Deputado é suspeito de venda de influência sobre ministros de tribunais; entenda o papel de cada investigado, segundo a PF

Piemonte Escrito em 14/09/2026


A Polícia Federal (PF) afirmou, em investigação enviada ao ao Supremo Tribunal Federal (STF), que o deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP) é peça central de um suposto esquema de venda de influência sobre ministros de tribunais superiores. O parlamentar foi alvo de mandados de busca e apreensão nesta sexta-feira (14), durante a 3ª fase da Operação Transparência, autorizada pelo ministro Flávio Dino. Segundo investigadores, Cezinha de Madureira teria usado a posição ocupada no Congresso para transmitir a "clientes" a percepção de que poderia influenciar decisões de magistrados. Tanto a representação da PF quanto a decisão de Dino deixam explícito que os ministros e juízes citados nos diálogos não são alvos da investigação nem suspeitos de irregularidades. Deputado Cezinha de Madureira é alvo de operação da PF sobre tráfico de influência junto a tribunais superiores A PF aponta que o suposto esquema envolvia uma estrutura com divisão de tarefas entre o deputado e duas advogadas: Mariângela Fialek, conhecida como "Tuka", então servidora da Câmara dos Deputados — investigada pela PF por suspeitas de desvios de emendas parlamentares; e Valéria Rodrigues Linhares, advogada e ex-candidata a deputada federal pelo Distrito Federal — apontada pela PF como esposa do deputado Cezinha. Entre as atribuições dos envolvidos estariam, segundo a PF, captar causas, preparar documentos jurídicos, formalizar contratos e fazer supostos contatos com ministros. O deputado federal Antonio Cezar Correia Freire, o Cezinha de Madureira (PL-SP) é um influente parlamentar evangélico de São Paulo. Ele é pastor da Assembleia de Deus – Ministério de Madureira. Divulgação/Câmara dos Deputados Entenda o papel de cada um dos investigados da operação, segundo a PF: Cezinha de Madureira — contatos com ministros Segundo a PF, o deputado seria responsável por fazer contatos diretos com ministros de tribunais superiores e realizar os chamados "despachos" — reuniões ou conversas para tratar de processos. Para os investigadores, Cezinha usaria o trânsito institucional proporcionado pelo mandato parlamentar para passar a terceiros a percepção de que tinha acesso ou influência sobre magistrados. Na decisão, Flávio Dino afirma que o deputado utilizaria a "ascendência da função parlamentar" para negociar essa suposta influência. Valéria Rodrigues Linhares — contratos e cessões de créditos A advogada Valéria Rodrigues Linhares, apontada na investigação como mulher do deputado, teria uma função ligada à formalização dos negócios. Segundo a PF, ela seria responsável por redigir, revisar e assinar contratos de prestação de serviços e documentos relacionados a cessões de créditos de valores milionários. Esses contratos fariam parte da estrutura usada para formalizar os pagamentos relacionados às causas judiciais investigadas. Mariângela Fialek, 'Tuca' — captação das causas e produção de documentos A advogada Mariângela Fialek, a "Tuca", que atuava na Câmara dos Deputados, teria outra função dentro da estrutura apontada pela PF. Segundo os investigadores, ela seria responsável por captar causas e preparar memoriais e outras peças jurídicas relacionadas aos processos. O celular da advogada foi periciado na primeira fase da operação. A análise do material é citada pela PF entre os elementos que embasaram as novas medidas. Tramitação no STF Mensagens obtidas pelos investigadores mostram tratativas sobre casos específicos em tramitação no STF. Em um deles, relacionado à defesa da prefeita de Beberibe (CE), contratos estipulavam R$ 500 mil em caso de decisão favorável. Em outro episódio, relativo à defesa de um ex-secretário de Belford Roxo (RJ), termos previam repasses de R$ 1 milhão e aditivos que chegavam a R$ 2 milhões condicionados à revogação de prisão preventiva. Nas conversas, o parlamentar prestava contas sobre encontros e audiências com magistrados, usando expressões como "já falei", "despachei sim", "assunto reforçado agora" e menções a contatos com ministros da Corte. Dinheiro em espécie e celulares Entre os fatos que subsidiaram a decisão, Flávio Dino determinou a avocação (transferência para o STF) de apurações sobre a apreensão de R$ 510 mil em dinheiro vivo com Valéria Rodrigues Linhares no Aeroporto de Congonhas (SP), ocorrida em 25 de agosto de 2026. Para os investigadores, a movimentação expressiva de recursos em espécie sugere o pagamento de honorários à margem do sistema bancário tradicional para dificultar o rastreamento financeiro. No despacho, Dino autorizou buscas nos endereços residenciais e profissionais do parlamentar e da advogada em Brasília e em São Paulo, além do recolhimento de bens de valor, veículos e quantias em espécie acima de R$ 10 mil. O ministro, porém, indeferiu o pedido da PF para realizar buscas no gabinete do parlamentar na Câmara dos Deputados, avaliando não haver elementos concretos que justificassem a medida no local de trabalho legislativo.