Trump transforma aniversário dos EUA em vitrine política, e festa de 250 anos expõe divisão do país

Piemonte Escrito em 04/07/2026


O presidente dos EUA, Donald Trump, gesticula ao chegar para discursar no Anfiteatro Burning Hills, no dia da inauguração da Biblioteca Presidencial Theodore Roosevelt, em Medora, Dakota do Norte, EUA, em 1º de julho de 2026 REUTERS/Evan Vucci As comemorações pelos 250 anos da independência dos Estados Unidos, celebrados neste sábado (4), foram cercadas de pressões, conflitos e polêmicas antes mesmo de acontecerem. O aniversário histórico, planejado durante quase uma década para servir como um momento de união nacional, transformou-se em uma disputa sobre quem tem o direito de definir a narrativa da história americana e o significado do patriotismo. ✅ Siga o canal de notícias internacionais do g1 no WhatsApp O planejamento das celebrações começou em 2016, quando o Congresso criou a comissão bipartidária America250 para coordenar eventos em todo o país. A proposta previa uma programação nacional voltada à educação, à cultura e à participação popular. O cenário mudou após o retorno de Donald Trump à Casa Branca. Em janeiro de 2025, o presidente assinou um decreto criando a Freedom 250, grupo encarregado de organizar os principais eventos federais em Washington. A decisão dividiu as comemorações em duas frentes: Na capital americana, a Freedom 250 promoveu uma programação centrada na figura de Trump, com apresentações da Orquestra Conjunta das Forças Armadas, um grande show pirotécnico de 40 minutos e a previsão de lançar 850 mil fogos de artifício a partir de dez pontos da cidade. Ao mesmo tempo, a America250 organizou, em Los Angeles, um espetáculo com foco na diversidade cultural, apresentado por Queen Latifah e com shows de Chris Stapleton, Chaka Khan e da banda Smashing Pumpkins. Espelho d'água de Washington REUTERS/Nathan Howard Nos bastidores, porém, a relação entre os dois grupos foi marcada por conflitos. Integrantes das comissões relataram divergências sobre orçamento, programação, campanhas de divulgação e divisão de responsabilidades, segundo a agência Reuters. As duas organizações promoveram concursos estudantis diferentes, disputaram patrocinadores privados, lançaram campanhas publicitárias próprias durante o Super Bowl e competiram pela atenção da imprensa. A mudança também alterou os planos originalmente elaborados para Washington. Documentos preparados em 2024 previam um desfile com carros alegóricos representando diferentes comunidades, um festival cultural organizado pelo Smithsonian Institution e apresentações musicais espalhadas pelo país. Após a criação da Freedom 250, parte dessas iniciativas foi substituída pela Great American State Fair, feira patriótica inaugurada por Trump. Pelo menos nove estados decidiram não participar diretamente do evento. Leia também: 'Maior organização criminosa do Hemisfério Ocidental': PCC põe Brasil no centro da estratégia de Trump para as Américas Empresas de Trump têm receita bilionária em 2025 e reacendem debate sobre conflito com decisões de governo 'É uma festa do Trump, não dos Estados Unidos' De acordo com Roberto Uebel, professor de Relações Internacionais da ESPM e coordenador do núcleo de estudos e negócios americanos da instituição, a mudança de tom da comemoração é algo inédito na história do país. Historicamente, ele diz, associar grandes celebrações nacionais à imagem pessoal de um governante ou a um projeto político específico não é comum na política norte-americana, que costuma adotar um tom estritamente protocolar e institucional. "Nos 200 anos da independência, em 1976, no pós-Guerra do Vietnã e durante a Guerra Fria, a festa foi muito protocolar, focada em destacar o papel dos Estados Unidos no mundo. O mesmo ocorreu no centenário, em 1876, sob a lógica da Doutrina Monroe e da ascensão do país como potência. Em nenhum desses momentos a figura do governante foi personificada”, disse o especialista. No entanto, a efeméride dos 250 anos parece seguir um caminho diferente na história política do país. Uebel afirma que a tendência é que a comemoração seja marcada pelo apelo personalista do presidente. Essa mudança de perspectiva e o tom mais personalista trazem reflexos para a projeção internacional do país. Embora os Estados Unidos ainda se projetem globalmente como uma superpotência nos aspectos político, econômico e cultural, as ações do segundo mandato de Trump colocam à prova os tradicionais valores norte-americanos de liberdade, individualidade, justiça e democracia, explica Uebel. “A gente vê o Trump em evidência. Ele no passaporte, ele na moeda comemorativa, enfim, ele tenta trazer isso para si. É uma festa do Trump, não dos Estados Unidos”. Segundo Uebel, esses valores passam a ser questionados pela comunidade internacional — incluindo potências rivais como Rússia e China, e até mesmo aliados históricos como a União Europeia e o Reino Unido. A disputa pela narrativa da história americana Desde a campanha presidencial de 2023, Trump prometia realizar uma celebração que duraria um ano inteiro e seria a maior festa de independência já promovida por um país. Após seu retorno à Casa Branca, o republicano transformou o aniversário de 250 anos em uma das principais vitrines de seu governo. Além da feira nacional, Trump promoveu um desfile militar, um evento do UFC nos jardins da Casa Branca e passou a defender uma abordagem baseada no que chama de "história patriótica". Evento 'UFC Freedom 250' na Casa Branca, em Washington D.C., nos Estados Unidos, na madrugada de 15 de junho de 2026. Jacquelyn Martin/Pool via REUTERS A estratégia provocou críticas de opositores e de integrantes da própria comissão criada pelo Congresso. O senador democrata Alex Padilla afirmou que o presidente transformou o aniversário da independência em uma plataforma de promoção pessoal. “Ele não conseguiu evitar transformar o aniversário de 250 anos dos Estados Unidos em algo voltado para si mesmo", disse. A disputa também chegou ao financiamento: Embora o Congresso tenha aprovado US$ 150 milhões para a America250, a comissão recebeu apenas US$ 25 milhões dos US$ 50 milhões previstos para suas atividades ligadas aos eventos federais. Ao mesmo tempo, pelo menos US$ 68 milhões foram destinados pelo governo à organização sem fins lucrativos responsável pela Freedom 250. Empresas como Palantir, United Airlines, Deloitte, Boeing e UFC acabaram patrocinando as duas iniciativas, enquanto outras preferiram escolher apenas um dos lados. A polarização atingiu ainda a programação cultural. A Freedom 250 anunciou inicialmente uma série de shows com artistas como Martina McBride, Young MC, Milli Vanilli e Bret Michaels, mas quase todos desistiram poucos dias depois. Alguns afirmaram ter sido pegos de surpresa pelo caráter político das apresentações. Com as baixas, parte dos concertos foi cancelada e a programação acabou reformulada, passando a reunir artistas e personalidades mais alinhados ao universo conservador e ao governo Trump, como o cantor country Lee Greenwood, o tenor Christopher Macchio e a artista Alexis Wilkins, namorada do diretor do FBI, Kash Patel. Polarização se aprofunda As comemorações nacionais funcionam como um termômetro para avaliar o estado de uma nação, segundo o professor associado de Relações Internacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Oliver Stunkel. Ele explica que esses eventos acabam sendo "um espelho do presidente" e da narrativa dominante sobre o passado, o presente e o futuro do país, revelando muito sobre o cenário político atual. Como exemplo prático dessa dinâmica, Stunkel aponta para a profunda polarização política observada nos Estados Unidos: “As pesquisas de opinião mostram que cerca de 90% do eleitorado republicano diz sentir orgulho de ser americano. Entre os eleitores democratas, esse percentual é de aproximadamente 45%. Obviamente, o cenário provavelmente seria diferente se o país tivesse um presidente ou uma presidente do Partido Democrata. Isso mostra o grau de polarização vivido hoje pelos Estados Unidos”. A contestação da narrativa histórica oficial dos Estados Unidos não é um fenômeno recente, segundo o professor. Ele lembra que, já no período pós-Guerra Civil, houve no Sul do país um esforço para idealizar a memória dos confederados, em alguns casos com a tentativa de apresentar a escravidão como uma instituição supostamente benigna. Ele avalia que iniciativas como a Freedom 250 não se limitam à organização de eventos, mas expressam uma leitura específica do passado. “Esse projeto é totalmente uma interpretação da história alinhada ao trumpismo e utilizada como instrumento político”, afirma. O professor também destaca que a divisão ultrapassa o campo institucional e atinge a percepção da sociedade. Para ele, os Estados Unidos vivem hoje um cenário de profunda divisão, com divergências sobre o passado, o presente e o futuro. Estados tentam uma comemoração mais ampla Enquanto Washington concentrava a disputa política, estados de diferentes regiões seguiram um caminho próprio. Muitos preparavam suas comemorações havia anos, frequentemente com equipes reduzidas e orçamentos limitados. Em vez de concentrar as celebrações apenas na Revolução Americana, os governos locais decidiram destacar a contribuição de suas comunidades para a construção dos Estados Unidos. O desafio foi maior para estados que não integravam as 13 colônias originais - que fundaram os EUA. Em locais como Arizona, Dakota do Sul, Kansas, Utah e Oregon, e seus museus e instituições históricas passaram a relacionar os ideais de 1776 a temas como expansão territorial, povos indígenas, escravidão, imigração, direitos civis e a diversidade na sociedade. No Colorado, por exemplo, a exposição "Moments That Made Us" (momentos que nos constituem), reúne 50 acontecimentos considerados decisivos para a história americana e procura apresentar diferentes interpretações sobre cada episódio, incluindo a guerra com o México e os movimentos por direitos civis. A mostra foi adaptada para escolas e museus e já chegou a mais de 600 locais distribuídos por pelo menos 36 estados. Outras iniciativas destacaram histórias regionais. O Arizona criou uma exposição itinerante sobre sua formação; Washington e Oregon abordaram a perseguição a imigrantes chineses e o internamento de nipo-americanos durante a Segunda Guerra Mundial; o Kansas incluiu a criação da primeira bandeira do orgulho LGBTQIA+; e Utah passou a utilizar a expressão "história completa" para tratar da diversidade de experiências que formaram o estado. Mesmo longe de Washington, a polarização continuou presente. Organizadores relataram críticas tanto de conservadores, que rejeitam interpretações consideradas excessivamente críticas da história americana, quanto de pessoas que questionam a própria ideia de celebrar o país diante de injustiças históricas.