Estudo rastreou 105 salmões jovens do Atlântico em lago na Suécia e revelou que poluição por cocaína mudou como os peixes se movem pelo ambiente. Jörgen Wiklund A cocaína já foi encontrada em rios e mares no Brasil, na Europa e nos Estados Unidos. Agora, um estudo internacional mostra que esse tipo de poluição não só está presente na água — como já está mudando o comportamento de animais na natureza. Pela primeira vez em condições reais, cientistas acompanharam salmões em um lago na Suécia e observaram que peixes expostos à droga passaram a nadar mais e se espalhar por áreas maiores. O trabalho foi publicado na revista científica "Current Biology". 📱Baixe o app do g1 para ver notícias em tempo real e de graça A pesquisa monitorou 105 salmões jovens durante oito semanas. Parte deles foi exposta à cocaína, outra a uma substância formada quando o corpo humano quebra a droga — a benzoylecgonina — e um terceiro grupo não recebeu nenhuma exposição. Os resultados indicam que os peixes expostos ao derivado da cocaína nadaram até 1,9 vez mais por semana — o equivalente a cerca de 90% a mais — e chegaram a se dispersar até 12,3 quilômetros além dos demais Na prática, isso significa que esses animais passam a circular mais pelo ambiente, o que pode mudar desde a forma como se alimentam até o risco de serem predados. “Para onde os peixes vão determina o que eles comem, quem os come e como as populações são estruturadas”, explicou o pesquisador Marcus Michelangeli, um dos autores do estudo. “Se a poluição está mudando esses padrões, ela pode afetar os ecossistemas de formas que ainda estamos começando a entender.” Salmões jovens expostos à cocaína e a seu principal resíduo nadaram distâncias significativamente maiores do que o normal, revelou pesquisa inédita. Roger Tabor/USFWS Outro ponto que chamou atenção dos pesquisadores foi que o efeito mais forte não veio da cocaína em si, mas da benzoylecgonina, substância comum no esgoto e frequentemente encontrada em rios. Os peixes expostos a esse composto foram os que mais nadaram e se afastaram do ponto inicial. E isso acende um alerta para a forma como o risco ambiental é avaliado. Hoje, muitos estudos focam na droga original, mas deixam de lado substâncias derivadas que continuam ativas no ambiente — e, como mostra o trabalho, podem ter impacto ainda maior. A presença de cocaína na água não está ligada a descarte direto, mas ao consumo humano. Depois de ingerida, a droga é parcialmente eliminada pelo corpo e segue para o sistema de esgoto. Como as estações de tratamento nem sempre conseguem remover completamente esses compostos, eles acabam chegando a rios e lagos. Os pesquisadores destacam, contudo, que não há evidência de risco para quem consome peixe. As concentrações analisadas refletem níveis já encontrados em ambientes poluídos, e os animais estudados ainda eram jovens, abaixo do tamanho permitido para pesca. Ainda assim, os impactos de longo prazo permanecem incertos. Os cientistas querem entender se o aumento na atividade pode fazer os peixes gastarem mais energia, se ficam mais expostos a predadores ou se isso afeta a reprodução. Por enquanto, a principal conclusão é que substâncias associadas ao dia a dia humano já estão interferindo no comportamento da vida selvagem, muitas vezes de forma invisível, mas potencialmente relevante para o equilíbrio dos ecossistemas. LEIA TAMBÉM: Drama de baleia encalhada há semanas na Alemanha mobiliza protestos e levanta dilema sobre resgate; entenda Estrutura geológica gigante no deserto do Saara parece um 'olho' visto do espaço; veja IMAGEM 'O que aprendi ao viver um ano sozinho com um gato em uma ilha remota' Papagaio 'brigão' com deficiência vira líder de seu grupo com técnica inédita
Salmões expostos à cocaína nadam até 90% mais que o normal, aponta estudo inédito
Piemonte Escrito em 21/04/2026
Estudo rastreou 105 salmões jovens do Atlântico em lago na Suécia e revelou que poluição por cocaína mudou como os peixes se movem pelo ambiente. Jörgen Wiklund A cocaína já foi encontrada em rios e mares no Brasil, na Europa e nos Estados Unidos. Agora, um estudo internacional mostra que esse tipo de poluição não só está presente na água — como já está mudando o comportamento de animais na natureza. Pela primeira vez em condições reais, cientistas acompanharam salmões em um lago na Suécia e observaram que peixes expostos à droga passaram a nadar mais e se espalhar por áreas maiores. O trabalho foi publicado na revista científica "Current Biology". 📱Baixe o app do g1 para ver notícias em tempo real e de graça A pesquisa monitorou 105 salmões jovens durante oito semanas. Parte deles foi exposta à cocaína, outra a uma substância formada quando o corpo humano quebra a droga — a benzoylecgonina — e um terceiro grupo não recebeu nenhuma exposição. Os resultados indicam que os peixes expostos ao derivado da cocaína nadaram até 1,9 vez mais por semana — o equivalente a cerca de 90% a mais — e chegaram a se dispersar até 12,3 quilômetros além dos demais Na prática, isso significa que esses animais passam a circular mais pelo ambiente, o que pode mudar desde a forma como se alimentam até o risco de serem predados. “Para onde os peixes vão determina o que eles comem, quem os come e como as populações são estruturadas”, explicou o pesquisador Marcus Michelangeli, um dos autores do estudo. “Se a poluição está mudando esses padrões, ela pode afetar os ecossistemas de formas que ainda estamos começando a entender.” Salmões jovens expostos à cocaína e a seu principal resíduo nadaram distâncias significativamente maiores do que o normal, revelou pesquisa inédita. Roger Tabor/USFWS Outro ponto que chamou atenção dos pesquisadores foi que o efeito mais forte não veio da cocaína em si, mas da benzoylecgonina, substância comum no esgoto e frequentemente encontrada em rios. Os peixes expostos a esse composto foram os que mais nadaram e se afastaram do ponto inicial. E isso acende um alerta para a forma como o risco ambiental é avaliado. Hoje, muitos estudos focam na droga original, mas deixam de lado substâncias derivadas que continuam ativas no ambiente — e, como mostra o trabalho, podem ter impacto ainda maior. A presença de cocaína na água não está ligada a descarte direto, mas ao consumo humano. Depois de ingerida, a droga é parcialmente eliminada pelo corpo e segue para o sistema de esgoto. Como as estações de tratamento nem sempre conseguem remover completamente esses compostos, eles acabam chegando a rios e lagos. Os pesquisadores destacam, contudo, que não há evidência de risco para quem consome peixe. As concentrações analisadas refletem níveis já encontrados em ambientes poluídos, e os animais estudados ainda eram jovens, abaixo do tamanho permitido para pesca. Ainda assim, os impactos de longo prazo permanecem incertos. Os cientistas querem entender se o aumento na atividade pode fazer os peixes gastarem mais energia, se ficam mais expostos a predadores ou se isso afeta a reprodução. Por enquanto, a principal conclusão é que substâncias associadas ao dia a dia humano já estão interferindo no comportamento da vida selvagem, muitas vezes de forma invisível, mas potencialmente relevante para o equilíbrio dos ecossistemas. LEIA TAMBÉM: Drama de baleia encalhada há semanas na Alemanha mobiliza protestos e levanta dilema sobre resgate; entenda Estrutura geológica gigante no deserto do Saara parece um 'olho' visto do espaço; veja IMAGEM 'O que aprendi ao viver um ano sozinho com um gato em uma ilha remota' Papagaio 'brigão' com deficiência vira líder de seu grupo com técnica inédita
