Óleo derramado no Nordeste em 2019 viajou mais de 8 mil quilômetros e chegou à Flórida, diz pesquisa

Piemonte Escrito em 31/01/2026


Óleo derramado no Brasil em 2019 viajou mais de 8 mil km e chegou à Flórida, diz pesquisa Em agosto de 2019, as primeiras manchas de óleo começaram a surgir no litoral do Nordeste do Brasil. Até novembro daquele ano, o óleo apareceu em mais de 700 pontos do Nordeste e Sudeste. Agora, uma pesquisa da Universidade Federal do Ceará (UFC) revelou que o mesmo óleo chegou, em maio de 2020, até a costa da Flórida, nos Estados Unidos, a mais de 8 mil quilômetros do litoral brasileiro. De acordo com o estudo, o óleo que apareceu no litoral do Brasil conseguiu atravessar toda a distância pelo Mar do Caribe até os Estados Unidos, em uma viagem de mais de 200 dias, após aderir ao lixo marítimo, sobretudo garrafas de plástico ou de vidro. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 Ceará no WhatsApp O estudo foi uma colaboração de pesquisadores do Instituto de Ciências do Mar (Labomar) da UFC e pesquisadores de diversas instituições de ensino superior dos Estados Unidos. O resultado foi publicado em janeiro deste ano na revista científica Environmental Science & Technology. A investigação começou após uma organização voluntária de proteção ambiental identificar a chegada constante, ao longo de meses, do lixo marítimo coberto pelo óleo escuro. Mais tarde, o óleo foi comparado com aquele encontrado no Nordeste em 2019, e verificou-se que era o mesmo. A descoberta dos cientistas chama atenção para a resistência do óleo: geralmente, devido a fatores naturais, esse tipo de substância não viaja mais de 300 quilômetros no mar após o vazamento da sua fonte original. Desta vez, no entanto, ela foi encontrada a cerca de 8.500 quilômetros de distância da origem. Garrafas encontradas no litoral dos EUA estavam contaminadas com óleo encontrado no Nordeste do Brasil. Divulgação/Labomar Para a equipe de pesquisa, a descoberta lança um novo alerta para a importância de colaboração entre países para combater o descarte de lixo nos oceanos, uma vez que um problema que parece local pode chegar ao outro lado do mundo. Vazamento de óleo e movimentação As manchas de óleo que contaminam o litoral brasileiro começaram a aparecer em agosto de 2019 e foram avistadas mais frequentemente até novembro daquele ano, embora pequenas quantidades tenham sido encontradas até março de 2020. Mais de 720 localidades foram atingidas, do Maranhão do Ri de Janeiro, conforme dados do Ibama. Em 2021, a Polícia Federal concluiu a investigação afirmando que o principal suspeito da contaminação era um navio de bandeira grega que tinha saído da Venezuela com petróleo cru venezuelano. A empresa operadora do navio nega as acusações e diz ter provas de que o navio não está envolvido. O caso segue na Justiça brasileira. Ninguém foi condenado até o momento. Para além de causar danos ao mar e à faixa de praia brasileiros, após ser derramado na costa do Nordeste, o óleo aderiu a garrafas e outros itens despejados nas águas e acabou sendo arrastado pelas correntes marítimas que levam do sul para o norte. Em um período de cerca de 240 dias - entre os primeiros avistamentos no Brasil e os primeiros avistamentos nos EUA - o material percorreu aproximadamente 8.500 quilômetros e chegou à costa da Flórida, o estado mais ao sul dos Estados Unidos. De acordo com o artigo científico, o lixo coberto de óleo foi encontrado primariamente na costa de Palm Beach, a cerca de 120 quilômetros de Miami, entre os meses de maio e setembro de 2020. Em sua maioria, garrafas de vidro e plástico com tampa, parcialmente ou totalmente cobertas pelo óleo. Exemplares das garrafas contaminadas com óleo encontradas em Palm Beach, na Flórida (EUA). Divulgação/Labomar A presença foi detectada pela organização voluntária Friends of Palm Beach (FOPB), dedicada à limpeza do litoral da cidade. O grupo procurou universidades locais para relatar o achado, e os americanos, que mantêm projetos de cooperação com professores do Instituto de Ciências do Mar (Labomar) da UFC, buscaram os brasileiros para testar a hipótese de se tratar do mesmo óleo encontrado no Nordeste do Brasil. “Nós temos o perfil químico de todos os óleos que chegaram desde 2019 até 2025 na costa do Ceará. Então, o óleo [do Ceará] batia, tinha o mesmo perfil químico, a mesma impressão digital, o termo correto é esse, a fingerprint, do óleo com o óleo que estava nas garrafas [na Flórida]”, explicou o professor Rivelino Cavalcante, do Labomar, um dos brasileiros que assinam o artigo. Modelos matemáticos de pesquisa apontam que, para perfazer o trajeto, o material passou pelo litoral das Guianas e da Venezuela, foi levado pelo mar do Caribe e pelo Golfo do México e, por fim, aportou na cidade de Palm Beach, uma trajetória que, segundos os pesquisadores, confirma a recorrência de correntes marítimas do sul do continente para o norte. Veja no mapa: Possível trajetória do lixo marinho contaminado por óleo que chegou à costa dos EUA a partir do Brasil Divulgação/Labomar Gerenciamento de resíduos Uma das surpresas dos pesquisadores com a descoberta foi justamente a distância que o óleo alcançou sem se degradar. Geralmente, manchas de óleo não vão mais longe que 300 quilômetros do local de origem - de onde vazou - devido aos efeitos combinados das intempéries do mar, da dispersão pelas ondas e, por fim, da própria degradação. O diferencial deste caso está no lixo marítimo. Em algum momento, o óleo vazado na costa brasileira acabou por encontrar o lixo do continente despejado no mar. Após encontrar a substância, o óleo aderiu às superfícies plásticas ou de vidro, que também são conhecidas pela capacidade de flutuar. A união deu uma sobrevida ao óleo, que conseguiu fazer toda a viagem do Nordeste, atravessando o Caribe e chegando aos Estados Unidos. "Quando ele [óleo] fica aderido a alguma superfície, ele cria uma certa resistência, o processo de degradação vai ser mais lento", afirma Rivelino. Um dos fatores que levou os americanos a contatar os colegas brasileiras foi justamente que muitas das garrafas encontradas na costa da Flórida possuíam rótulos em português, no que se verificou que não vinham de países próximo. Além das garrafas de lixo cobertas com óleo, a FOPB também encontrou diversos fardos de borracha na região. Os fardos são os mesmos que apareceram no litoral nordestino em 2018. A suspeita é que o material seja de um navio afundado na Segunda Guerra Mundial que transportava borracha e que, em 2018, foi saqueado em alto-mar, o que levou ao vazamento da carga presa até então. Fardo de borracha encontrado na Flórida era da mesma carga de fardos encontrados no Nordeste em 2018. Divulgação/Labomar Para o professor Rivelino Cavalcante, a combinação dos dois casos, do óleo e dos fardos de borracha, são um alerta sobre o problema de gerenciamento de resíduos sólidos - e como isso tanto um problema local quanto global. “Nós temos uma dificuldade muito grande de gerenciar o nosso resíduo sólido. Então, no começo das chuvas, normalmente, você vê muito lixo saindo pelos rios, pelo Cocó, pelo [rio Ceará, pelo rio Jaguaribe lá na frente. E o que foi que aconteceu? Provavelmente, essas garrafas se juntaram a esse óleo. O óleo também flutua, ou vem quase na superfície [...]. E aí as garrafas, na forma de lixo flutuante, seguiram as correntes. E aí foi para lá na Flórida”, detalha o pesquisador. Para o cientista, o problema do lixo dos oceanos só pode ser resolvido por meio de uma solução que envolva a cooperação entre países. "O cenário é que não adianta você mesmo sendo um país muito desenvolvido, sendo um país que tem todos os cuidados com o gerenciamento de resíduos sólidos, você não vai estar protegido [...]. Então, o problema do lixo nos oceanos, ele não é peculiar de cada país costeiro, ele é um problema do mundo todo", afirma. Lixo encontrado no Ceará veio da África Em 2024, uma pesquisa da UFC também revelou que 78% do lixo plástico encontrado nas areias das praias cearenses tem origem em países africanos. O dado foi obtido pelo projeto Detetive Plástico, do Labomar. Tampinhas e garrafas de plástico encontradas em praias do Ceará têm logos de empresas que não funcionam no Brasil. Leonardo Igor/g1 De acordo com o projeto, esse lixo plástico encontrado nas areias vem de países como Costa do Marfim, África do Sul, Camarões, Angola, Nigéria e Gana. Há também registro de lixo de países como Alemanha e China. O estudo apontou que a maior parte vem da República Democrática do Congo por meio Rio Congo, um dos dez maiores do mundo. No caminho até sua foz, na fronteira da RDC com a Angola, o rio acaba sendo destino de boa parte dos despejos de lixo plástico do país. O destino final das águas do rio Congo - e o lixo trazido com elas - é justamente o Oceano Atlântico. Conforme a pesquisa revelou, o lixo chegou até a costa cearense trazido pelas correntes marítimas do oceano Atlântico. O trajeto dos plásticos do continente africano até o litoral do estado leva entre 6 e 11 meses. Assista aos vídeos mais vistos do Ceará l