Os 100 anos da histórica visita da cientista Marie Curie a Belo Horizonte A viagem da cientista polonesa naturalizada francesa Marie Curie a Belo Horizonte, que completa seu centenário neste domingo (16), representou um dos momentos mais importantes para a ciência e a medicina de Minas Gerais. 🔎 Marie Curie foi física, química, primeira mulher a ganhar o Prêmio Nobel e a única pessoa a vencer o prêmio em duas áreas científicas diferentes: Física, em 1903, que compartilhou com seu marido Pierre Curie, e Química, em 1911. Ela descobriu os elementos polônio e rádio e revolucionou o estudo da radioatividade. O foco central da visita de Marie Curie a BH era o Instituto do Radium, primeiro centro especializado em oncologia do país. Criado como fundação autônoma, o instituto tinha como objetivo estudar o radium e os raios X. Também era função do instituto divulgar a doença ao público e realizar pesquisas científicas a respeito do tratamento do câncer. Segundo Luciano Peret, coordenador do Centro de Memória da Faculdade de Medicina da UFMG (Cememor), Marie Curie ficou hospedada no Grande Hotel, no Centro da capital mineira, onde hoje funciona o icônico Edifício Maletta. Em sua agenda de visitas, Curie também conheceu Nova Lima e Lagoa Santa, e realizou uma palestra na Faculdade de Medicina da UFMG. Marie Curie e o Instituto do Rodium em BH Imagens cedidas pelo Cememor– UFMG (Centro de Memória da Medicina da UFMG). Nesta matéria você vai entender: O pioneirismo do Instituto de Radium em Belo Horizonte A visita da cientista ao instituto Como está o instituto hoje? 'Simplicidade desconcertante' descrita por Pedro Nava Quem foi Marie Curie, uma das maiores cientistas da história? O pioneirismo do Instituto de Radium em Belo Horizonte Instituto de Radium em 1920, em BH Imagem cedida pelo Cememor – UFMG (Centro de Memória da Medicina da UFMG). O Instituto de Radium foi fundado em 1922 para ser o primeiro centro dedicado exclusivamente ao combate do câncer no Brasil. Segundo o Cememor, a idealização do projeto foi liderada pelo professor Eduardo Borges da Costa, então diretor da Faculdade de Medicina da universidade. Ele procurou o então presidente da República, Arthur Bernardes, que já havia sido governador de Minas Gerais, para sugerir a construção de um hospital especializado no tratamento da doença. Ocupando uma área de 2.000 metros quadrados nos fundos do Parque Municipal, ao lado da Faculdade de Medicina, o instituto possuia uma infraestrutura altamente moderna para a década de 1920. Segundo descrevem os médicos e autores do livro "Memória da Radiologia Brasileira", Sandro Fenelon e Sidney de Souza Almeida, havia 120 leitos no local, além de laboratórios de pesquisa clínica, anatomia patológica, microbiologia e química biológica. Também eram disponibilizados serviços especializados de Roentgenterapia (tipo de tratamento médico antigo que usa raios X para cuidar de doenças) e de Curieterapia (tratamento que usava fontes radioativas colocadas diretamente dentro do tumor para destruir as células doentes com menos dano aos tecidos normais ao redor). A relevância da instituição era tão grande que o hospital chegou a ganhar destaque nas páginas do renomado jornal médico francês La Presse Médicale. A visita da cientista ao instituto do câncer No dia 17 de agosto de 1926, Marie Curie e sua filha Irène visitaram oficialmente as instalações do instituto e foram recebidas por Borges da Costa, pelo vice-diretor Samuel Libânio e pelo secretário-tesoureiro Levy Coelho. Marie Curie conheceu a estrutura de atendimento e chegou a assinar o livro de registro de visitas do hospital, documento histórico que é preservado até hoje e se encontra no Centro de Memória (veja na imagem abaixo). Assinatura de Marie Curie e sua filha Irene no livro de visita do instituto do Radium em BH Imagem cedida Cememor – UFMG (Centro de Memória da Medicina da UFMG) Mais do que validar o trabalho dos médicos mineiros, a visita de Marie Curie deixou um legado prático imediato para a saúde pública de Minas Gerais. Em sua bagagem, a cientista trouxe duas agulhas de rádio e as doou diretamente ao Instituto do Radium (veja na imagem mais abaixo). 🔎 Rádio é o elemento químico descoberto por Marie Curie e seu marido, Pierre Curie, em 1898. Extremamente ativo, o material era escasso e de altíssimo custo no mercado internacional e impulsionou os estudos iniciais sobre a radioatividade. Segundo registros do Cememor, a doação das duas agulhas de rádio viabilizou o início imediato dos tratamentos de Curieterapia, que é a radioterapia com agulhas de platina carregadas com o elemento químico, na capital mineira. O gesto ajudou a salvar vidas de pacientes oncológicos e situou Belo Horizonte como um dos centros no tratamento de tumores no país. Agulha contendo o elemento Rádio Imagem cedida pelo Cememor – UFMG (Centro de Memória da Medicina da UFMG). Logo após retornar ao Rio de Janeiro, Marie Curie enviou uma carta de agradecimento ao doutor Borges da Costa, demonstrando o carinho pela acolhida que recebeu dos colegas e alunos em BH (veja a tradução mais abaixo). Carta de Marie Curie enviada ao doutor Borges da Costa Imagem cedida pelo Cememor – UFMG (Centro de Memória da Medicina da UFMG). Tradução da carta: "De volta ao Rio, peço que aceite os meus sinceros agradecimentos por todo o empenho em tornar agradável a minha estadia em Belo Horizonte e pela calorosa acolhida que recebi de você e de seus colegas no Instituto de Radium e na Faculdade. Guardei disso a melhor lembrança. Aceite, por favor, Senhor Diretor, as minhas cordiais saudações" relatou a carta. Como está o instituto hoje? Em 1950, o hospital foi renomeado como Instituto Borges da Costa em homenagem a seu fundador e, em 1967, foi oficialmente incorporado ao patrimônio da UFMG. Devido a problemas estruturais, o prédio histórico foi desativado em 1977. Entre 1980 e 1998, a estrutura serviu de moradia estudantil para alunos da universidade. Atualmente, a UFMG desenvolve um projeto de reforma e restauração completa do patrimônio. A proposta prevê a transformação do histórico prédio do Instituto do Radium em um moderno hospital oncológico, voltado para procedimentos médicos e tratamento ambulatorial de pacientes com câncer. 'Simplicidade desconcertante' descrita por Pedro Nava No dia seguinte à visita ao instituto, Marie Curie proferiu uma conferência sobre a radioatividade e suas aplicações médicas no anfiteatro da Faculdade de Medicina da UFMG. Na plateia estavam grandes nomes, como Juscelino Kubichek, Guimarães Rosa e o jovem estudante de medicina Pedro Nava, que anos mais tarde se tornaria um dos maiores escritores memorialistas da literatura nacional. Em seu livro de Memórias Beira-Mar (1978), Nava registrou o choque cultural provocado pela "simplicidade desconcertante da cientista perante a rígida elite acadêmica e social da Belo Horizonte dos anos 1920". Segundo o relato de Nava, a sociedade local esperava uma figura feminina luxuosa, compatível com o brilho internacional de seus prêmios Nobel. Curie, contudo, apresentou-se com extrema modéstia. O escritor a descreveu como uma mulher "pequena de estatura", que trajava um "costume sebento" (um vestido de trabalho simples e escuro), calçava "botinas de salto baixo abotoadas só no botão de cima" e exibia "mãos vermelhas e maltratadas" devido ao trabalho contínuo com ácidos e compostos químicos. O estranhamento inicial da plateia, contudo, desapareceu assim que Marie Curie começou a falar. Pedro Nava relata que, ao ensinar, a cientista "transfigurava-se". A autoridade de seu saber dominou o anfiteatro de tal forma que, na descrição do autor, parecia que pelas paredes passavam "raios urânicos, centelhas radioativas e faíscas ferromagnéticas". No dia seguinte a palestra, Curie posou para fotografias oficiais na faculdade rodeada de grandes nomes da medicina mineira, como Carlos Pinheiro Chagas, Baeta Vianna e (veja na imagem abaixo). Fotografia tirada durante visita de Marie Curie a BH Imagem cedida Cememor – UFMG (Centro de Memória da Medicina da UFMG). Quem foi Marie Curie, uma das maiores cientistas da história? Nascida na Polônia, em 1867, Marie Curie foi uma física e química polonesa naturalizada francesa. Ela foi a primeira mulher a ganhar o Prêmio Nobel e a única pessoa a vencer o prêmio em duas áreas científicas diferentes: Física, em 1903 que compartilhou com seu marido Pierre Curie, e Química, em 1911. Ela descobriu os elementos polônio e rádio e revolucionou o estudo da radioatividade. Sob sua direção, foram conduzidos os primeiros estudos para o tratamento de neoplasias, popularmente conhecidas como tumor, usando isótopos radioativos. Ela também fundou o Instituto Curie em Paris e sua contraparte em Varsóvia, que continuam sendo grandes centros de pesquisa médica. Durante a Primeira Guerra Mundial, ela desenvolveu unidades de radiografia móvel para fornecer serviços de raio-X a hospitais de campanha. Veja os vídeos mais vistos do g1 Minas:
Os 100 anos da histórica visita da cientista Marie Curie a Belo Horizonte
Piemonte Escrito em 16/08/2026
Os 100 anos da histórica visita da cientista Marie Curie a Belo Horizonte A viagem da cientista polonesa naturalizada francesa Marie Curie a Belo Horizonte, que completa seu centenário neste domingo (16), representou um dos momentos mais importantes para a ciência e a medicina de Minas Gerais. 🔎 Marie Curie foi física, química, primeira mulher a ganhar o Prêmio Nobel e a única pessoa a vencer o prêmio em duas áreas científicas diferentes: Física, em 1903, que compartilhou com seu marido Pierre Curie, e Química, em 1911. Ela descobriu os elementos polônio e rádio e revolucionou o estudo da radioatividade. O foco central da visita de Marie Curie a BH era o Instituto do Radium, primeiro centro especializado em oncologia do país. Criado como fundação autônoma, o instituto tinha como objetivo estudar o radium e os raios X. Também era função do instituto divulgar a doença ao público e realizar pesquisas científicas a respeito do tratamento do câncer. Segundo Luciano Peret, coordenador do Centro de Memória da Faculdade de Medicina da UFMG (Cememor), Marie Curie ficou hospedada no Grande Hotel, no Centro da capital mineira, onde hoje funciona o icônico Edifício Maletta. Em sua agenda de visitas, Curie também conheceu Nova Lima e Lagoa Santa, e realizou uma palestra na Faculdade de Medicina da UFMG. Marie Curie e o Instituto do Rodium em BH Imagens cedidas pelo Cememor– UFMG (Centro de Memória da Medicina da UFMG). Nesta matéria você vai entender: O pioneirismo do Instituto de Radium em Belo Horizonte A visita da cientista ao instituto Como está o instituto hoje? 'Simplicidade desconcertante' descrita por Pedro Nava Quem foi Marie Curie, uma das maiores cientistas da história? O pioneirismo do Instituto de Radium em Belo Horizonte Instituto de Radium em 1920, em BH Imagem cedida pelo Cememor – UFMG (Centro de Memória da Medicina da UFMG). O Instituto de Radium foi fundado em 1922 para ser o primeiro centro dedicado exclusivamente ao combate do câncer no Brasil. Segundo o Cememor, a idealização do projeto foi liderada pelo professor Eduardo Borges da Costa, então diretor da Faculdade de Medicina da universidade. Ele procurou o então presidente da República, Arthur Bernardes, que já havia sido governador de Minas Gerais, para sugerir a construção de um hospital especializado no tratamento da doença. Ocupando uma área de 2.000 metros quadrados nos fundos do Parque Municipal, ao lado da Faculdade de Medicina, o instituto possuia uma infraestrutura altamente moderna para a década de 1920. Segundo descrevem os médicos e autores do livro "Memória da Radiologia Brasileira", Sandro Fenelon e Sidney de Souza Almeida, havia 120 leitos no local, além de laboratórios de pesquisa clínica, anatomia patológica, microbiologia e química biológica. Também eram disponibilizados serviços especializados de Roentgenterapia (tipo de tratamento médico antigo que usa raios X para cuidar de doenças) e de Curieterapia (tratamento que usava fontes radioativas colocadas diretamente dentro do tumor para destruir as células doentes com menos dano aos tecidos normais ao redor). A relevância da instituição era tão grande que o hospital chegou a ganhar destaque nas páginas do renomado jornal médico francês La Presse Médicale. A visita da cientista ao instituto do câncer No dia 17 de agosto de 1926, Marie Curie e sua filha Irène visitaram oficialmente as instalações do instituto e foram recebidas por Borges da Costa, pelo vice-diretor Samuel Libânio e pelo secretário-tesoureiro Levy Coelho. Marie Curie conheceu a estrutura de atendimento e chegou a assinar o livro de registro de visitas do hospital, documento histórico que é preservado até hoje e se encontra no Centro de Memória (veja na imagem abaixo). Assinatura de Marie Curie e sua filha Irene no livro de visita do instituto do Radium em BH Imagem cedida Cememor – UFMG (Centro de Memória da Medicina da UFMG) Mais do que validar o trabalho dos médicos mineiros, a visita de Marie Curie deixou um legado prático imediato para a saúde pública de Minas Gerais. Em sua bagagem, a cientista trouxe duas agulhas de rádio e as doou diretamente ao Instituto do Radium (veja na imagem mais abaixo). 🔎 Rádio é o elemento químico descoberto por Marie Curie e seu marido, Pierre Curie, em 1898. Extremamente ativo, o material era escasso e de altíssimo custo no mercado internacional e impulsionou os estudos iniciais sobre a radioatividade. Segundo registros do Cememor, a doação das duas agulhas de rádio viabilizou o início imediato dos tratamentos de Curieterapia, que é a radioterapia com agulhas de platina carregadas com o elemento químico, na capital mineira. O gesto ajudou a salvar vidas de pacientes oncológicos e situou Belo Horizonte como um dos centros no tratamento de tumores no país. Agulha contendo o elemento Rádio Imagem cedida pelo Cememor – UFMG (Centro de Memória da Medicina da UFMG). Logo após retornar ao Rio de Janeiro, Marie Curie enviou uma carta de agradecimento ao doutor Borges da Costa, demonstrando o carinho pela acolhida que recebeu dos colegas e alunos em BH (veja a tradução mais abaixo). Carta de Marie Curie enviada ao doutor Borges da Costa Imagem cedida pelo Cememor – UFMG (Centro de Memória da Medicina da UFMG). Tradução da carta: "De volta ao Rio, peço que aceite os meus sinceros agradecimentos por todo o empenho em tornar agradável a minha estadia em Belo Horizonte e pela calorosa acolhida que recebi de você e de seus colegas no Instituto de Radium e na Faculdade. Guardei disso a melhor lembrança. Aceite, por favor, Senhor Diretor, as minhas cordiais saudações" relatou a carta. Como está o instituto hoje? Em 1950, o hospital foi renomeado como Instituto Borges da Costa em homenagem a seu fundador e, em 1967, foi oficialmente incorporado ao patrimônio da UFMG. Devido a problemas estruturais, o prédio histórico foi desativado em 1977. Entre 1980 e 1998, a estrutura serviu de moradia estudantil para alunos da universidade. Atualmente, a UFMG desenvolve um projeto de reforma e restauração completa do patrimônio. A proposta prevê a transformação do histórico prédio do Instituto do Radium em um moderno hospital oncológico, voltado para procedimentos médicos e tratamento ambulatorial de pacientes com câncer. 'Simplicidade desconcertante' descrita por Pedro Nava No dia seguinte à visita ao instituto, Marie Curie proferiu uma conferência sobre a radioatividade e suas aplicações médicas no anfiteatro da Faculdade de Medicina da UFMG. Na plateia estavam grandes nomes, como Juscelino Kubichek, Guimarães Rosa e o jovem estudante de medicina Pedro Nava, que anos mais tarde se tornaria um dos maiores escritores memorialistas da literatura nacional. Em seu livro de Memórias Beira-Mar (1978), Nava registrou o choque cultural provocado pela "simplicidade desconcertante da cientista perante a rígida elite acadêmica e social da Belo Horizonte dos anos 1920". Segundo o relato de Nava, a sociedade local esperava uma figura feminina luxuosa, compatível com o brilho internacional de seus prêmios Nobel. Curie, contudo, apresentou-se com extrema modéstia. O escritor a descreveu como uma mulher "pequena de estatura", que trajava um "costume sebento" (um vestido de trabalho simples e escuro), calçava "botinas de salto baixo abotoadas só no botão de cima" e exibia "mãos vermelhas e maltratadas" devido ao trabalho contínuo com ácidos e compostos químicos. O estranhamento inicial da plateia, contudo, desapareceu assim que Marie Curie começou a falar. Pedro Nava relata que, ao ensinar, a cientista "transfigurava-se". A autoridade de seu saber dominou o anfiteatro de tal forma que, na descrição do autor, parecia que pelas paredes passavam "raios urânicos, centelhas radioativas e faíscas ferromagnéticas". No dia seguinte a palestra, Curie posou para fotografias oficiais na faculdade rodeada de grandes nomes da medicina mineira, como Carlos Pinheiro Chagas, Baeta Vianna e (veja na imagem abaixo). Fotografia tirada durante visita de Marie Curie a BH Imagem cedida Cememor – UFMG (Centro de Memória da Medicina da UFMG). Quem foi Marie Curie, uma das maiores cientistas da história? Nascida na Polônia, em 1867, Marie Curie foi uma física e química polonesa naturalizada francesa. Ela foi a primeira mulher a ganhar o Prêmio Nobel e a única pessoa a vencer o prêmio em duas áreas científicas diferentes: Física, em 1903 que compartilhou com seu marido Pierre Curie, e Química, em 1911. Ela descobriu os elementos polônio e rádio e revolucionou o estudo da radioatividade. Sob sua direção, foram conduzidos os primeiros estudos para o tratamento de neoplasias, popularmente conhecidas como tumor, usando isótopos radioativos. Ela também fundou o Instituto Curie em Paris e sua contraparte em Varsóvia, que continuam sendo grandes centros de pesquisa médica. Durante a Primeira Guerra Mundial, ela desenvolveu unidades de radiografia móvel para fornecer serviços de raio-X a hospitais de campanha. Veja os vídeos mais vistos do g1 Minas:
