Participação feminina no agronegócio catarinense cresce, mas ainda há desafios

Piemonte Escrito em 14/05/2026


Santa Catarina é o estado brasileiro com o maior índice de mulheres à frente das propriedades rurais. De acordo com o Censo Agropecuário, divulgado pelo IBGE, são quase 19 mil agricultoras que fazem a gestão de estabelecimentos no estado, número que representa 11% do total. Mas, embora o número esteja em constante crescimento, os desafios para as mulheres agricultoras são muitos, principalmente relacionados ao preconceito ou dificuldades financeiras. Em um ambiente quase que majoritariamente masculino, as mulheres têm lutado para conquistar espaço nas organizações. Em 2005, segundo dados da Organização das Cooperativas do Estado de Santa Catarina (OCESC), as mulheres representavam 8% do quadro de associados das cooperativas catarinenses. Esse número cresceu e chegou a 43% em 2024, o que representa que o público feminino é composto por mais de 1 milhão de pessoas, entre os 4.8 milhões de cooperados. No entanto, boa parte dessas mulheres não ocupam posições de gestão ou tomada de decisões. Como uma forma de mudar esse quadro, diversas instituições de Santa Catarina promovem ações para união e empoderamento feminino. Assunto é prioridade mundial A participação das mulheres no agronegócio não é uma pauta apenas regional, e organizações do mundo todo têm pensado em estratégias para consolidar esse número. A Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU) declarou que 2026 é o Ano Internacional da Mulher Agricultora, como uma forma de incentivar o debate mundial sobre o tema. O objetivo da iniciativa, coordenada pela Food and Agriculture Organization (FAO), agência da ONU dedicada exclusivamente à alimentação e agricultura, é destacar o papel fundamental das mulheres em todos os sistemas agroalimentares, da produção ao comércio. De acordo com a Organização, o papel feminino é essencial para a segurança alimentar, nutrição e resiliência econômica, embora, elas sejam historicamente invisibilizadas por exercerem esses trabalhos. Ao longo do ano, a proposta é aumentar a conscientização e promover ações para reduzir as desigualdades de gênero e melhorar a qualidade de vida das mulheres em todo o mundo. O que Santa Catarina tem feito Uma das iniciativas que têm contribuído para gerar igualdade de gênero no estado é o Programa Mulher Cooperativista, promovido pelo Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo em Santa Catarina (Sescoop/SC), que visa capacitar, integrar e incentivar o protagonismo feminino no sistema cooperativista. Destinado a cooperadas, esposas, filhas e colaboradoras, a ação promove educação cooperativista, liderança e empreendedorismo, para incentivar a participação. Além disso, a Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri) também está ativa com uma série de iniciativas. Entre elas, a instituição construiu o programa Flor-E-Ser, para trabalhar gestão, empreendedorismo e liderança com mulheres do campo e da pesca. Entre 2019 e 2025, mais de 1.300 mulheres passaram pelo programa, número que dobrou nos últimos dois anos. Depois que as mulheres passam pelos cursos, a Secretaria de Estado da Agricultura oferece apoio financeiro para que as participantes desenvolvam ou ampliem projetos. Em 2025, foram mais de R$ 6 milhões investidos em iniciativas de mulheres e jovens que passaram pelos cursos da Epagri. Essas iniciativas já têm se mostrado eficazes quando os números de busca por financiamentos de créditos feitos por mulheres estão em pauta. O Pronaf Mulher, linha voltada ao financiamento de atividades de responsabilidade da mulher agricultora, registrou crescimento de 28% no volume contratado em Santa Catarina entre 2022 e 2025, segundo o Ministério do Desenvolvimento Agrário. Na prática, isso significa que cada vez mais mulheres têm buscado crédito formal para viabilizar projetos. Além do acesso ao crédito e das capacitações técnicas, a presença feminina tem reconfigurado a economia rural catarinense através do fortalecimento das agroindústrias familiares. De acordo com a Epagri, o investimento em capacitações tem permitido que mulheres agreguem valor à produção primária, especialmente em setores como lácteos e processamento artesanal. Ainda, a capacidade de gestão dessas produtoras também tem sido reconhecida como um fator-chave para a modernização das finanças rurais e a implementação de novas tecnologias no campo. Cooperativa amplia acesso ao crédito e fortalece protagonismo feminino no campo A ampliação do acesso ao crédito rural tem sido um dos principais caminhos para fortalecer a presença feminina no agronegócio catarinense. No sistema cooperativista, iniciativas voltadas a esse público buscam reduzir barreiras históricas e ampliar a autonomia econômica das agricultoras, especialmente na agricultura familiar. Um dos exemplos é o Sicoob, que incentiva a participação de mulheres no agronegócio por meio de soluções financeiras adaptadas à realidade da mulher no campo e através do acesso ao crédito rural. — Um dos principais instrumentos é o Pronaf Mulher, que visa ampliar o acesso ao financiamento para mulheres agricultoras, fortalecendo sua autonomia econômica e seu protagonismo na gestão das propriedades rurais. Entre as principais características da linha, destacam-se condições diferenciadas de crédito, com taxas de juros mais acessíveis, prazos adequados ao ciclo produtivo e possibilidade de financiamento tanto para atividades produtivas quanto para investimentos na propriedade — afirma Luiza Zitzke Oliveira, supervisora de Crédito Rural do Sicoob. Segundo a profissional, os recursos podem ser aplicados em diversas finalidades, como na produção agropecuária, aquisição de máquinas, equipamentos e insumos, melhorias na infraestrutura da propriedade, atividades de diversificação de renda, entre outros. Além das condições facilitadas, a organização e o planejamento são fatores determinantes para ampliar o acesso aos financiamentos. “Nós orientamos as mulheres sobre a importância de manter o cadastro atualizado junto à cooperativa, com todas as informações pessoais e produtivas organizadas. Também é essencial que a agricultora esteja com a documentação regularizada, incluindo registros da propriedade ou da atividade rural, além de eventuais documentos que comprovem enquadramento na agricultura familiar, quando aplicável, como o CAF (Cadastro Nacional da Agricultura Familiar)” explica Luiza. Ela também destaca a importância do planejamento da atividade, já que ter clareza sobre o objetivo do crédito, o destino dos recursos e a capacidade de pagamento contribui para uma análise mais ágil e assertiva. Por isso, o apoio técnico, seja por meio de assistência rural ou orientação da própria cooperativa, pode fazer diferença na estruturação da proposta. O processo para contratação do crédito também segue etapas estruturadas, com acompanhamento próximo. Luiza orienta que o primeiro passo é buscar uma uma agência do Sicoob ou imã cooperativa de relacionamento, onde será possível receber orientação personalizada sobre os serviços oferecidos e as linhas de crédito disponíveis, incluindo o Pronaf Mulher. Na sequência, é necessário realizar ou atualizar o cadastro, apresentar a documentação necessária, definir o projeto ou a finalidade do crédito. Após a análise de crédito, ocorre a aprovação e formalização da operação. Por fim, há a liberação dos recursos, que devem ser utilizados conforme o objetivo apresentado.AGRO 5.0