Tartarugas-cabeçudas, como 'Jorge', voltam a aparecer na Baía de Guanabara e intrigam biólogos

Piemonte Escrito em 24/04/2026


Tartarugas-cabeçudas, como 'Jorge', voltam a aparecer na Baía de Guanabara A paisagem do Píer da Piedade, em Magé, na Região Metropolitana do Rio, tem ganhado novos protagonistas nos últimos meses. Um aumento atípico de tartarugas-cabeçudas na Baía de Guanabara começou a ser observado por pescadores e biólogos. Segundo o Projeto Aruanã, que há 15 anos atua no monitoramento de tartarugas marinhas em Itaipu, Niterói, nunca houve tantos registros da espécie dentro da baía. Agora, a iniciativa entra em uma nova fase, ampliando a atuação para o litoral de Magé e iniciando a marcação desses animais. A bióloga Larissa Araújo, coordenadora de campo do projeto, explica que a cooperação com pescadores tem sido fundamental para acessar as tartarugas. “A gente já tem uma história de parceria com os pescadores artesanais em Itaipu e agora está ampliando para a Baía de Guanabara. Com o apoio deles, estamos conseguindo acessar a tartaruga-cabeçuda e iniciar um novo processo de marcação dessa espécie que está aparecendo aqui dentro da baía”, afirma. Técnicas de pesca Pesca com rede de arrasto é usada em parceria com biólogos para monitorar tartarugas-cabeçudas em Itaipu Projeto Aruanã/Divulgação A captura dos animais ocorre com o apoio de técnicas tradicionais de pesca. Em Itaipu, o projeto utiliza o arrasto de praia e equipamentos específicos. Em Magé, a novidade é o uso do “curral de peixe” — uma estrutura fixa que funciona como um funil no mar. No curral, os peixes entram por aberturas largas e seguem por compartimentos até ficarem retidos. As tartarugas, maiores, não chegam ao final e acabam permanecendo em áreas intermediárias, onde podem ser resgatadas sem ferimentos. “Não tem rede, não tem nada que machuque elas. Elas entram, se alimentam e a gente consegue observar e depois soltar”, explica o pescador João, que trabalha com a técnica há décadas. Curral também é usado para encontrar as tartarugas, que são catalogadas por biólogos Valentina Duprat/TV Globo Foi nesse tipo de estrutura que o pescador Uallace Santos começou a resgatar tartarugas-cabeçudas. Ele relata que o primeiro registro foi em julho de 2025. “Eu comecei a registrar tudo porque pescador tem fama de mentiroso. Se não tiver como provar, ninguém vai acreditar em você", conta. Tartaruga Jorge, a 'pioneira' Tartaruga Jorge precisou passar por readaptação antes de ser reinserida ao mar De acordo com os relatos, o aumento no número de tartarugas coincidiu com a passagem de um animal que ganhou notoriedade: a tartaruga-cabeçuda Jorge, monitorada por satélite após ser solta na Argentina depois de décadas em cativeiro. "A gente não teve mais notícia do Jorge, mas a gente já está até brincando que ele chamou a turma dele para entrar na Baía de Guanabara também, que aqui é o local que está bem legal para eles virem morar", brinca a bióloga. O sinal do transmissor indicou que o animal chegou à Baía de Guanabara, onde permaneceu por cerca de uma semana antes de desaparecer. "Pode ser falha no equipamento, pode ser a bateria que acabou, pode ser porque perdeu mesmo o equipamento, vários motivos... É esperado mesmo, esse transmissores têm uma vida útil e eles não duram para sempre", diz Larissa. Rota de nado de Jorge, tartaruga resgatada após 40 anos em cativeiro Divulgação Motivo da migração é desconhecido Para os pesquisadores, ainda não é possível afirmar por que a espécie, considerada mais oceânica, passou a frequentar a baía. Uma das hipóteses é a oferta de alimento. “A Baía de Guanabara é riquíssima. Tem camarão, que é um dos alimentos preferidos delas. A presença dessa espécie aqui levanta várias perguntas sobre o que está atraindo esses animais”, diz Larissa. Início do monitoramento No último fim de semana, duas tartarugas-cabeçudas foram capturadas, medidas e marcadas pelo projeto — as primeiras desse tipo na região. Os animais, com cerca de 80 centímetros de casco, podem ter entre 15 e 20 anos. A expectativa dos pesquisadores é que o monitoramento permita entender a origem e o comportamento dessas tartarugas, inclusive com estudos genéticos. Enquanto isso, a rotina no mar segue com novos encontros. Já foram pelo menos oito registros recentes, alguns acompanhados por moradores e até crianças, levadas pelos pescadores para ver de perto os animais antes da soltura. “Podem contar comigo para salvar essas tartarugas. A gente vai continuar resgatando e soltando”, diz Uallace.