Pacientes acusam médico de Goiânia por lesões em procedimentos estéticos
A empresária Andréia Gaspar, de 51 anos, morreu apenas algumas horas depois de passar por uma série de cirurgias plásticas no rosto com o médico otorrinolaringologista Lessandro Martins. Outras pacientes operadas pelo mesmo médico afirmam ter ficado com sequelas físicas e psicológicas graves. As denúncias apontam para lesões corporais graves em procedimentos estéticos e levantam suspeitas sobre o atendimento recebido por Andréia logo após deixar o bloco cirúrgico.
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Os detalhes do inquérito policial, que já somam mais de 1.300 páginas, revelam tudo o que aconteceu antes, durante e depois da cirurgia, buscando responder a uma pergunta crucial: houve ou não erro médico?
A trajetória que levou à tragédia começou na Espanha, país onde Andréia morava. No ano passado, ela tomou a decisão de realizar uma série de cirurgias plásticas no rosto. De acordo com sua irmã, Djianne da Silva, Andréia "juntou o dinheiro pra fazer essa cirurgia. E era o sonho dela". Em buscas pelas redes sociais, Andréia encontrou o médico Lessandro Martins, um otorrinolaringologista com especialização em cirurgia plástica.
Em seus vídeos na internet, Martins se apresentava aos seguidores com segurança: "Muito bem-vindos ao meu canal. É um prazer recebê-los aqui. Tenho mais de 25 anos de experiência em cirurgias da face". Nas plataformas digitais, o médico se descrevia como "professor do Hospital das Clínicas da USP". No entanto, o Hospital das Clínicas esclareceu que ele atua na instituição apenas como médico voluntário e que o cargo de professor sequer existe na estrutura da entidade.
"Certamente uma inconsistência nessas informações, porque o Lessando é um professor. Ele tem um reconhecimento de médicos em vários países", diz o advogado do médico, Pedro Fonseca.
Toda a preparação para o procedimento e as consultas prévias ocorreram de forma remota. "Toda a conversa foi feita pelo WhatsApp", explica a irmã de Andréia. Em um vídeo gravado para a plataforma, o próprio médico dava as boas-vindas à paciente: "É com satisfação que estamos criando esse grupo de WhatsApp aonde estará você, eu -- Doutor Lessandro Martins -- e toda a minha equipe para lhe servir".
A irmã recorda que Andréia "tava confiando no doutor Lessandro". A empresária desembarcou no Brasil no dia 3 de agosto para realizar os procedimentos, mas não conseguiu se consultar pessoalmente com o médico antes de entrar no hospital. "A Andréia tinha uma consulta com ele. A gente já estava se arrumando, a secretária dele liga pra minha irmã e cancela. E diz o seguinte: '[Ele] vai te ver no centro cirúrgico'".
No dia 11 de agosto, às 7h30 da manhã, Andréia deu entrada no hospital em Goiânia. Um registro gravado em vídeo antes de entrar no bloco cirúrgico mostrava a paciente animada: "Maninha... (risos) Se organizando pro grande dia!". Somente naquele momento ela conheceu o doutor Lessandro pessoalmente.
Ao longo de sete horas de operação, Andréia foi submetida a seis procedimentos estéticos combinados:
Uma cirurgia de rejuvenescimento do rosto;
Um tratamento do pescoço;
Um procedimento para diminuir o tamanho da testa;
Uma correção no queixo;
Uma cirurgia plástica nas pálpebras;
O uso de gordura retirada por lipoaspiração para realizar preenchimento facial.
Pelo pacote de cirurgias, a paciente pagou o valor de R$ 118 mil.
Às 17h40, Andréia foi levada do centro cirúrgico diretamente para um quarto comum. O hospital onde o procedimento foi realizado não possuía leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI), embora as propagandas institucionais da clínica nas redes sociais veiculassem uma realidade diferente: "O Instituto Belcorp agora é Hospital Ankar... Só que agora com mais salas de cirurgia, maior número de leitos e com Centro de Tratamento Intensivo".
Questionada sobre a falta de UTI, a direção do Hospital Ankar limitou-se a informar que os pacientes são "transferidos para outro hospital de maior complexidade quando há indicação".
Logo no quarto, as complicações pós-operatórias começaram a se manifestar. "Quando a Andréia chega, ela tá com o rosto todo cheio de sangue. Minha irmã tava com a boca muito inchada", lembra a irmã.
Por volta das 20h, o doutor Lessandro passou pelo quarto de Andréia para uma rápida avaliação e minimizou o estado de agitação da paciente. Conforme relata a irmã, ele comentou: "Dejane, fica tranquila. Tem paciente que chega até a puxar o soro, tipo uma crise de pânico. É normal, fica tranquila".
Entretanto, por volta das 20h30, Andréia queixou-se pela primeira vez de dificuldades graves para respirar, dizendo à irmã: "Minha glote, não tô respirando direito". A equipe de enfermagem do hospital respondeu que os sintomas relatados já eram esperados para aquele tipo de pós-operatório. No entanto, a situação continuou a piorar rapidamente."Mais ou menos meia-noite, quase uma hora da manhã... eu acendo a luz do quarto e Andréia gritando: 'Mana, mana, mana, eu tô morrendo, eu tô morrendo'", descreve a irmã.
A médica plantonista do hospital chegou ao quarto à 0h50. Em seu depoimento às autoridades, a plantonista alegou que "a paciente permanecia estável" e que "explicou que o desconforto era comum no pós-operatório".
Pouco depois das duas horas da manhã, Andréia entrou em parada cardiorrespiratória. Desesperada, a irmã pegou o celular e começou a filmar o atendimento médico. No registro de vídeo, a médica plantonista admite não conseguir contato com o cirurgião responsável: "Eu não consigo falar com nenhum dos médicos". A irmã relembra o momento de pânico: "Foi a hora que eu peguei o meu celular e comecei a filmar. E vocês podem ouvir nitidamente que a própria médica fala: 'eu não tô conseguindo falar com a equipe do doutor Lessandro'".
Sem suporte da equipe do cirurgião, a irmã correu para o grupo de WhatsApp para pedir ajuda imediata: "A minha irmã tá morrendo, pelo amor de Deus. Ninguém atende! Ninguém aparece, pelo amor de Deus!".
O doutor Lessandro retornou ao hospital por volta de 2h20 da manhã, mas Andréia já havia falecido. "Quando ele chega ali, a Andréia não estava mais ali, a Andréia já tinha morrido", lamenta a irmã. O pai de Andréia expressou o impacto da perda repentina de sua filha: "Pra mim, acabou o mundo. Se fosse uma morte já que você estivesse doente... a gente já sente. Imagina uma morte dessa?".
O corpo de Andréia foi encaminhado para o Serviço de Verificação de Óbitos (SVO), onde passou por avaliação de duas profissionais. A primeira médica a analisar o corpo foi Tâmara Mehri, que é sobrinha de Jorge Mehri, o proprietário do hospital onde Andréia morreu. Naquele dia, a médica foi acompanhada de perto pelo doutor Lessandro. Segundo o advogado da família de Andréia: "A todo instante se percebe que o doutor Lessandro tenta ter um controle da situação".
A direção do Hospital Ankar afirmou que o encaminhamento do corpo ao SVO ocorreu por recomendação do próprio órgão e justificou que "a médica que avaliou o corpo se afastou do caso ao identificar o parentesco com o diretor do hospital".
No dia 28 de agosto, foi realizada a exumação do corpo de Andréia. A medida foi acompanhada pelo Ministério Público e pela Polícia Civil, que investiga se o médico e o hospital podem ser responsabilizados por homicídio culposo, quando não há intenção de matar.
O delegado responsável pelo caso explicou o direcionamento do inquérito: "Se você põe em dúvida o ato cirúrgico do médico, eu tenho que analisar os pormenores. É isso que vai dizer se houve um resultado culposo e responder se houve uma assunção de risco pra dar um outro resultado que não homicídio culposo".
Por outro lado, a defesa de Lessandro nega que tenha ocorrido negligência ou omissão no pós-operatório. "Ela foi devidamente monitorada, houve a consideração da saturação dela como adequada e perfeita, bem como a oxigenação. Então não faltou ar com a presença de médicos e não houve a omissão de médicos, não houve demora no atendimento dela", declarou o advogado de defesa do cirurgião.
Ao longo das investigações, outras pacientes do doutor Lessandro Martins decidiram romper o silêncio. A equipe de reportagem conversou com nove mulheres das regiões Sudeste, Norte e Centro-Oeste do Brasil, além de uma ex-paciente que reside atualmente nos Estados Unidos. Todas afirmam ser vítimas do mesmo médico e descrevem profundos danos físicos e psicológicos decorrentes dos procedimentos.
Uma das ex-pacientes, que trabalha como empregada doméstica e preferiu não mostrar o rosto devido ao constrangimento e vergonha das marcas que carrega, realizou três cirurgias com o profissional. Ela relembrou o apelo desesperado que enviou ao médico: "Eu lhe imploro, doutor, conserte! Se o senhor me deformou, me conserte!".
Segundo ela, seu desejo original limitava-se a uma cirurgia no nariz, mas o médico a convenceu a faer outras intervenções. "Quando eu fiz a primeira cirurgia, ele falou que eu precisava de uma frontoplastia. Que eu não sabia nem o que era", conta. "O meu problema era só o nariz, até mesmo porque eu não tinha nem condições pra estar sonhando essas outras coisas".
No total, ela calcula ter gasto cerca de R$ 50 mil para arcar com os custos das cirurgias. O resultado, contudo, desfigurou sua face. "Eu fiquei como se eu tivesse sofrido um acidente. Ele destruiu o meu rosto. Ele me deixou toda cheia de sequela, destruiu meu nariz. Minha testa tem um buraco", lamenta.
Desde a realização das cirurgias, a mulher não teve coragem de voltar para o Nordeste, região onde vive sua família. "Vergonha, medo do julgamento das pessoas. Porque, assim, ele deformou o meu rosto", explica.
Outra paciente afetada foi Angela, que passou por três procedimentos com o mesmo cirurgião: intervenções no nariz, pálpebras, sobrancelhas e preenchimento facial. Ela afirma que o médico realizou técnicas diferentes das combinadas previamente. "O que ele tinha falado pra mim era que a gente ia fazer um cortezinho aqui de uns 5 cm e puxar, levantar a minha sobrancelha. Quando eu acordei, eu estava com esse fio. Ele ainda falou: 'não toca no seu rosto que tem um fio aí.' Aí eu não sabia o que era esse fio", lembra Angela. O repórter confirmou se ela havia dado autorização: "E ele não pediu pra você colocar o fio?". Angela foi categórica: "Não. Não pediu".
Com o tempo, o rosto de Angela começou a apresentar deformações. "O meu rosto, ele caiu. Tipo, parecia que eu tinha envelhecido 10 anos em 1. E o meu nariz foi perdendo toda a forma, toda a forma. Foi ficando muito estranho. Aí ele começou a perguntar pra mim: 'você não tem nenhuma doença autoimune?' Eu falei: 'não tenho.' 'Você tem certeza? Porque você deve ter alguma doença autoimune'".
Angela consultou reumatologistas, realizou baterias de exames de sangue e testes de alergia, mas os diagnósticos comprovaram que ela não possuía nenhuma patologia de saúde autoimune. Diante do quadro, a paciente afirma que o médico parou de prestar assistência pós-operatória.
"A dor é constante, muita dor. Igual agora, eu tô conversando com vocês e tudo isso aqui, meu, ó, dói muito. Eu sinto coceira, uma coceira insuportável, pinica. Eu tô toda travada", relata. "Eu fui até o local onde ele atendia e eu fui cancelada várias vezes. Várias vezes".
A defesa do doutor Lessandro argumenta que as queixas devem ser avaliadas caso a caso. "Se houve ali um descontentamento de um paciente, isso deve ser observado, caso a caso, com bastante cuidado. E caso ela queira resolver essa situação dela, certamente o doutor Lessandro vai receber ela", declarou o advogado do cirurgião.
O Conselho Regional de Medicina de Goiás (Cremego) declarou em nota oficial que as denúncias contra o cirurgião Lessandro Martins estão sendo apuradas pela instituição e tramitam em sigilo.
Para as pacientes lesadas, a revelação de outros casos trouxe o entendimento de que não estavam sozinhas na dor. "Até então eu achava que era só eu. Eu achava que o problema era comigo. E depois, infelizmente, dessa fatalidade, eu vi que eu não sou a única", desabafa Angela. A ex-paciente de Rio Verde expressa a desesperança com as sequelas irreversíveis: "Hoje eu não consigo tentar reparar o dano que foi feito, sabe?".
A família de Andréia Gaspar agora busca por respostas e punição aos responsáveis pelo ocorrido. "Espero que a justiça seja feita. Para não acontecer mais com outras famílias", clama o pai da empresária, resumindo a dor de perder a filha de forma tão precoce: "Sempre os filhos enterraram o pai. Agora eu enterrar a minha filha?".
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Piemonte Escrito em 07/09/2026
