Antiga Serraria do Parque Ibirapuera pode ser reformada para abrigar pontos comerciais Arquivo pessoal A concessionária Urbia, gestora do Parque Ibirapuera, na Zona Sul de São Paulo, quer implementar um novo polo comercial na antiga Serraria da Praça Burle Marx. A proposta prevê que o espaço, atualmente utilizado para lazer ao ar livre, passará a ser ocupado por restaurantes, lojas e uma academia. O plano também inclui a construção de uma laje fechada por vidraças na parte de cima do centenário galpão, ampliando a área construída para abrigar as novas atividades comerciais. Antes de sair do papel, o projeto precisa ser aprovado pelos órgãos de proteção do patrimônio, já que o conjunto do Ibirapuera é tombado nas esferas municipal, estadual e federal. Em janeiro, o Departamento do Patrimônio Histórico (DPH) da prefeitura emitiu um parecer contrário à reforma, apontando possível descaracterização da obra original e prejuízo ao paisagismo da área (leia mais abaixo). Apesar da negativa técnica, a diretora do DPH, Marília Barbour, encaminhou a proposta para análise do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp), argumentando que o plano de intervenções da concessão não deve ser visto como "algo imutável, que não possa ser revisto, desde que devidamente justificado". A votação estava prevista para a reunião desta segunda-feira (23), mas foi adiada pois o conselheiro responsável ainda não havia concluído o seu relatório. Movimentação de visitantes na Serraria e Praça Burle Marx, no Parque Ibirapuera A Serraria é uma estrutura industrial remanescente da década de 1930 — anterior à criação do parque — e servia originalmente para a conservação de bondes e marcenaria. Em 1992, o espaço foi requalificado pelo renomado paisagista Roberto Burle Marx, que integrou o galpão a uma praça com espelhos d'água, fontes e vegetação nativa em frente ao Viveiro Manequinho Lopes. Diante da ameaça de descaracterização, paisagistas protocolaram um pedido de tombamento específico para o conjunto. O grupo argumenta que o tombamento genérico do parque é insuficiente para proteger o monumento, um dos raros espaços públicos projetados por Burle Marx em São Paulo, e destaca a diversidade de usos da Serraria pelo público do Ibirapuera. "São acolhidas atividades de leitura, de contemplação, práticas de arte da cultura oriental que focam no equilíbrio corpo-mente, longevidade e harmonia coletiva", diz o documento assinado pelas arquitetas Cássia Mariano, Francine Sakata e Maria Claudia de Oliveira. Projeto de reforma da Serraria prevê construção de laje e fechamento do pavimento superior com vidraças Reprodução/Urbia A proposta da Urbia também enfrenta resistência na Câmara Municipal. A vereadora Renata Falzoni (PSB) enviou um ofício à Secretaria de Cultura solicitando celeridade na análise do tombamento para evitar "situação de insegurança jurídica e possível dano ao patrimônio". O vereador Nabil Bonduki (PT) também se manifestou publicamente, solicitando a retirada do item da pauta do Conpresp por entender que o projeto desrespeita o patrimônio histórico, arquitetônico e paisagístico ali existente. Após apontamentos dos órgãos de defesa do patrimônio no ano passado, a concessionária Urbia fez ajustes no projeto, substituindo o fechamento em alvenaria por painéis de vidro e reduzindo o número de pontos comerciais — para o DPH, o excesso poderia transformar um local de contemplação e práticas espontâneas em uma "praça de alimentação" saturada. Mesmo com as alterações, o departamento considerou que a ocupação proposta — 57% no térreo e 89% no pavimento superior — continua violando as diretrizes de ocupação máxima de 50% e 30%, respectivamente. O parecer avalia que isso compromete a fluidez visual e limita o uso público do espaço. Proposta da Urbia para reforma na Serraria do Ibirapuera prevê pontos comerciais no térreo e em piso superior Reprodução/Urbia O órgão também criticou a falta de um plano de restauro paisagístico fiel ao projeto original, citando uma frase do próprio Burle Marx: "Não nos esqueçamos de que a paisagem também se define por uma exigência estética, que não é nem luxo nem desperdício, mas uma necessidade absoluta para a vida humana e sem a qual a própria civilização perderia sua razão de ser", diz trecho do parecer. O Parque Ibirapuera foi concedido à iniciativa privada em 2020, durante a gestão do ex-prefeito Bruno Covas (PSDB). O contrato deu à Urbia o direito de explorar comercialmente a área pública durante 35 anos. A concessionária pertencente à empresa Construcap tem a locação de espaços para alimentação entre suas principais fontes de receita. Nos últimos anos, os quiosques, lanchonetes e restaurantes se multiplicaram pelo parque. Outros parques da capital passaram por processos similares após concessão, como o Villa-Lobos e o Água Branca, na Zona Oeste. Ambos tiveram crescimento nas ações comerciais patrocinadas por grandes marcas e eventos. Marquise do Parque Ibirapuera é reaberta depois de revitalização
Urbia quer transformar Serraria do Parque Ibirapuera em centro comercial com restaurantes, lojas e academia
Piemonte Escrito em 24/02/2026
Antiga Serraria do Parque Ibirapuera pode ser reformada para abrigar pontos comerciais Arquivo pessoal A concessionária Urbia, gestora do Parque Ibirapuera, na Zona Sul de São Paulo, quer implementar um novo polo comercial na antiga Serraria da Praça Burle Marx. A proposta prevê que o espaço, atualmente utilizado para lazer ao ar livre, passará a ser ocupado por restaurantes, lojas e uma academia. O plano também inclui a construção de uma laje fechada por vidraças na parte de cima do centenário galpão, ampliando a área construída para abrigar as novas atividades comerciais. Antes de sair do papel, o projeto precisa ser aprovado pelos órgãos de proteção do patrimônio, já que o conjunto do Ibirapuera é tombado nas esferas municipal, estadual e federal. Em janeiro, o Departamento do Patrimônio Histórico (DPH) da prefeitura emitiu um parecer contrário à reforma, apontando possível descaracterização da obra original e prejuízo ao paisagismo da área (leia mais abaixo). Apesar da negativa técnica, a diretora do DPH, Marília Barbour, encaminhou a proposta para análise do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp), argumentando que o plano de intervenções da concessão não deve ser visto como "algo imutável, que não possa ser revisto, desde que devidamente justificado". A votação estava prevista para a reunião desta segunda-feira (23), mas foi adiada pois o conselheiro responsável ainda não havia concluído o seu relatório. Movimentação de visitantes na Serraria e Praça Burle Marx, no Parque Ibirapuera A Serraria é uma estrutura industrial remanescente da década de 1930 — anterior à criação do parque — e servia originalmente para a conservação de bondes e marcenaria. Em 1992, o espaço foi requalificado pelo renomado paisagista Roberto Burle Marx, que integrou o galpão a uma praça com espelhos d'água, fontes e vegetação nativa em frente ao Viveiro Manequinho Lopes. Diante da ameaça de descaracterização, paisagistas protocolaram um pedido de tombamento específico para o conjunto. O grupo argumenta que o tombamento genérico do parque é insuficiente para proteger o monumento, um dos raros espaços públicos projetados por Burle Marx em São Paulo, e destaca a diversidade de usos da Serraria pelo público do Ibirapuera. "São acolhidas atividades de leitura, de contemplação, práticas de arte da cultura oriental que focam no equilíbrio corpo-mente, longevidade e harmonia coletiva", diz o documento assinado pelas arquitetas Cássia Mariano, Francine Sakata e Maria Claudia de Oliveira. Projeto de reforma da Serraria prevê construção de laje e fechamento do pavimento superior com vidraças Reprodução/Urbia A proposta da Urbia também enfrenta resistência na Câmara Municipal. A vereadora Renata Falzoni (PSB) enviou um ofício à Secretaria de Cultura solicitando celeridade na análise do tombamento para evitar "situação de insegurança jurídica e possível dano ao patrimônio". O vereador Nabil Bonduki (PT) também se manifestou publicamente, solicitando a retirada do item da pauta do Conpresp por entender que o projeto desrespeita o patrimônio histórico, arquitetônico e paisagístico ali existente. Após apontamentos dos órgãos de defesa do patrimônio no ano passado, a concessionária Urbia fez ajustes no projeto, substituindo o fechamento em alvenaria por painéis de vidro e reduzindo o número de pontos comerciais — para o DPH, o excesso poderia transformar um local de contemplação e práticas espontâneas em uma "praça de alimentação" saturada. Mesmo com as alterações, o departamento considerou que a ocupação proposta — 57% no térreo e 89% no pavimento superior — continua violando as diretrizes de ocupação máxima de 50% e 30%, respectivamente. O parecer avalia que isso compromete a fluidez visual e limita o uso público do espaço. Proposta da Urbia para reforma na Serraria do Ibirapuera prevê pontos comerciais no térreo e em piso superior Reprodução/Urbia O órgão também criticou a falta de um plano de restauro paisagístico fiel ao projeto original, citando uma frase do próprio Burle Marx: "Não nos esqueçamos de que a paisagem também se define por uma exigência estética, que não é nem luxo nem desperdício, mas uma necessidade absoluta para a vida humana e sem a qual a própria civilização perderia sua razão de ser", diz trecho do parecer. O Parque Ibirapuera foi concedido à iniciativa privada em 2020, durante a gestão do ex-prefeito Bruno Covas (PSDB). O contrato deu à Urbia o direito de explorar comercialmente a área pública durante 35 anos. A concessionária pertencente à empresa Construcap tem a locação de espaços para alimentação entre suas principais fontes de receita. Nos últimos anos, os quiosques, lanchonetes e restaurantes se multiplicaram pelo parque. Outros parques da capital passaram por processos similares após concessão, como o Villa-Lobos e o Água Branca, na Zona Oeste. Ambos tiveram crescimento nas ações comerciais patrocinadas por grandes marcas e eventos. Marquise do Parque Ibirapuera é reaberta depois de revitalização
