'Somos uma família': casal gay esperou 19 anos por casamento em cartório no interior de SP

Piemonte Escrito em 28/06/2026


Casal gay esperou 19 anos para poder casar no cartório em Matão, SP No Dia Internacional do Orgulho LGBTQIA+, comemorado neste domingo (28), a celebração dos direitos conquistados traz à tona histórias de paciência, resistência e pioneirismo. Para o empresário Vanderlei Araújo 'Lêlo' e personal trainer Marcos André Bezerra, moradores de Matão, no interior de São Paulo, a conquista do direito de assinar o papel passado no cartório foi o desfecho de uma espera que durou quase duas décadas. 📱 Siga o g1 São Carlos e Araraquara no Instagram Os dois se conheceram em 1994 e, já no ano seguinte, em 1995, decidiram morar juntos. Durante 19 anos, eles construíram uma vida lado a lado enfrentando os tabus da época, mas sem o amparo legal do casamento civil, que não era permitido para casais do mesmo sexo no Brasil. "Eu sabia que não ia ser fácil. Aceitação da família, da sociedade, né? Explicar o porquê que aqueles dois jovens, na época muito bonitos, estavam morando juntos, né?", relembrou Lêlo sobre o início da relação nos anos 90. LEIA TAMBÉM: Com travestis e lésbica, banda une rock, deboche e orgulho LGBT+ no interior de SP: 'Grito de revolta' O anúncio na TV e a barreira da burocracia Casal gay de Matão (SP) construiu família após casamento em cartório Reprodução/EPTV A reviravolta histórica veio em 2013, quando o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) determinou que todos os cartórios do país passassem a realizar o casamento civil homoafetivo, após uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF). O anúncio foi o estopim para que o casal finalmente buscasse a legalização da união, mas o pioneirismo trouxe novos testes de paciência. "A gente ficou sabendo pela TV que na época o governo tinha liberado o casamento entre pessoas do mesmo sexo, iguais. Fomos no cartório civil para fazer, fez o registro. Aí quando mandou o proclame do diário oficial, a gente ficou sabendo que ia demorar um pouco", contou Marcos. Por ser o primeiro caso da cidade, as próprias autoridades locais não sabiam como proceder. "Porque o nosso promotor ainda não sabia como lidar com essa nova lei, como seria. E aí esse processo ele precisou mandar para a segunda instância em Campinas. Demorou aí uns nove meses para chegar à nossa certidão", explicou. Apesar da longa espera burocrática, o casal conseguiu abrir as portas para toda a comunidade da região. "Desbravar, né? Fomos o primeiro casal aqui na nossa cidade a ter o casamento no cartório. E abrir portas para os nossos companheiros, e depois muitos amigos nossos que também fizeram o matrimônio no cartório", afirmou Lêlo com orgulho. Três décadas de história e uma filha Casal gay de Matão (SP) esperou 19 anos para poder oficializar casamento em cartório Reprodução/EPTV Hoje, 32 anos após o primeiro encontro na década de 1990, o amor resistente rendeu frutos. Todo o afeto construído ao longo do tempo é transferido para a filha do casal, Maju, de 9 anos. Para Marcos, a certidão de casamento obtida após 19 anos de união informal vai muito além de um mero papel: representa a dignidade e o reconhecimento da identidade de sua casa perante o mundo. "Muita felicidade, viu? A gente tem o nosso registro, tudo certinho, certidão. Hoje ajuda a gente bastante, porque a gente já viajou para fora, a gente é considerado uma família, que eu acho isso muito interessante. Nós não somos, a gente vive junto há 32 anos, então é uma família. Eu acho que é um direito assegurado também", disse Marcos. Crescimento do casamento civil no Estado A conquista desbravada por Lelo e Marcos em 2013 se reflete na realidade de milhares de cidadãos que hoje encontram um caminho pavimentado. De acordo com dados estaduais recentes, de janeiro a 1º de junho deste ano, foram registrados 2.209 casamentos homoafetivos no estado de São Paulo — um salto de quase 24% em comparação ao mesmo período de 2025, quando houve 1.786 registros. Entre os casais novos que usufruem desse direito histórico estão o chefe de serviços acadêmicos Kenedy Bernardes Louzada e o enfermeiro Lorran Louzada de Oliveira Bernardes, que recentemente também oficializaram a união em cartório. No momento da assinatura, a emoção tomou conta de Lohan diante da importância do ato. "Tremi, errei o nome, foi bem assim. Aquele nervoso de felicidade que você não está acreditando, mas tivemos que pedir outra folha, porque não dava, a caneta não parava, a mão ficava bem trêmula", disse Lorran. Veja reportagem completa do EPTV1: Casamentos homoafetivos crescem em SP e reforçam conquista de direitos VÍDEOS DA EPTV: Veja mais notícias no nosso canal do WhatsApp!