'Todas as pessoas usam máscaras': por que fantasias, fetiches e vivências reprimidas são liberados no carnaval, segundo especialistas

Piemonte Escrito em 12/02/2026


Foliões no bloco Chá da Alice, no Centro do Rio Alex Ferro / Riotur Fantasias ousadas, corpos seminus, encarnação de personagens e novas vivências relacionadas à sexualidade. Para muitos foliões, o carnaval funciona como um período de suspensão das regras sociais, em que desejos e comportamentos normalmente reprimidos ganham espaço nas ruas, nos blocos e até na Marquês de Sapucaí. Entre glitter, plumas e fantasias, muitos encontram no carnaval a chance de viver, ainda que por alguns dias, versões de si que costumam ficar escondidas no resto do ano. Especialistas ouvidas pelo g1 explicam que o fenômeno não significa que o carnaval “crie” fetiches ou vontades, mas que o ambiente de permissividade facilita a expressão de desejos que já existem nas pessoas. Além disso, especialistas reforçam que orientação sexual e fetiche são coisas diferentes e não devem ser confundidas. “Tenho 39 anos de carreira e posso dizer que todas as pessoas usam máscaras. Isso não significa que seja algo ruim, é apenas uma forma de proteção do ego para enfrentar o mundo. São pessoas ocupando papéis na vida. Fazendo um link com o carnaval, posso dizer que, nesse período, algumas pessoas deixam de lado essas máscaras e se revelam”, afirma a psicóloga Ana Cláudia Bittencourt Amoras. Carnaval de rua do Rio: curiosidades da história dos blocos e imagens clássicas da folia Ana reforça que o carnaval é o momento em que as pessoas costumam realizar algo que, geralmente, idealizam. “São fantasias, acessórios, maquiagens ou comportamentos. Pode ser herói ou assassino. Nesse momento, elas colocam para fora o que têm dentro delas, de forma positiva ou não. Fantasia é idealizar o que pode estar escondido por muitas camadas do inconsciente.” Nos blocos de rua do Rio e nos desfiles na Sapucaí, é comum encontrar foliões usando fantasias mínimas, roupas associadas a fetiches, como couro, correntes e máscaras, ou assumindo personagens ligados à sensualidade. Publicitário Leonardo Waldorf diz que no carnaval faz tudo que tem vontade Acervo pessoal/ Leonardo Waldorf Para muitos, esse período também representa a primeira experiência pública fora dos padrões tradicionais. O publicitário Leonardo Waldorf, de 27 anos, conta que foi no carnaval do Rio que conseguiu assumir sua orientação sexual pela primeira vez. “Eu sempre gostei de homens, mas não me permitia por medo. Nunca tinha me permitido ficar com homens. Só usava preto e branco e forçava ficar com mulheres para não perder minhas amizades. Foi em 2018 que me permiti ficar com homens, num bloco de carnaval. E me libertei de verdade. Daí, eu abri a mente e fui viver”, revela Leonardo. Bloco Fogo e Paixão no Centro do Rio Alexandre Durão/G1 Frequentador assíduo dos bloquinhos de rua, o publicitário diz que aproveita cada segundo da folia. “O carnaval é a única época do ano em que não ligo para muita coisa. Eu faço tudo o que tenho vontade, me doo 100% para a festa.” Janela de oportunidades A psicóloga e sexóloga Michelle Sampaio explica que a festa cria uma sensação de oportunidade para experimentar novas vivências. “O carnaval é sempre um momento em que as pessoas aproveitam para dar uma extrapolada. Elas enxergam ali uma janela para fetiches, exibição do corpo ou até novas vivências sexuais”, afirma. Segundo ela, apesar de alguns passarem pela “ressaca moral” no pós-folia, a maioria lida bem com a experiência. “Vejo mais gente feliz por ter usado esse espaço do carnaval para essas vivências do que lidando com arrependimentos. A sociedade tem regras e tabus, e a pessoa precisa desse espaço de não julgamento. É aquela sensação de ‘eu queria que essa fantasia fosse eterna’”, diz Michelle. Enredo sobre 'profissionais do sexo' Andressa Urach desfila com a Porto da Pedra no ensaio técnico Paulo Tauil / Agnews O fenômeno aparece também nos enredos dos desfiles, em que escolas de samba se permitem abordar temas ligados, por exemplo, à prostituição, aos fetiches e à diversidade sexual, como o enredo da Unidos do Porto da Pedra, da Série Ouro, que fala das profissionais do sexo. As especialistas indicam que expressar desejos em ambientes simbólicos e temporários pode funcionar como uma válvula de escape emocional e social. Equilíbrio entre liberdade e respeito O desafio, na visão das psicólogas, é equilibrar liberdade e respeito. “A essência do carnaval é alegria e música, mas é preciso respeitar o limite do próximo também. Pensar e pesar bem o que vai fazer. A liberdade do ser humano sempre esbarra na liberdade do outro”, destaca Ana Cláudia. O arrependimento, segundo Ana, costuma aparecer para as pessoas que não estão seguras de suas escolhas. “As pessoas se deixam ir além no fetiche e na nudez. Muita gente acaba associando felicidade ao exibicionismo e, em algumas vezes, acontecem excessos. Quando a pessoa não está bem, pode estar mais suscetível a isso e, depois que passa o carnaval, ela se arrepende”, alerta. Violência contra mulher: como pedir ajuda Folia sim, assédio nunca! Na visão da sexóloga Michelle, a conscientização em relação ao assédio também foi um fator importante para as pessoas se sentirem mais seguras para exporem seus corpos sem sofrer abusos ou importunações. "Assédio não é brincadeira de carnaval. O movimento feminista, o movimento do 'Não é não!' e a conscientização sobre o que é assédio têm um valor muito importante nessa conquista da liberdade. Sexualidade é como a gente se representa, como lida, como comunica e como quer mostrar o corpo. E isso tem que ser respeitado em qualquer situação, enfatiza a sexóloga.