Projeto de concessão quer construir hotel de luxo em São José do Barreiro A Fazenda Pau D’Alho, em São José do Barreiro, no interior de São Paulo, pode virar um hotel de luxo como parte de um projeto de concessão do governo federal. O plano prevê um empreendimento com 60 quartos e diária estimada em cerca de R$ 1,6 mil. O conjunto é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) desde 1968, e o hotel está previsto para ser construído fora da área protegida. Moradores são contra o tamanho do projeto, que prevê cerca de 8,3 mil metros quadrados de área construída, somando prédios históricos e novas estruturas. O projeto está em consulta pública até 6 de fevereiro (fase em que o governo abre o projeto para comentários da sociedade antes de decidir se e como ele será colocado em licitação). O prazo foi prorrogado pelo Ministério do Turismo no fim de dezembro, antes da abertura da licitação. Segundo a pasta, a concessão deve durar 45 anos. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 Vale do Paraíba e região no WhatsApp Construída em 1818 para a produção de café, a fazenda recebeu Dom Pedro I em 17 de agosto de 1822, durante a viagem do então príncipe regente rumo a São Paulo, poucos dias antes da Proclamação da Independência. Imagem ilustrativa de hotel de luxo previsto em concessão da Fazenda Pau D'Alho. Reprodução/Ministério do Turismo Moradores são contra Para Junior Meireles, advogado e presidente do Instituto Pau D’Alho, entidade criada para defender o patrimônio histórico, o projeto é incompatível com a realidade do município, que tem 3.853 habitantes, e pode causar impactos à estrutura histórica. "Podemos ter impactos ambientais e socioculturais. São José do Barreiro não comporta. A gente tem na região inteira do Vale Histórico um fluxo de 45 mil pessoas. Eles estão propondo dentro do estudo de viabilidade que só a fazenda vai receber 45 mil hóspedes. A gente não tem estrutura para esse fluxo de turistas. Como hospital, rede de água, estruturas sociais para receber um empreendimento desse tamanho", disse. "É uma área de mata atlântica e curso d'água. Estão propondo cinco intervenções no prédio tombado, e que são acessos a um calçamento do século 18. O fluxo de hóspedes vai danificar por causa do peso", acrescentou o advogado. O g1 procurou o Ministério do Turismo e o Iphan para comentar as alegações dos moradores e especialistas, mas não obteve resposta até a última atualização da reportagem. Luxo em local marcado pela escravidão Ele afirma ainda que a proposta entra em contradição com a história do local, marcado pelo período da escravidão. "Dentro desse espaço, nessa atmosfera de luta, não cabe um hotel. É o apagamento da história do povo preto construir, por exemplo, uma loja de conveniência ali. Criar uma falsa imaginação de luxo em um lugar que foi de trabalho", disse. Segundo a artista Sônia Dietrich Paes Leme, integrante do Instituto Pau D’Alho e moradora de São José do Barreiro há 33 anos, a fazenda é um espaço de visitação histórica, ambiental e cultural, e não um destino de turismo de massa. “Para se ter uma ideia, hoje o município tem um hotel com 18 unidades, que não chega a 40% de ocupação. A proposta do governo prevê um hotel de luxo, cobrança de ingresso para entrar na fazenda e a transformação do antigo terreiro de café em estacionamento. Isso nos assustou. Nossa região não comporta ônibus de turismo, comporta vans. Não é um destino de turismo de massa.” Ainda segundo Sônia, o grupo defende que o espaço continue acessível à população e voltado a atividades de pesquisa, educação e valorização da história local. “Temos medo de que, em 20 ou 40 anos, sobre apenas um esqueleto de obra, sem que nem a prefeitura nem o estado consigam assumir aquilo”, disse. O projeto faz parte do Programa Revive, inspirado em um modelo de Portugal, que busca recuperar imóveis históricos por meio de parcerias com a iniciativa privada. O contrato prevê que áreas de circulação e uso cultural permaneçam abertas ao público e que, ao final da concessão, o hotel seja incorporado ao patrimônio público. A concessão De acordo com o plano de negócios, a concessão prevê investimentos de R$ 63,1 milhões ao longo do contrato. Desse total, cerca de R$ 10,9 milhões seriam destinados à restauração das construções históricas. A maior parte dos recursos, cerca de R$ 52,2 milhões, está ligada à construção do hotel. O projeto prevê que o prédio fique fora da área tombada, a pelo menos 15 metros dos muros históricos, com até três pavimentos, ligado ao conjunto por uma passarela. Infográfico mostra detalhes do projeto de concessão. g1 Diária de R$ 1,6 mil Segundo o Ministério do Turismo, a diária média prevista é de R$ 1.638,63, com taxa de ocupação estimada em 64%. O plano inclui aluguel de áreas comerciais, cobrança de estacionamento (R$ 28) e gastos médios de R$ 80 com alimentação. O projeto também prevê receitas com ingressos (R$ 45), restaurante, publicidade, naming rights, lojas de souvenir, transporte e atividades recreativas e esportivas. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), assessor técnico do projeto, informou que, no décimo ano da concessão, a receita anual pode chegar a R$ 34,5 milhões, sendo cerca de R$ 28,5 milhões apenas com o hotel. O contrato prevê mínima intervenção nas áreas tombadas e proíbe usos que causem danos ao conjunto arquitetônico. A antiga senzala deverá ser destinada a atividades educativas e de valorização da memória da escravidão. Taxa de ocupação prevista é de 64% em hotel. Reprodução/Ministério do Turismo Fazenda Pau D'Alho, em São José do Barreiro, no interior de SP. Reprodução/Ministério do Turismo Veja mais notícias do Vale do Paraíba e região bragantina
Fazenda histórica que recebeu Dom Pedro I pode virar hotel de luxo em SP; grupo de moradores é contra projeto
Piemonte Escrito em 17/01/2026
Projeto de concessão quer construir hotel de luxo em São José do Barreiro A Fazenda Pau D’Alho, em São José do Barreiro, no interior de São Paulo, pode virar um hotel de luxo como parte de um projeto de concessão do governo federal. O plano prevê um empreendimento com 60 quartos e diária estimada em cerca de R$ 1,6 mil. O conjunto é tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) desde 1968, e o hotel está previsto para ser construído fora da área protegida. Moradores são contra o tamanho do projeto, que prevê cerca de 8,3 mil metros quadrados de área construída, somando prédios históricos e novas estruturas. O projeto está em consulta pública até 6 de fevereiro (fase em que o governo abre o projeto para comentários da sociedade antes de decidir se e como ele será colocado em licitação). O prazo foi prorrogado pelo Ministério do Turismo no fim de dezembro, antes da abertura da licitação. Segundo a pasta, a concessão deve durar 45 anos. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 Vale do Paraíba e região no WhatsApp Construída em 1818 para a produção de café, a fazenda recebeu Dom Pedro I em 17 de agosto de 1822, durante a viagem do então príncipe regente rumo a São Paulo, poucos dias antes da Proclamação da Independência. Imagem ilustrativa de hotel de luxo previsto em concessão da Fazenda Pau D'Alho. Reprodução/Ministério do Turismo Moradores são contra Para Junior Meireles, advogado e presidente do Instituto Pau D’Alho, entidade criada para defender o patrimônio histórico, o projeto é incompatível com a realidade do município, que tem 3.853 habitantes, e pode causar impactos à estrutura histórica. "Podemos ter impactos ambientais e socioculturais. São José do Barreiro não comporta. A gente tem na região inteira do Vale Histórico um fluxo de 45 mil pessoas. Eles estão propondo dentro do estudo de viabilidade que só a fazenda vai receber 45 mil hóspedes. A gente não tem estrutura para esse fluxo de turistas. Como hospital, rede de água, estruturas sociais para receber um empreendimento desse tamanho", disse. "É uma área de mata atlântica e curso d'água. Estão propondo cinco intervenções no prédio tombado, e que são acessos a um calçamento do século 18. O fluxo de hóspedes vai danificar por causa do peso", acrescentou o advogado. O g1 procurou o Ministério do Turismo e o Iphan para comentar as alegações dos moradores e especialistas, mas não obteve resposta até a última atualização da reportagem. Luxo em local marcado pela escravidão Ele afirma ainda que a proposta entra em contradição com a história do local, marcado pelo período da escravidão. "Dentro desse espaço, nessa atmosfera de luta, não cabe um hotel. É o apagamento da história do povo preto construir, por exemplo, uma loja de conveniência ali. Criar uma falsa imaginação de luxo em um lugar que foi de trabalho", disse. Segundo a artista Sônia Dietrich Paes Leme, integrante do Instituto Pau D’Alho e moradora de São José do Barreiro há 33 anos, a fazenda é um espaço de visitação histórica, ambiental e cultural, e não um destino de turismo de massa. “Para se ter uma ideia, hoje o município tem um hotel com 18 unidades, que não chega a 40% de ocupação. A proposta do governo prevê um hotel de luxo, cobrança de ingresso para entrar na fazenda e a transformação do antigo terreiro de café em estacionamento. Isso nos assustou. Nossa região não comporta ônibus de turismo, comporta vans. Não é um destino de turismo de massa.” Ainda segundo Sônia, o grupo defende que o espaço continue acessível à população e voltado a atividades de pesquisa, educação e valorização da história local. “Temos medo de que, em 20 ou 40 anos, sobre apenas um esqueleto de obra, sem que nem a prefeitura nem o estado consigam assumir aquilo”, disse. O projeto faz parte do Programa Revive, inspirado em um modelo de Portugal, que busca recuperar imóveis históricos por meio de parcerias com a iniciativa privada. O contrato prevê que áreas de circulação e uso cultural permaneçam abertas ao público e que, ao final da concessão, o hotel seja incorporado ao patrimônio público. A concessão De acordo com o plano de negócios, a concessão prevê investimentos de R$ 63,1 milhões ao longo do contrato. Desse total, cerca de R$ 10,9 milhões seriam destinados à restauração das construções históricas. A maior parte dos recursos, cerca de R$ 52,2 milhões, está ligada à construção do hotel. O projeto prevê que o prédio fique fora da área tombada, a pelo menos 15 metros dos muros históricos, com até três pavimentos, ligado ao conjunto por uma passarela. Infográfico mostra detalhes do projeto de concessão. g1 Diária de R$ 1,6 mil Segundo o Ministério do Turismo, a diária média prevista é de R$ 1.638,63, com taxa de ocupação estimada em 64%. O plano inclui aluguel de áreas comerciais, cobrança de estacionamento (R$ 28) e gastos médios de R$ 80 com alimentação. O projeto também prevê receitas com ingressos (R$ 45), restaurante, publicidade, naming rights, lojas de souvenir, transporte e atividades recreativas e esportivas. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), assessor técnico do projeto, informou que, no décimo ano da concessão, a receita anual pode chegar a R$ 34,5 milhões, sendo cerca de R$ 28,5 milhões apenas com o hotel. O contrato prevê mínima intervenção nas áreas tombadas e proíbe usos que causem danos ao conjunto arquitetônico. A antiga senzala deverá ser destinada a atividades educativas e de valorização da memória da escravidão. Taxa de ocupação prevista é de 64% em hotel. Reprodução/Ministério do Turismo Fazenda Pau D'Alho, em São José do Barreiro, no interior de SP. Reprodução/Ministério do Turismo Veja mais notícias do Vale do Paraíba e região bragantina
