Polilaminina: por que o estudo não foi publicado por revistas científicas Revistas científicas que avaliaram o estudo sobre a polilaminina apontaram dois problemas principais para recusar a publicação do artigo: divergências sobre a taxa de recuperação de pacientes usada como referência no trabalho e a ausência de registro prévio do ensaio clínico em um banco internacional de pesquisas. A pesquisa ganhou repercussão após relatos de melhora em pacientes com lesão na medula espinhal e foi divulgada em 2024 como pré-print — uma versão preliminar de artigo científico que ainda não passou pelo processo formal de revisão por pares. Até agora, o trabalho não foi aceito por nenhum periódico científico. Em entrevista ao g1, a pesquisadora responsável pelo estudo, Tatiana Sampaio, afirmou que o texto será revisado após as críticas recebidas durante as tentativas de publicação. Segundo ela, a nova versão deve corrigir erros identificados no manuscrito e trazer explicações adicionais sobre pontos que foram questionados por editores e especialistas. Nesta reportagem, o g1 explica quais foram as críticas feitas pelas revistas científicas, quais ajustes a pesquisadora afirma que fará no artigo e quais são os próximos passos da pesquisa para avaliar se a polilaminina é segura e eficaz. Por que o texto foi negado em revistas? O que ela vai corrigir? Pesquisa pode ter um grupo controle pareado Já é possível afirmar que a substância tem eficácia e é segura? Quais são os próximos passos? Por que o texto foi recusado em revistas? Quando um estudo é submetido a uma revista especializada, ele passa pela chamada revisão por pares. Ou seja, é avaliado por pesquisadores e, quando aceito nesses periódicos, isso indica que o trabalho passou por uma avaliação técnica considerada um dos principais filtros de qualidade da ciência na pesquisa. De acordo com Tatiana, ela teve três recusas de sua versão já revisadas: Nature Communications, uma outra revista do grupo Nature e o Journal of Neurosurgery. De acordo com a pesquisadora, os pontos alegados foram: Divergência na taxa de melhora sem a polilaminina Na pesquisa, Tatiana afirma que cerca de 9% dos pacientes com lesão medular completa recuperam algum grau de função motora sem tratamento. Essa comparação é o que, segundo os autores do estudo, torna os resultados com a polilaminina tão impressionantes. No entanto, durante o processo editorial, revisores questionaram esse número e argumentaram que a taxa de recuperação poderia ser significativamente maior — em alguns casos chegando perto de 40%, segundo estudos citados pelos editores. A pesquisadora afirma que contestou essa interpretação com base em dados de um estudo que usa como referência. 🔴 Essa diferença é importante porque a taxa de recuperação espontânea é usada como base de comparação para avaliar se a melhora observada pode realmente ser atribuída à polilaminina ou ao curso natural da doença. As outras duas respostas eram respostas meio parecidas. A conversão de A para C é muito mais do que 9%. (...) O editor e toda a revista me mandaram um artigo publicado na própria revista dizendo que a conversão era maior. Aí eu perguntei para ele: ‘olha, você está errado. Falta de registro prévio Uma das recusas ocorreu porque o estudo não havia sido registrado previamente no ClinicalTrials.gov, um banco internacional que reúne informações sobre pesquisas clínicas realizadas com pacientes. ➡️ O registro nessas plataformas é usado para aumentar a transparência da pesquisa científica. Nele ficam documentados, desde o início do estudo, os objetivos, os métodos e os resultados que os pesquisadores pretendem avaliar — o que ajuda a evitar mudanças no desenho da pesquisa depois que os dados já começam a aparecer. Sem isso, revisores podem questionar se o desenho da pesquisa foi definido antes dos resultados aparecerem, o que é considerado um critério importante para a confiabilidade do estudo. Por isso, muitas revistas científicas exigem que o cadastro seja feito antes do início do estudo como condição para publicação. Segundo a pesquisadora, no caso da polilaminina o registro foi feito apenas depois do começo da pesquisa, porque ela não sabia que essa era uma exigência adotada por vários periódicos científicos. O editor falou que ia mandar para revisão, mas o artigo ficou no technical check porque a gente não tinha feito o registro no ClinicalTrials.gov. Eles só publicam quando existe um registro prévio. E a gente fez depois. Se você me perguntar por que foi depois, eu vou te dizer sinceramente: porque eu não sabia. Eu nunca tinha feito e não sabia que precisava registrar antes. Após as recusas, ela afirma que pretende revisar o artigo e submetê-lo a periódicos que costumam publicar estudos clínicos de braço único, sem grupo controle ou placebo. 🔴 Tatiana explica que alguns pontos levantados não podem ser ajustados, como o caso do registro do estudo clínico, enquanto outros ela contesta, como a taxa de recuperação. Para traçar essa nova estratégia e lidar com as críticas recebidas, Tatiana diz que também consultou ferramentas de inteligência artificial. O que eu fiz foi o seguinte: eu pedi para o ChatGPT me ajudar. Aí eu falei: ‘eu estou vendo as pessoas dando argumento de que não vale, que não funciona, que não sei o quê’. Aí ele me deu vários conselhos. O que ela vai corrigir? Em entrevista ao g1, Tatiana disse que vai corrigir erros no pré-print e fazer uma nova revisão. Segundo a pesquisadora, as mudanças no texto estão sendo feitas após problemas identificados por ela própria e também a partir de pontos levantados por editores durante tentativas de publicação em revistas científicas. Segundo Tatiana, os pontos a serem corrigidos são: Erro em gráfico de paciente Na versão atual do pré-print, o participante 1 aparece com cerca de 400 dias de acompanhamento, apesar de o texto indicar que ele morreu cinco dias após o procedimento. Tatiana confirmou que os dados pertencem, na verdade, ao participante 2 e que houve um erro de digitação na figura. Gráfico na pesquisa mostrava que paciente que já estava morto, melhorava 400 dias depois Reprodução Depois, texto mostrava que paciente já tinha morrido dias depois da aplicação Reprodução Mudança na forma como exame é mostrado Outro ponto que vinha sendo questionado por especialistas envolve o exame de eletromiografia usado em um dos pacientes para indicar possível regeneração após o tratamento. Especialistas ouvidos pela reportagem apontam que, em alguns dos casos descritos como sucesso, a eletromiografia não mostrou alterações claras. Segundo ela, a imagem estava “mal programada” e exibia dados brutos. Explicação sobre choque medular Outro ponto que vinha sendo debatido por especialistas era a possibilidade de que alguns pacientes pudessem estar em choque medular no momento da avaliação inicial. ➡️ O QUE É O CHOQUE MEDULAR? É uma fase temporária que pode ocorrer logo após uma lesão na medula espinhal, quando a pessoa perde os reflexos e a atividade nervosa abaixo do local do trauma. Esse estado temporário pode interferir em exames usados para classificar a gravidade da lesão, em que elas poderiam ser menos graves do que o visto pelos pesquisadores. Como essa condição não estava detalhada no pré-print original, pesquisadores apontavam que isso poderia ser um ponto cego na interpretação dos resultados. Na versão revisada do artigo, Tatiana afirma que nenhum paciente estava em choque medular e que todos passaram por exames prévios para avaliar essa possibilidade. Segundo ela, não foi utilizado o procedimento considerado padrão-ouro para essa confirmação — que exige alguns dias de observação — porque a polilaminina precisa ser aplicada em até 72 horas após a lesão. ➡️ Apesar disso, o pré-print não cita quantos participantes foram avaliados e não incluídos na pesquisa. Esse é um ponto que vem sendo levantado por especialistas em pesquisa clínica. Em estudos clínicos, é importante explicar como os participantes foram escolhidos. Isso ajuda a evitar vieses, que é quando a forma de selecionar os pacientes pode influenciar os resultados. Pesquisa pode ter grupo controle pareado Um dos pontos que vem sendo debatido por pesquisadores, médicos e especialistas é que a equipe vem falando de eficácia, mas que isso é extrapolar o resultado diante do modelo de estudo que está sendo feito. Para eles, é necessário um grupo controle antes de afirmar. O teste que Tatiana e sua equipe fizeram é de “braço único”, em que todos os participantes recebem o tratamento. Com isso, fica difícil isolar o resultado de outras possibilidades. Geralmente, em uma pesquisa clínica, os pacientes são separados em dois grupos: os que recebem o tratamento do medicamento que se quer provar eficaz e os que não recebem esse tratamento. Com isso, os dois grupos são comparados para entender se o avanço observado ocorreu de fato por causa da substância. Tatiana vinha dizendo que seria antiético fazer um grupo controle e não dar às pessoas envolvidas a chance de usarem a polilaminina. Agora, no entanto, disse que há uma possibilidade: um método chamado grupo controle pareado. ➡️ E COMO ISSO VAI SER FEITO? Nesse método, eles vão selecionar em grandes estudos internacionais que acompanham pacientes com lesão medular, aqueles que tenham situação e quadro semelhante ao dos voluntários que vão receber a substância no Brasil. Você pega os dados dessa pessoa, tanto da hospitalização inicial quanto do acompanhamento, e monitora o que acontece com elas. E se você fizer um número grande o suficiente de pacientes, você passa a ter um grupo controle universal. Já é possível afirmar que a substância tem eficácia e é segura? A pesquisa é promissora, mas ainda é inicial. Ela conseguiu bons resultados em animais e, posteriormente, em um pequeno grupo de oito pessoas — que é o que está descrito no pré-print. Isso levou à parceria com um laboratório nacional, o Cristália, e à aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para o início de um estudo que deve responder se a polilaminina é segura e se funciona. No entanto, com o debate acalorado nas redes sociais, entidades ligadas à ciência, pesquisadores e médicos especialistas em lesão medular têm reforçado que é preciso cautela na leitura desses dados. E isso também é ressaltado pela própria pesquisadora, que disse ao g1 que a substância pode ser promissora, mas que ainda não se sabe. Um dos pontos levantados é a própria evolução dos pacientes no estudo, que é distinta entre si. O caso de Bruno, que voltou a andar, é isolado. Há também um paciente que, segundo a pesquisa, apresentou melhora. No entanto, em entrevista, Tatiana contou que ele regrediu no quadro após interromper a fisioterapia. Ele conseguia fazer movimentos contra a gravidade. Hoje eu sei que ele não consegue mais, porque parou de fazer fisioterapia. ➡️ E você pode se perguntar: se essas respostas ainda estão em aberto, por que pessoas estão compartilhando na internet que estão usando essa substância? No Brasil, existe uma lei que permite o uso compassivo de substâncias ainda em fase de testes. Nesse caso, os pacientes não fazem parte do ensaio clínico, não são acompanhados pela equipe de pesquisa e assumem os riscos da exposição. No próprio estudo, Tatiana e sua equipe não descartam o risco da substância. No pré-print, os pesquisadores afirmam que mortes por pneumonia e sepse registradas entre os participantes poderiam, em princípio, estar ligadas a um possível efeito imunossupressor provocado pela polilaminina. Em entrevista ao g1, Tatiana também reforçou que não é possível descartar riscos. Você avalia a evolução deles e vê que é uma evolução compatível com a evolução geral do lesado medular, mas são só oito pacientes, então não dá para descartar totalmente a possibilidade de que haja algum efeito negativo da polilaminina. Por isso que você tem que continuar fazendo mais testes de segurança. Quais são os próximos passos? A chamada pesquisa clínica é aquele que acontece com pacientes. As próximas fases serão formalizadas, com registro na Anvisa e outros órgãos. Antes, o estudo estava em etapa experimental, em ambiente acadêmico. Na pesquisa clínica formal está previsto: Iniciar ensaios clínicos regulatórios em humanos — começando pela fase 1, voltada à verificar se o uso da substância é seguro. Nesta fase, a polilaminina, que é formalmente um 'candidato a medicamento', é aplicada em um pequeno grupo. A realização dessa fase 1 foi aprovada em janeiro pela Anvisa e ainda está na comissão de ética; Depois, caso seja provada a segurança, os cientistas vão ampliar os testes nas fases 2 e 3 — quando são avaliadas eficácia, doses adequadas e efeitos adversos em populações maiores. Agora, é preciso esperar o tempo da ciência. especialista em reabilitação e pesquisa em lesão medular, a fisioterapeuta Franciele Romanini, explica que a forma como as pessoas estão lidando com a pesquisa nas redes sociais é arriscada, já que muitos tratam os resultados como uma verdade absoluta. Se essas etapas forem bem-sucedidas, os envolvidos podem solicitar o registro sanitário para que o medicamento possa ser comercializado. A ciência foi construída com métodos e burocracia necessária para trabalhar a favor da população. Esses questionamentos que fazemos são comuns no processo científico. Os métodos científicos não atrasam o tratamento, a ciência trabalha para que qualquer evento adverso desconhecido não se torne um novo problema social.
Polilaminina: por que o estudo não foi publicado por revistas científicas e quais os próximos passos da pesquisa
Piemonte Escrito em 11/03/2026
Polilaminina: por que o estudo não foi publicado por revistas científicas Revistas científicas que avaliaram o estudo sobre a polilaminina apontaram dois problemas principais para recusar a publicação do artigo: divergências sobre a taxa de recuperação de pacientes usada como referência no trabalho e a ausência de registro prévio do ensaio clínico em um banco internacional de pesquisas. A pesquisa ganhou repercussão após relatos de melhora em pacientes com lesão na medula espinhal e foi divulgada em 2024 como pré-print — uma versão preliminar de artigo científico que ainda não passou pelo processo formal de revisão por pares. Até agora, o trabalho não foi aceito por nenhum periódico científico. Em entrevista ao g1, a pesquisadora responsável pelo estudo, Tatiana Sampaio, afirmou que o texto será revisado após as críticas recebidas durante as tentativas de publicação. Segundo ela, a nova versão deve corrigir erros identificados no manuscrito e trazer explicações adicionais sobre pontos que foram questionados por editores e especialistas. Nesta reportagem, o g1 explica quais foram as críticas feitas pelas revistas científicas, quais ajustes a pesquisadora afirma que fará no artigo e quais são os próximos passos da pesquisa para avaliar se a polilaminina é segura e eficaz. Por que o texto foi negado em revistas? O que ela vai corrigir? Pesquisa pode ter um grupo controle pareado Já é possível afirmar que a substância tem eficácia e é segura? Quais são os próximos passos? Por que o texto foi recusado em revistas? Quando um estudo é submetido a uma revista especializada, ele passa pela chamada revisão por pares. Ou seja, é avaliado por pesquisadores e, quando aceito nesses periódicos, isso indica que o trabalho passou por uma avaliação técnica considerada um dos principais filtros de qualidade da ciência na pesquisa. De acordo com Tatiana, ela teve três recusas de sua versão já revisadas: Nature Communications, uma outra revista do grupo Nature e o Journal of Neurosurgery. De acordo com a pesquisadora, os pontos alegados foram: Divergência na taxa de melhora sem a polilaminina Na pesquisa, Tatiana afirma que cerca de 9% dos pacientes com lesão medular completa recuperam algum grau de função motora sem tratamento. Essa comparação é o que, segundo os autores do estudo, torna os resultados com a polilaminina tão impressionantes. No entanto, durante o processo editorial, revisores questionaram esse número e argumentaram que a taxa de recuperação poderia ser significativamente maior — em alguns casos chegando perto de 40%, segundo estudos citados pelos editores. A pesquisadora afirma que contestou essa interpretação com base em dados de um estudo que usa como referência. 🔴 Essa diferença é importante porque a taxa de recuperação espontânea é usada como base de comparação para avaliar se a melhora observada pode realmente ser atribuída à polilaminina ou ao curso natural da doença. As outras duas respostas eram respostas meio parecidas. A conversão de A para C é muito mais do que 9%. (...) O editor e toda a revista me mandaram um artigo publicado na própria revista dizendo que a conversão era maior. Aí eu perguntei para ele: ‘olha, você está errado. Falta de registro prévio Uma das recusas ocorreu porque o estudo não havia sido registrado previamente no ClinicalTrials.gov, um banco internacional que reúne informações sobre pesquisas clínicas realizadas com pacientes. ➡️ O registro nessas plataformas é usado para aumentar a transparência da pesquisa científica. Nele ficam documentados, desde o início do estudo, os objetivos, os métodos e os resultados que os pesquisadores pretendem avaliar — o que ajuda a evitar mudanças no desenho da pesquisa depois que os dados já começam a aparecer. Sem isso, revisores podem questionar se o desenho da pesquisa foi definido antes dos resultados aparecerem, o que é considerado um critério importante para a confiabilidade do estudo. Por isso, muitas revistas científicas exigem que o cadastro seja feito antes do início do estudo como condição para publicação. Segundo a pesquisadora, no caso da polilaminina o registro foi feito apenas depois do começo da pesquisa, porque ela não sabia que essa era uma exigência adotada por vários periódicos científicos. O editor falou que ia mandar para revisão, mas o artigo ficou no technical check porque a gente não tinha feito o registro no ClinicalTrials.gov. Eles só publicam quando existe um registro prévio. E a gente fez depois. Se você me perguntar por que foi depois, eu vou te dizer sinceramente: porque eu não sabia. Eu nunca tinha feito e não sabia que precisava registrar antes. Após as recusas, ela afirma que pretende revisar o artigo e submetê-lo a periódicos que costumam publicar estudos clínicos de braço único, sem grupo controle ou placebo. 🔴 Tatiana explica que alguns pontos levantados não podem ser ajustados, como o caso do registro do estudo clínico, enquanto outros ela contesta, como a taxa de recuperação. Para traçar essa nova estratégia e lidar com as críticas recebidas, Tatiana diz que também consultou ferramentas de inteligência artificial. O que eu fiz foi o seguinte: eu pedi para o ChatGPT me ajudar. Aí eu falei: ‘eu estou vendo as pessoas dando argumento de que não vale, que não funciona, que não sei o quê’. Aí ele me deu vários conselhos. O que ela vai corrigir? Em entrevista ao g1, Tatiana disse que vai corrigir erros no pré-print e fazer uma nova revisão. Segundo a pesquisadora, as mudanças no texto estão sendo feitas após problemas identificados por ela própria e também a partir de pontos levantados por editores durante tentativas de publicação em revistas científicas. Segundo Tatiana, os pontos a serem corrigidos são: Erro em gráfico de paciente Na versão atual do pré-print, o participante 1 aparece com cerca de 400 dias de acompanhamento, apesar de o texto indicar que ele morreu cinco dias após o procedimento. Tatiana confirmou que os dados pertencem, na verdade, ao participante 2 e que houve um erro de digitação na figura. Gráfico na pesquisa mostrava que paciente que já estava morto, melhorava 400 dias depois Reprodução Depois, texto mostrava que paciente já tinha morrido dias depois da aplicação Reprodução Mudança na forma como exame é mostrado Outro ponto que vinha sendo questionado por especialistas envolve o exame de eletromiografia usado em um dos pacientes para indicar possível regeneração após o tratamento. Especialistas ouvidos pela reportagem apontam que, em alguns dos casos descritos como sucesso, a eletromiografia não mostrou alterações claras. Segundo ela, a imagem estava “mal programada” e exibia dados brutos. Explicação sobre choque medular Outro ponto que vinha sendo debatido por especialistas era a possibilidade de que alguns pacientes pudessem estar em choque medular no momento da avaliação inicial. ➡️ O QUE É O CHOQUE MEDULAR? É uma fase temporária que pode ocorrer logo após uma lesão na medula espinhal, quando a pessoa perde os reflexos e a atividade nervosa abaixo do local do trauma. Esse estado temporário pode interferir em exames usados para classificar a gravidade da lesão, em que elas poderiam ser menos graves do que o visto pelos pesquisadores. Como essa condição não estava detalhada no pré-print original, pesquisadores apontavam que isso poderia ser um ponto cego na interpretação dos resultados. Na versão revisada do artigo, Tatiana afirma que nenhum paciente estava em choque medular e que todos passaram por exames prévios para avaliar essa possibilidade. Segundo ela, não foi utilizado o procedimento considerado padrão-ouro para essa confirmação — que exige alguns dias de observação — porque a polilaminina precisa ser aplicada em até 72 horas após a lesão. ➡️ Apesar disso, o pré-print não cita quantos participantes foram avaliados e não incluídos na pesquisa. Esse é um ponto que vem sendo levantado por especialistas em pesquisa clínica. Em estudos clínicos, é importante explicar como os participantes foram escolhidos. Isso ajuda a evitar vieses, que é quando a forma de selecionar os pacientes pode influenciar os resultados. Pesquisa pode ter grupo controle pareado Um dos pontos que vem sendo debatido por pesquisadores, médicos e especialistas é que a equipe vem falando de eficácia, mas que isso é extrapolar o resultado diante do modelo de estudo que está sendo feito. Para eles, é necessário um grupo controle antes de afirmar. O teste que Tatiana e sua equipe fizeram é de “braço único”, em que todos os participantes recebem o tratamento. Com isso, fica difícil isolar o resultado de outras possibilidades. Geralmente, em uma pesquisa clínica, os pacientes são separados em dois grupos: os que recebem o tratamento do medicamento que se quer provar eficaz e os que não recebem esse tratamento. Com isso, os dois grupos são comparados para entender se o avanço observado ocorreu de fato por causa da substância. Tatiana vinha dizendo que seria antiético fazer um grupo controle e não dar às pessoas envolvidas a chance de usarem a polilaminina. Agora, no entanto, disse que há uma possibilidade: um método chamado grupo controle pareado. ➡️ E COMO ISSO VAI SER FEITO? Nesse método, eles vão selecionar em grandes estudos internacionais que acompanham pacientes com lesão medular, aqueles que tenham situação e quadro semelhante ao dos voluntários que vão receber a substância no Brasil. Você pega os dados dessa pessoa, tanto da hospitalização inicial quanto do acompanhamento, e monitora o que acontece com elas. E se você fizer um número grande o suficiente de pacientes, você passa a ter um grupo controle universal. Já é possível afirmar que a substância tem eficácia e é segura? A pesquisa é promissora, mas ainda é inicial. Ela conseguiu bons resultados em animais e, posteriormente, em um pequeno grupo de oito pessoas — que é o que está descrito no pré-print. Isso levou à parceria com um laboratório nacional, o Cristália, e à aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para o início de um estudo que deve responder se a polilaminina é segura e se funciona. No entanto, com o debate acalorado nas redes sociais, entidades ligadas à ciência, pesquisadores e médicos especialistas em lesão medular têm reforçado que é preciso cautela na leitura desses dados. E isso também é ressaltado pela própria pesquisadora, que disse ao g1 que a substância pode ser promissora, mas que ainda não se sabe. Um dos pontos levantados é a própria evolução dos pacientes no estudo, que é distinta entre si. O caso de Bruno, que voltou a andar, é isolado. Há também um paciente que, segundo a pesquisa, apresentou melhora. No entanto, em entrevista, Tatiana contou que ele regrediu no quadro após interromper a fisioterapia. Ele conseguia fazer movimentos contra a gravidade. Hoje eu sei que ele não consegue mais, porque parou de fazer fisioterapia. ➡️ E você pode se perguntar: se essas respostas ainda estão em aberto, por que pessoas estão compartilhando na internet que estão usando essa substância? No Brasil, existe uma lei que permite o uso compassivo de substâncias ainda em fase de testes. Nesse caso, os pacientes não fazem parte do ensaio clínico, não são acompanhados pela equipe de pesquisa e assumem os riscos da exposição. No próprio estudo, Tatiana e sua equipe não descartam o risco da substância. No pré-print, os pesquisadores afirmam que mortes por pneumonia e sepse registradas entre os participantes poderiam, em princípio, estar ligadas a um possível efeito imunossupressor provocado pela polilaminina. Em entrevista ao g1, Tatiana também reforçou que não é possível descartar riscos. Você avalia a evolução deles e vê que é uma evolução compatível com a evolução geral do lesado medular, mas são só oito pacientes, então não dá para descartar totalmente a possibilidade de que haja algum efeito negativo da polilaminina. Por isso que você tem que continuar fazendo mais testes de segurança. Quais são os próximos passos? A chamada pesquisa clínica é aquele que acontece com pacientes. As próximas fases serão formalizadas, com registro na Anvisa e outros órgãos. Antes, o estudo estava em etapa experimental, em ambiente acadêmico. Na pesquisa clínica formal está previsto: Iniciar ensaios clínicos regulatórios em humanos — começando pela fase 1, voltada à verificar se o uso da substância é seguro. Nesta fase, a polilaminina, que é formalmente um 'candidato a medicamento', é aplicada em um pequeno grupo. A realização dessa fase 1 foi aprovada em janeiro pela Anvisa e ainda está na comissão de ética; Depois, caso seja provada a segurança, os cientistas vão ampliar os testes nas fases 2 e 3 — quando são avaliadas eficácia, doses adequadas e efeitos adversos em populações maiores. Agora, é preciso esperar o tempo da ciência. especialista em reabilitação e pesquisa em lesão medular, a fisioterapeuta Franciele Romanini, explica que a forma como as pessoas estão lidando com a pesquisa nas redes sociais é arriscada, já que muitos tratam os resultados como uma verdade absoluta. Se essas etapas forem bem-sucedidas, os envolvidos podem solicitar o registro sanitário para que o medicamento possa ser comercializado. A ciência foi construída com métodos e burocracia necessária para trabalhar a favor da população. Esses questionamentos que fazemos são comuns no processo científico. Os métodos científicos não atrasam o tratamento, a ciência trabalha para que qualquer evento adverso desconhecido não se torne um novo problema social.
