'Tá ficando branco o lábio dela, cadê o resgate?': PM reclama de demora de ambulância para atender mulher baleada por policial

Piemonte Escrito em 11/04/2026


Polícia Civil apura demora no resgate de Thawanna O policial militar que acionou o resgate para Thawanna da Silva Salmázio, baleada e morta pela também PM Yasmin Cursino na Zona Leste de São Paulo, cobrou a chegada da ambulância enquanto a vítima ainda estava no chão. A reação foi gravada pela própria câmera corporal do agente (vídeo acima). “O resgate vai demorar? Já tá ficando branco o lábio dela, cadê o resgate? Copom, reitera o resgate pra Edimundo Audran”, disse o soldado Weden Silva Soares ao longo da ocorrência. A sequência de registros oficiais e das imagens às quais a TV Globo teve acesso mostra que a ambulância levou mais de 30 minutos para chegar ao local, na madrugada de sexta-feira (3), em Cidade Tiradentes. Às 2h59, é possível ouvir o som do disparo feito pela policial militar Yasmin Cursino Ferreira na câmera corporal do soldado. Na sequência, ainda com a vítima no chão, o policial questiona a colega: “Você atirou? Você atirou nela? Por quê, ca...?” Segundos depois, o próprio soldado chama o Centro de Operações da Polícia Militar: “Copom, Rua Edimundo Audran, aciona o resgate”. O pedido é reforçado pouco depois: “Copom, aciona o resgate, Edimundo Audran. Menina baleada”. Apesar dos pedidos imediatos, o Copom acionou a central do Corpo de Bombeiros apenas às 3h04, cerca de cinco minutos após a solicitação inicial. Nesse intervalo, o policial volta a insistir: “Reitero o resgate, Copom”. Às 3h06, uma viatura de resgate foi inicialmente empenhada para a ocorrência. Seis minutos depois, às 3h12, essa ambulância foi substituída por outra. Enquanto aguardava o atendimento, o policial voltou a demonstrar preocupação com o estado da vítima, ao perceber sinais de agravamento. A segunda ambulância designada para a ocorrência saiu da base apenas às 3h17. O resgate chegou ao local às 3h30, cerca de 30 minutos após o primeiro pedido de socorro. Thawanna ainda estava no chão quando a equipe chegou. Ela foi colocada na ambulância, que deixou o local às 3h37. A viatura chegou ao hospital às 3h40, três minutos depois. Ela não resistiu aos ferimentos e morreu na unidade de saúde. Segundo o Instituto Médico Legal (IML), Thawanna teve hemorragia interna aguda. A médica responsável pelo exame necroscópico apontou que a causa da morte foi a perda intensa de sangue provocada pelo disparo. Socorristas ouvidos pela TV Globo afirmam que a demora no resgate contribuiu para o agravamento do quadro, já que o ferimento não foi estancado nos primeiros minutos após o tiro. Linha do tempo do atendimento de mulher morta pela PM em SP Reprodução Base dos Bombeiros a 6 minutos Thawanna esperou mais de 30 minutos por resgate, apesar de haver bases do Corpo de Bombeiros a poucos minutos do local do disparo feito pela soldado Yasmin Cursino. O g1 apurou que havia unidades do Corpo de Bombeiros próximas ao local da ocorrência (veja mapa abaixo). A base mais próxima fica na Avenida dos Metalúrgicos, nº 678, em Cidade Tiradentes, a cerca de 6 minutos de distância. A segunda mais próxima está na Rua Luís Mateus, nº 1.000, em Guaianases, a aproximadamente 13 minutos do endereço. As estimativas de tempo foram feitas com base no aplicativo Waze, considerando a mesma faixa de horário da ocorrência, por volta das 3h. O tempo de resposta de meia hora foi ao menos 10 minutos acima da meta de 20 minutos estabelecida pela própria corporação (leia mais abaixo). Veja distância entre bases dos Bombeiros e local do disparo Arte/g1 Câmara corporal mostra ação que PM atirou e matou mulher em SP Meta da PM é atendimento em até 20 minutos Dados da própria Polícia Militar indicam que o tempo de resposta esperado para ocorrências desse tipo é menor do que o registrado no caso. O Guia de Indicadores 2020-2023 da corporação estabelece como meta que atendimentos de emergência sejam realizados em até 20 minutos, tanto da PM quanto do Corpo de Bombeiros. O mesmo documento, assinado pelo então chefe do Estado-Maior da PM, coronel Fernando Alencar Medeiros, aponta que, em 2019, apenas 58% das ocorrências atendidas pelos Bombeiros ficaram dentro desse intervalo. A meta estipulada era atingir 60%. O g1 questionou a Secretaria da Segurança Pública (SSP) sobre a demora no atendimento e a dinâmica do resgate. Entre os pontos abordados, estão o local de onde saiu a ambulância que atendeu a vítima e o tempo oficial entre acionamento e chegada do resgate. A pasta, no entanto, não detalhou os pontos e afirmou apenas que o caso é investigado. "Todas as circunstâncias são investigadas com prioridade pelo DHPP e por meio de Inquérito Policial Militar, com acompanhamento das corregedorias das instituições envolvidas. Os dois policiais envolvidos foram afastados das atividades operacionais. As imagens das câmeras corporais foram anexadas aos inquéritos e estão sob análise da autoridade policial, integrando o conjunto probatório do caso. Todas as provas, incluindo, além das imagens, os laudos periciais e depoimentos, estão sendo analisadas com rigor. O Corpo de Bombeiros também apura o tempo de resposta no socorro da vítima", disse a secretaria. Guia de Indicadores da PM Reprodução