Como investigação sobre envolvimento do PCC no transporte público chegou ao ex-vereador Milton Leite

Piemonte Escrito em 21/09/2026


"Eu acho que vai envolver Milton Leite, o pessoal todo", diz em mensagem um integrante do PCC. A polícia de São Paulo fez uma operação para combater a atuação do PCC no setor de transportes. Onze pessoas foram presas, entre elas, Milton Leite, um importante líder político da capital, suspeito de envolvimento no esquema. Uma denúncia anônima abriu uma porta que a polícia não imaginava onde ia dar. Em 2023, a polícia apreendeu drogas em uma casa em Itaquaquecetuba (SP) e encontrou, no mesmo local, a esposa de um integrante do PCC. A mulher passou a ser monitorada, após a polícia suspeitar que ela fosse o elo entre integrantes do PCC presos e criminosos que estavam nas ruas. Meses depois, um celular apreendido abriu uma nova frente de investigação. A partir desse aparelho, os investigadores identificaram outros celulares e novas conversas. Em uma delas, os policiais identificaram suspeitas no sistema de transporte público. "Nós identificamos 12 empresas de transporte que teriam envolvimento direto com o Primeiro Comando da Capital", diz Fabricio Intelizano, delegado da Polícia Civil de Mogi das Cruzes. Um levantamento do g1 aponta que essas 12 empresas operam todas as linhas de bairro em São Paulo e, juntas, transportam 41% de todos os passageiros. Desde os anos 90, o PCC já era suspeito de atuar no transporte clandestino em São Paulo. A operação desta semana tenta descobrir como criminosos conseguiram firmar contratos com as prefeituras. Entre tantos outros celulares, a investigação chegou dentro do próprio poder público: SP Trans, empresa que gerencia o transporte de ônibus da cidade. Mensagens apreendidas revelam reuniões periódicas do então presidente da SPTrans, Levi dos Santos Oliveira, com um intermediador ligado ao PCC. Levi esteve duas vezes no comando da SPTrans: em 2020 e de 2022 a 2025. O relatório da investigação afirma que "Levi tem conhecimento da atuação do crime organizado nessa fatia do poder público". A defesa de Levi declarou em nota que não há qualquer interação dele com demais investigados, tampouco indícios mínimos de vantagem indevida recebida, favorecimento concedido ou qualquer contribuição para atividade criminosa. A partir daí, a investigação chegou a outro nível de poder: a Milton Leite, citado em mensagens encontradas no celular. "Eu acho que vai envolver Milton Leite, o pessoal todo", diz em mensagem um integrante do PCC. Milton Leite chegou à Câmara Municipal em 1997. Foi relator da CPI da Máfia dos Fiscais. Em quase 30 anos de mandato, presidiu a Câmara por seis anos, mais tempo que qualquer outro vereador. Ele deixou o Legislativo, mas comanda, no estado, a federação formada por União Brasil e Progressistas. Além das mensagens de celular da operação desta semana, depoimentos de policiais prestados à Justiça Militar também colocaram Milton Leite nas investigações sobre o envolvimento do PCC com o transporte público. Um sargento da Rota disse que foi convidado para fazer a segurança da empresa Transwolff. Essa empresa foi alvo do Ministério Público em 2024, justamente pela suspeita de pertencer ao PCC. O mesmo sargento afirmou que Milton Leite era de fato o "dono" da Transwolff e que os demais diretores eram apenas "laranjas", mas que não tinha como provar. Um outro sargento, também da Rota, declarou que realizava escolta de valores para a empresa e para os empresários da Transwolff. Os dois, que faziam a segurança para a empresa de ônibus, disseram que foram chamados e pagos pelo capitão Alexandre Paulino Vieira, ajudante de ordens do então vereador Milton Leite na Câmara Municipal. Para a Justiça, o capitão Alexandre Paulino Vieira disse que sua relação com Milton Leite era funcional desde que ele estava na condição de presidente da Casa. Ele também afirmou desconhecer se o ex-vereador mantém relação com a empresa. Em depoimento, o capitão Alexandre Vieira nega todas as acusações. Os integrantes da facção, segundo os policiais e o Ministério Público, queriam contratar homens da Rota por dois motivos: segurança de qualidade, já que a Rota é treinada para situações de alto risco; e para dar certa legitimidade ao negócio. a presença de policiais de elite como escolta pessoal passa a mensagem de que a empresa de ônibus é séria. Em nota, a Secretaria de Segurança Pública disse que os três policiais estão presos depois que as investigações apontaram possível envolvimento com associação criminosa. O caso foi concluído e encaminhado à Justiça. Na operação desta semana, policiais estiveram na casa do ex-vereador Milton Leite, mas ele não estava. A polícia investiga se houve vazamento da operação. No dia seguinte, a polícia foi a uma casa em Sorocaba, no interior de São Paulo, mas também não o encontrou. Policiais descobriram uma passagem secreta que dava para a casa vizinha, que seria de um de seus assessores, e apreenderam R$ 280 mil e 89 mil dólares, o equivalente a R$ 730 mil em dinheiro vivo. Mais de 30 horas depois da operação, Milton Leite se entregou na delegacia. O advogado do ex-vereador negou que ele seja o dono da empresa de ônibus. O repórter Walace Lara, da TV Globo, perguntou se o vereador se arrependia de alguma coisa. "Só se arrepende quem comete crime. Eu não cometi nenhum, nada devo", respondeu. Neste sábado (19), Milton passou mal e foi levado ao hospital. A defesa da Transwolff esclarece que Milton Leite nunca teve qualquer participação societária na Transwolff, nunca participou da gestão ou deu ordens na empresa e que o processo administrativo de intervenção na Transwolff está sendo questionado na Justiça. A Prefeitura disse que vai analisar os contratos e vínculos com essas empresas. Se constatadas irregularidades, medidas serão tomadas. Mas a investigação continua. Como investigação sobre envolvimento do PCC no transporte público chegou ao ex-vereador Milton Leite Fantástico GloboPop: clique para ver os vídeos do palco do Fantástico Ouça os podcasts do Fantástico ISSO É FANTÁSTICO O podcast Isso É Fantástico está disponível no g1 e nos principais aplicativos de podcasts, trazendo grandes reportagens, investigações e histórias fascinantes em podcast com o selo de jornalismo do Fantástico: profundidade, contexto e informação. Siga, curta ou assine o Isso É Fantástico no seu tocador de podcasts favorito. 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