A ciência por trás da paternidade: como a participação ativa na criação dos filhos pode mudar o cérebro dos pais

Piemonte Escrito em 12/08/2026

As mudanças no cérebro dos homens que cuidam dos filhos “Meu pai é o amor da minha vida.” A declaração resume, para uma filha, a importância de ter um pai presente. Participativo desde sempre, ele aparece na rotina não apenas nos grandes momentos, mas também nas pequenas situações do dia a dia. “Hoje mesmo fui buscar meu colégio, paramos ali, fizemos um lanche. Conversamos coisas bonitas”, conta. A experiência de ter recebido esse tipo de cuidado também influencia a forma como ela pretende exercer a maternidade: “Eu tento ser para ela o que meu pai foi para mim. Meu pai é a pessoa mais bondosa que eu conheço nesse mundo.” A ciência mostra que esse envolvimento não transforma apenas a relação entre pais e filhos. A chegada de uma criança também provoca mudanças profundas nos próprios homens. O que acontece com o cérebro do pai Durante a gravidez, a mãe passa nove meses convivendo fisicamente com o bebê. O pai, por outro lado, começa a experimentar a paternidade de outra maneira. Quando a criança nasce, porém, a experiência deixa de ser abstrata. Entram na rotina as noites maldormidas, as fraldas, o banho, a alimentação e a necessidade de interpretar os sinais do bebê. O livro “O cérebro do pai” descreve essa transformação. Segundo o conteúdo apresentado, pais participativos podem apresentar alterações no cérebro associadas ao novo papel. Exames de imagem mostram uma redução de massa cinzenta em algumas regiões. A mudança, no entanto, não significa simplesmente uma perda. A explicação apresentada é que o cérebro passa por uma espécie de otimização: circuitos considerados menos importantes são podados para aumentar o foco nos sinais e nas necessidades do bebê. A transformação também pode aparecer no comportamento. “Cuidar é um tipo de amor que se aprende.” Para muitos homens, aprender a cuidar significa romper com aquilo que receberam como modelo durante a própria infância. Pais que precisam aprender a cuidar Alguns homens querem participar mais da criação dos filhos e quebrar ciclos familiares, mas encontram uma dificuldade básica: eles próprios não foram ensinados a cuidar. Em uma sociedade marcada por uma divisão tradicional de papéis, muitos cresceram sem aprender tarefas domésticas ou cuidados cotidianos com crianças. “Alguns pais se envolvem, querem quebrar os ciclos geracionais, mas eles não sabem nem por onde começar por causa de uma criação machista, não aprenderam a cuidar de uma casa”. A mudança, portanto, passa também por aprendizado. “Com ele eu tive que aprender tudo.” Esse processo pode ser ainda mais complexo quando o filho é neurodivergente. Nesse caso, além da rotina comum de cuidados, o pai pode precisar aprender a lidar com necessidades específicas, consultas e diferentes profissionais. Um dos exemplos apresentados é o de um pai que trabalha vendendo churros para conseguir investir no tratamento do filho. A criança passa por acompanhamento com psicólogo, psiquiatra e psicopedagogo, além de equipes especializadas. Quando o filho adoece, é ele quem corre atrás dos medicamentos, leva à emergência e permanece no hospital quando há necessidade de internação. Presença também é cuidado A participação paterna, porém, não depende apenas de dinheiro. O material mostra que, quanto menor a renda, menor tende a ser a probabilidade de um pai morar com o filho. Ainda assim, há homens que fazem da presença uma prioridade. “Eu que tenho que lutar para que Deus me dê saúde, para que eu possa ver meu filho crescer e seja um homem no futuro.” A presença pode aparecer também na maneira como o pai reage às emoções da criança. Um exemplo citado é o do príncipe William, que foi fotografado diversas vezes se abaixando para conversar com os filhos. O gesto é associado à chamada escuta ativa: colocar-se na altura da criança e estabelecer uma comunicação mais próxima. Em uma situação em que os filhos haviam feito algo errado, ele percebeu que as crianças já tinham entendido o erro. Em vez de aumentar a bronca, optou por ajudá-las a lidar com o que havia acontecido. “Era hora de eu limpar a ferida e tentar acalmar eles.” Segundo o conteúdo do livro, esse tipo de comportamento está relacionado à capacidade do pai de praticar o autocontrole e, dessa forma, ajudar a regular também as emoções dos filhos. A paternidade também pesa para os homens A ideia de que o pai precisa apenas “dar conta” da família pode esconder os impactos emocionais da chegada de um filho. O material aponta que um em cada dez pais pode experimentar irritabilidade ou tristeza. O risco de transtornos de humor e ansiedade é maior entre as mães, mas os homens também passam por alterações hormonais e pelos efeitos da privação de sono. A rotina pode afetar inclusive o peso. Pais participativos podem ganhar mais peso, em parte por causa da mudança na qualidade do sono e das alterações no metabolismo. O próprio comportamento observado em outros animais ajuda pesquisadores a levantar hipóteses sobre essa transformação. Em algumas espécies, machos engordam antes ou depois do nascimento dos filhotes. Uma das teorias é que essa reserva de gordura possa estar relacionada à proteção da cria em períodos de escassez. O pai provedor está perdendo espaço Durante muito tempo, o modelo dominante foi o do pai responsável por colocar comida na mesa e da mãe como principal cuidadora. Esse formato vem perdendo espaço com a entrada das mulheres no mercado de trabalho e a transformação da economia. As mulheres passaram a acumular funções profissionais e domésticas, enquanto os homens são cada vez mais pressionados a participar também da criação dos filhos. O livro aponta, porém, que a comparação pode ser injusta. Algumas mães avaliam a participação do parceiro a partir do próprio nível de envolvimento, enquanto alguns homens se comparam ao comportamento dos pais que tiveram. Outro obstáculo pode surgir dentro de casa. Mães que querem ajudar, mas controlam excessivamente a maneira como o pai cuida do bebê, podem fazer com que ele se acomode ou se sinta excluído. A recomendação apresentada é cobrar presença, mas permitir que o pai desenvolva seu próprio jeito de cuidar e educar. “Ninguém nasce sabendo.” A ideia é simples: assim como ninguém nasce sabendo administrar uma empresa ou exercer uma profissão, ninguém precisa nascer sabendo ser pai. A habilidade de cuidar também é construída com prática. Quando o pai precisa ser pai sozinho Se criar um filho já exige uma rede de apoio, o desafio aumenta quando essa rede praticamente desaparece. Um dos casos apresentados é o de Deco, que faz parte dos cerca de 1,2 milhão de pais solo no Brasil, segundo o material. Ele passou quatro anos cuidando sozinho do filho, conciliando escola, trabalho e casa. “Foi uma coisa muito grande para mim. Eu tive que levar para o meu trabalho, levar para a escola, voltar para o meu trabalho, ir para casa.” A situação se tornou ainda mais difícil quando o restaurante onde trabalhava fechou. Em meio às dificuldades, ele buscou ajuda psicológica. Também encontrou uma forma de transformar a experiência em música: começou a compor usando instrumentos virtuais. O emprego em uma escola e a bolsa de estudos conquistada pelo filho acabaram virando parte das canções. Uma aldeia para criar uma criança “É preciso uma aldeia inteira para educar uma criança.” A expressão resume outro ponto destacado pelo livro: criar um filho é uma tarefa que exige apoio. Com a vida moderna e a urbanização, as antigas redes de apoio foram se enfraquecendo. Famílias vivem mais distantes umas das outras e, muitas vezes, dois adultos precisam dar conta sozinhos de uma rotina que envolve trabalho, casa, escola e cuidados. Por isso, dificuldades enfrentadas pelos pais não deveriam ser interpretadas simplesmente como falta de capacidade. “Quando o homem está passando por um momento difícil após o nascimento de um filho, dizemos que ele não é um bom pai, que não nasceu para ser pai. Mas criar um filho é trabalho demais até mesmo para duas pessoas.” Pais presentes beneficiam também os filhos A participação do pai não representa apenas uma mudança na vida dele. De acordo com o conteúdo apresentado, crianças que têm pais presentes tendem a apresentar mais habilidades sociais, melhor saúde mental e melhor desempenho escolar. E os efeitos podem chegar ao próprio comportamento dos homens. Quem vive com os filhos tende a adotar hábitos mais saudáveis, dirigir com mais cuidado, usar mais protetor solar e se envolver menos com drogas, álcool e brigas. Celebrar a paternidade participativa, porém, não significa ignorar a sobrecarga histórica das mulheres. As mães continuam sendo as principais responsáveis pelos cuidados com os filhos e, muitas vezes, não recebem o reconhecimento e o apoio necessários. A proposta, segundo o livro, não é transformar a parentalidade em uma disputa entre homens e mulheres. Quanto mais os pais participam ativamente da criação, menor tende a ser a sobrecarga das mães. No fim, a transformação da paternidade não beneficia apenas os homens que aprendem a cuidar. Ela pode criar relações mais próximas, crianças mais amparadas e famílias com uma divisão mais equilibrada das responsabilidades. GloboPop: clique para ver os vídeos do palco do Fantástico Ouça os podcasts do Fantástico ISSO É FANTÁSTICO O podcast Isso É Fantástico está disponível no g1 e nos principais aplicativos de podcasts, trazendo grandes reportagens, investigações e histórias fascinantes em podcast com o selo de jornalismo do Fantástico: profundidade, contexto e informação. Siga, curta ou assine o Isso É Fantástico no seu tocador de podcasts favorito. Todo domingo tem um episódio novo.