Jovem teve conta bloqueada e mandado de prisão falso após invasão de sistema da Justiça

Piemonte Escrito em 01/09/2026


Fantástico investiga mercado de logins Uma jovem que entrou ainda adolescente em comunidades criminosas na internet teve a conta bancária bloqueada e descobriu que havia um mandado de prisão fraudulento contra ela. A ordem havia sido emitida em Goiás, embora ela não morasse no estado. O caso foi revelado pelo Fantástico deste domingo, 1º, que investigou um mercado clandestino de venda de logins e senhas de servidores públicos e autoridades. 📱Favorite o g1 no Google e acompanhe as principais notícias do dia Segundo a jovem, os criminosos conseguiram bloquear a conta e o dinheiro que ela tinha. Na época, o valor era de cerca de R$ 100. “Bloquearam minha conta. Bloquearam o valor que eu tinha, que era de R$ 100 na época, e você não consegue desbloquear nem ligando pro banco”, contou. Ela também relatou que os criminosos podem usar dados obtidos ilegalmente para criar problemas judiciais contra outras pessoas. “E na maioria das vezes, se eu moro, por exemplo, em tal lugar, eles não vão botar o mandado dessa cidade, vão botar em outro estado.” O Fantástico procurou o Tribunal de Justiça de Goiás e confirmou que, no caso da jovem, a ordem era fraudulenta. A investigação do tribunal também apontou que o problema não era isolado. LEIA TAMBÉM: Mercado clandestino invade sistemas públicos, adultera processos, apaga multas e até altera mandados de prisão Bandidos vendem acessos a sistemas públicos do Brasil. Reprodução/TV Globo/Fantástico Senhas de magistrados foram roubadas A divisão de inteligência do Tribunal de Justiça de Goiás investiga o roubo de senhas e logins utilizados para acessar sistemas da Justiça. Segundo o tribunal, credenciais de servidores e dos próprios magistrados foram usadas para inserir, alterar ou excluir informações. “Credenciais de acesso subtraídas de servidores ou dos próprios magistrados têm sido utilizadas para poder fraudar, inserir, alterar, não é, ou excluir, inclusive ordens de prisão dos bancos nacionais”, afirmou um representante do tribunal. Em uma das operações, foram identificadas cerca de 140 adulterações no Banco Nacional de Mandados de Prisão. As alterações incluíam informações incorretas que poderiam fazer com que pessoas inocentes fossem presas. Ao todo, o tribunal identificou 350 acessos fraudulentos. A polícia chegou a prender um casal que participava das invasões. Segundo a reportagem, os dois respondem ao processo em liberdade. Mercado clandestino burla sistemas públicos, altera processos, apaga multas e até retira mandatos de prisão. Reprodução/TV Globo Mercado clandestino vende acessos a sistemas A investigação do Fantástico acompanhou durante um mês grupos de conversa, fóruns clandestinos e outros ambientes da internet onde são negociados logins, senhas e credenciais de acesso a sistemas públicos e privados. Os criminosos oferecem serviços que vão desde consultas de dados até alterações em sistemas da Justiça. Em uma das negociações, um criminoso afirmou que poderia retirar um mandado de prisão de um processo. “R$ 250. Deixo pelos 1000. Precisa do número do processo. R$ 1000 para retirar um processo”, disse. Também são vendidos os chamados “painéis”, sistemas que reúnem informações obtidas ilegalmente. Entre os dados anunciados estão informações de imposto de renda, compras online, saúde, funcionários e vacinas. O Ministério Público do Rio Grande do Sul recebeu da reportagem as informações sobre os acessos oferecidos pelos criminosos. Investigadores testaram as credenciais com autorização e concluíram que parte do material era funcional. Mercado clandestino burla sistemas públicos, altera processos, apaga multas e até retira mandatos de prisão. Reprodução/TV Globo Investigação aponta ligação com crime organizado As investigações em Goiás também encontraram uma conexão entre os grupos que comercializam os acessos e organizações criminosas. Segundo um investigador, os grupos passaram a ganhar dinheiro com serviços prestados ao crime organizado para alterar, excluir ou dar baixa em informações dos bancos de dados da Justiça. Questionado se havia sido comprovada uma ligação entre esses grupos e facções criminosas, o investigador respondeu: “Com certeza. Comando Vermelho, eu diria as principais organizações criminosas, sem nominar uma somente.” O mercado de credenciais, segundo a reportagem, não se limita à venda de informações. Os dados também podem ser usados para atacar pessoas, em práticas como chantagem e sextorsão. A jovem ouvida pelo Fantástico contou que, quando entrava em conflito com alguém, ela própria recorria a conhecidos que tinham acesso a painéis para obter informações sobre a pessoa. “Tudo que você tinha contra a pessoa, fotos de toda a família, você jogava lá enquanto ela fazia o mesmo com você.” O caso mostra como o roubo de uma credencial de acesso a um sistema protegido pode ultrapassar o ambiente digital e produzir consequências concretas na vida de uma pessoa: dinheiro bloqueado, informações alteradas e até uma ordem judicial fraudulenta. GloboPop: clique para ver os vídeos do palco do Fantástico Ouça os podcasts do Fantástico ISSO É FANTÁSTICO O podcast Isso É Fantástico está disponível no g1 e nos principais aplicativos de podcasts, trazendo grandes reportagens, investigações e histórias fascinantes em podcast com o selo de jornalismo do Fantástico: profundidade, contexto e informação. Siga, curta ou assine o Isso É Fantástico no seu tocador de podcasts favorito. Todo domingo tem um episódio novo.