando minhas amigas, eu não sentia atração por elas e foi aí que entendi que era diferente mesmo. Mas me permitir ser gay veio bem depois, depois do meu primeiro namorado, inclusive", disse Carlos. Segundo o sorocabano, muita coisa mudou depois de assumir sua sexualidade, principalmente em suas relações com as pessoas e com a família. Ele não precisou fazer uma "reunião familiar" para revelar sua orientação sexual. Tudo aconteceu de forma natural, o que, segundo ele, foi um alívio. "Em determinado momento, todos souberam. Com isso, a proximidade fica maior. Minha relação com meu pai, inclusive, melhorou muito mais depois disso. Mas a confiança que se ganha ao não precisar esconder ou ao menos 'pisar em ovos' sobre o assunto traz uma paz interior muito gratificante", pontuou. O analista ainda conta que teve apoio de amigos e de todos da família nesse processo, mas destaca o apoio da mãe, Aliete Cardoso, que, mesmo sendo de uma geração diferente, entendeu quem era o filho e esteve ao lado dele desde o primeiro segundo em que conversaram sobre o assunto. LEIA TAMBÉM Bispo de Jundiaí é nomeado representante da comunidade LGBTQIAPN+ no Brasil: 'Amor da igreja não exclui ninguém' Artista e analista que se conheceram durante recepção em república falam sobre rotina e desafios como casal transcentrado; entenda o termo Mãe trans do interior de SP relata que preconceitos não afetam a maternidade: 'Sou uma mãe completa' Grupos promovem ações de apoio à comunidade LGBTQIAPN+ em Itapetininga: 'Mudar indicadores sociais negativos' 🏳️‍🌈 Bissexual (B) É um dia de aceitação e de luta. Nos últimos anos, tivemos um retrocesso gigantesco na nossa comunidade. É importante observarmos como esse dia nos proporciona aceitação e acolhimento. Porém, como homem bissexual e profissional de psicologia, não podemos esquecer o quanto a expressão plena da sexualidade é uma conquista recente, e há, sim, necessidade de organização coletiva de toda a comunidade para que possamos viver plenamente relações e pertencer a espaços sem o julgamento e a violência social. Felipe da Silva Oliveira é um homem bissexual de Sorocaba (SP) Arquivo pessoal Felipe da Silva Oliveira, de 30 anos, é psicólogo em Sorocaba e se identifica como um homem bissexual. Segundo ele, compreender sua orientação sexual foi um processo complexo e cheio de questionamentos durante a adolescência. 🔎 Bissexual é o termo que se refere a pessoas que se sentem atraídas por homens e mulheres. "Na minha cabeça, até me descobrir, só fazia sentido a partir de um caminho só. A partir da vida adulta, o curso de psicologia foi me fazendo compreender, de forma mais clara, que a construção de sexualidade não é uma escolha ou definição preto no branco, mas sim um processo de descoberta. Isso tirou um peso gigantesco das minhas costas. Atualmente vivo de forma plena, entendendo que não estou confuso. Compreendo que a sexualidade é ampla e minha expressão é completamente válida", disse Felipe. Para Felipe, a principal mudança em sua vida depois de se assumir bissexual foi sentir a aceitação e o pertencimento na sociedade, pois, de acordo com ele, homens bissexuais costumam estar distantes de sua identidade quando não conseguem se assumir. "Sem dúvida nenhuma, minha mãe é minha maior influência. Desde pequeno, sempre tive espaço para conversar sobre tudo. E no início da vida adulta, quando conversei com ela (sobre ser bi), me apoiou e criou um espaço tão seguro que nunca pensei que poderia sofrer por isso", destacou. 🏳️‍🌈 Transexual (T) O dia reforça a importância da visibilidade. Muitas pessoas da comunidade, infelizmente, ainda enfrentam preconceito e dificuldade para serem reconhecidas e respeitadas. Por isso, ocupar espaços, ouvir essas histórias e enxergar a luta de tantas outras pessoas LGBTQ+ que vieram antes, abriram caminho e proporcionaram um cenário de maior liberdade para essa geração é tão importante. E continuar para que, cada vez mais, não haja a necessidade de lutar, apenas celebrar. Mar Carrasco, de Sorocaba (SP), é um homem trans que representa a letra 'T' da sigla LGBTQIAPN+ Arquivo pessoal Mar Carrasco tem 20 anos e é um homem transexual e bissexual de Sorocaba. Ele estuda jornalismo e é estagiário de comunicação. 🔎 Homem trans é um homem que não se identificou com o gênero de nascimento, diferente de pessoas cisgênero. Ao g1, o jovem contou que começou a se entender durante a pandemia, em 2021. Antes disso, o universo trans ainda era desconhecido por ele. "Com 14 ou 15 anos, é muito para um adolescente assimilar, principalmente sem um apoio presente, apenas uma comunidade que você vê na internet. É um processo até hoje (aceitação). Quando você transiciona, o ambiente em que você vive transiciona junto. Então, amigos, meus pais, pessoas que faziam parte do meu dia a dia também tiveram de se adaptar", disse o estudante. Depois da transição, Mar afirma que começou a se sentir mais confortável e feliz com a forma que poderia se expressar. Mesmo com esporádicos episódios de julgamento, hoje ele reconhece sua imagem no espelho. "Além de amigos próximos, meus pais (foram rede de apoio). Apesar de ser meu maior receio a recepção da minha família, eles são compreensivos e me dão algum suporte nas minhas decisões", pontuou. 🏳️‍🌈 Queer (Q) É uma celebração à nossa vida e à nossa existência, mas, acima de tudo, da nossa resistência, em se manter fiéis a nós mesmos, de reivindicar um lugar que, muitas vezes, é tirado. É um dia para a gente lembrar de tudo o que lutamos para chegar até aqui e de que ainda tem muito avanço pela frente que teremos de encarar. Bruno Camargo de Abreu é uma pessoa queer não-binária, maquiador e Drag Queen de Sorocaba (SP) Arquivo pessoal Bruno Camargo de Abreu tem 29 anos e, além de queer, é uma pessoa não-binária, maquiador e drag queen de Sorocaba. 🔎 Queer é um termo considerado "guarda-chuva", que abrange tanto identidades de gênero quanto orientações sexuais que sejam fora dos padrões. Além disso, Bruno destaca que queer pode ser um posicionamento político, como uma forma de questionar normas sociais sobre gênero. "Desde pequeno, sempre fui muito expressivo, e minha família sempre estimulou muito a minha criatividade. Quando me entendi como uma pessoa LGBTQIA durante a adolescência, foi algo natural para mim. Me senti à vontade para me expressar e reivindicar a minha individualidade de ser quem eu sou", disse Bruno. "Principalmente por vir do interior de São Paulo, acho que nunca é fácil ser a pessoa diferente, mas quando eu comecei a me maquiar e criei a minha drag, usei isso como um escudo contra o preconceito de uma cidade conservadora, e senti que minha confiança em ser quem eu sou tinha se firmado", acrescentou. O maquiador ainda relata que sua mãe sempre esteve presente em seu processo de autodescoberta e foi a pessoa que mais lhe apoiou enquanto artista e pessoa queer. "Foi minha defensora desde que eu era criança. E, apesar de não ter me ensinado a revidar uma briga, eu sei que, se ela precisasse, ela iria brigar por mim até hoje." 🏳️‍🌈 Pansexual (P) O dia do orgulho aparece para mim do mesmo jeito que a representatividade LGBTQ+ com figuras públicas, me faz sentir como se estivesse numa grande parada. É entender que, mesmo sob alguns olhares mal dados, nossa moral não deve baixar. (...) Portanto, somente nos mobilizando juntos é que poderemos acabar com o preconceito contra a comunidade. Matheus Henrique Pinheiro Massari, de 20 anos, é fotógrafo e uma pessoa não-binária pansexual de Sorocaba (SP) Arquivo pessoal Henrique Pinheiro Massari tem 20 anos, é fotógrafo e uma pessoa não-binária pansexual de Sorocaba. 🔎 Pansexual é o termo usado para a orientação caracterizada pela atração romântica por pessoas, independentemente do sexo ou identidade de gênero. "Antes de me permitir entender a atração, houve muita negação. Eu me sentia confuso e até tinha um certo preconceito induzido pela família", iniciou. "Depois de alguns fatos, como conhecer um primo que é assumidamente gay, meu melhor amigo se assumir gay e eu passar a entender um pouco mais sobre política e cidadania, passei a me permitir processar e entender a atração que eu sentia, que era independente de gênero. Eu me atraio pela pessoa, seus traços, sua beleza, personalidade, conversa, sem me importar com gênero", disse. Massari também contou que demorou para se assumir para a família, e que apenas alguns familiares e amigos sabem de sua identidade e orientação sexual. No entanto, o tempo lhe permitiu entender que não deve satisfação de sua vida particular para ninguém, apesar de que assumir ser pan e não-binário também causa apreensão. "Com quem ando, com quem durmo, quem eu amo, são assuntos que só dizem respeito a mim. Isso me ajudou muito a buscar independência das opiniões alheias. Sempre fui uma pessoa que sentia medo do julgamento. Hoje, não tenho mais", afirmou. "Ainda assim, não posso negar que sinto certo medo do preconceito. Estou à vontade com a ideia de que possam não gostar de mim — nem todo mundo gosta, é normal. Mas me estremece a ideia de que posso ser agredida simplesmente por meu gênero e sexualidade", completou. O maior apoio de Massari em sua jornada foi seu melhor amigo de infância. Ele foi a primeira pessoa a saber sobre a identidade e orientação sexual do fotógrafo. "Minha psicóloga também. [Ela] me atende desde muito pequeno e me ajudou a lidar com os preconceitos da família conservadora que me cerca. Muitos outros amigos e até mesmo alguns primos também me proporcionaram a segurança que eu precisava para ser eu mesma. E isso, mesmo que discretamente, me ajudou muito a entender que eu não preciso da aprovação para sentir o que eu sinto", finalizou. 🏳️‍🌈 Não-binário (N) Nos últimos meses, temos acompanhado um movimento muito preocupante de parte da comunidade investida numa segregação 'anti-trans', que parece esquecer que os direitos conquistados nas últimas décadas são resultado da organização coletiva de pessoas LGBTQIAPN+, com protagonismo histórico de pessoas trans e travestis, que estiveram e estão na linha de frente da resistência quando reivindicar a própria existência ainda significa enfrentar níveis ainda maiores de violência e criminalização. Celebrar o Dia do Orgulho também é preservar essa memória. Fetú Nicioli Cerioni, de Jundiaí (SP), é uma pessoa não-binárie Lux Pires/Reprodução Fetú Nicioli Cerioni, que usa os pronomes "elu" e "delu", é artista de dança e atua na área de pesquisa em Jundiaí (SP). Fetú tem 25 anos e começou a questionar seu gênero ainda na adolescência. 🔎 Não-binário é o termo que se refere, especificamente, à identidade de gênero, quando a pessoa não se identifica como homem ou como mulher, podendo transitar entre os gêneros e ser uma pessoa de gênero fluido. "Meu pai é jornalista e escritor, minha mãe, psicanalista e professora, então nossa casa sempre foi um espaço de muito debate e reflexão, principalmente sobre gênero. Foi durante a pandemia, em meio à minha graduação em Dança na Unicamp, que me aproximei dos debates sobre não-binariedade, por meio da Teoria Queer, e passei a compreender o gênero em sua dimensão fundamentalmente social — e aí não tinha mais volta", contou Fetú. "Compreendo a não-binariedade como uma parte da minha experiência de vida e de dança, não apenas como uma identidade. Me entender como pessoa não-binária me convidou e convida, todos os dias, a estabelecer relações menos dicotômicas com o meu entorno, buscando perceber as pessoas como pessoas antes de entendê-las como homens ou mulheres", acrescentou. Fetú reconhece que tem o privilégio de ter uma família amorosa e engajada em movimentos sociais. Antes de falar sobre seu entendimento, a irmã e o primo mais velho já haviam assumido suas sexualidades e, depois, um primo mais novo também se reconheceu como uma pessoa trans — todos foram acolhidos. "Gostaria, porém, de sublinhar a importância da parceria da minha mãe no meu processo de transição. Hoje ela coordena uma clínica social de psicanálise que atende pessoas LGBTQIAPN+, além de oferecer cursos, oficinas, palestras e capacitações acerca do atendimento clínico à comunidade. Além disso, a companhia de minhes amigues, principalmente minhas amizades cuír/queer, são inestimáveis nesse processo. É uma delícia desobedecer acompanhade", destacou. Para Fetú, o Dia do Orgulho é uma oportunidade de retomar a história da data e mencionar nomes importantes para a comunidade, como Marsha P. Johnson, que ficou conhecida como símbolo da Revolta de Stonewall. Uma pessoa negra, gênero-dissidente, que esteve à frente da resposta à violenta batida policial no Stonewall Inn, em 28 de junho de 1969. "Não há como contar a história das conquistas da população LGBTQIAPN+ sem reconhecer o papel fundamental das pessoas trans na construção dos movimentos sociais, na luta por direitos e na ampliação das possibilidades de existência para toda a comunidade", finalizou. Initial plugin text Veja mais notícias da região no g1 Sorocaba e Jundiaí VÍDEOS: assista às reportagens da TV TEM