Por que Belém sente tremores de terra? Especialista explica fenômeno e relembra episódios históricos

Piemonte Escrito em 28/06/2026


Moradores relatam tremores em bairros de Belém durante jogo do Brasil O tremor sentido por moradores de Belém enquanto muitos acompanhavam o último jogo da Seleção Brasileira, voltou a levantar uma pergunta recorrente: por que a capital paraense sente terremotos se está longe das regiões mais sísmicas do planeta? 🔍 O solo da capital pode ter contribuído para que os moradores sentissem vibrações, principalmente em andares mais altos dos prédios (veja mais abaixo). Os tremores em Belém foram provocados por um terremoto de grande magnitude registrado na Venezuela na noite de quarta-feira (24) e também percebido em outros estados da Região Norte. No Pará, além de Belém, moradores de Anajás, no arquipélago do Marajó, e de Santarém relataram os reflexos das ondas sísmicas. Em Anajás, uma câmera de segurança registrou o momento em que a água de uma piscina começou a oscilar enquanto uma família assistia à partida da Seleção. Segundo os moradores, não havia vento forte no momento. Em Belém, dez edifícios também foram evacuados temporariamente por precaução. A Defesa Civil vistoriou todos eles e os moradores voltaram aos seus apartamentos. Uma nova vistoria deve ser feita em duas semanas. Segundo o professor Saulo Siqueira Martins, do Instituto de Geociências da Universidade Federal do Pará (UFPA), Belém praticamente não registra terremotos com epicentro próximo à cidade. "O que aconteceu agora é mais um episódio provocado por um terremoto distante, neste caso, na Venezuela. Belém não tem registro de terremotos com epicentro próximo. Os episódios sentidos aqui são, na grande maioria, ondas sísmicas vindas de grandes terremotos da Cordilheira dos Andes e da região do Caribe." ✅ Clique e siga o canal do g1 PA no WhatsApp Mesmo viajando milhares de quilômetros, essas ondas ainda chegam com energia suficiente para provocar pequenas oscilações. "O solo de Belém é sedimentar, e esse tipo de terreno amplifica determinadas vibrações. Além disso, os prédios altos oscilam de uma forma que combina com as ondas longas produzidas por grandes terremotos distantes. Por isso, quem está nos andares mais altos costuma sentir o tremor, enquanto prédios baixos ao lado muitas vezes não registram nenhum efeito." O pesquisador explica que Belém está localizada no interior da Placa Sul-Americana, distante das bordas tectônicas onde ocorrem os grandes terremotos. As ondas sísmicas que chegam à capital são geradas principalmente em duas regiões: na Cordilheira dos Andes, onde a Placa de Nazca mergulha sob a Placa Sul-Americana, e no sistema de falhas do Caribe, responsável pelos terremotos registrados na Venezuela e nas Antilhas. LEIA TAMBÉM: Famílias relatam medo e correria durante tremores sentidos em Belém; 'extremo desespero' VÍDEO: morador estranha movimentação da água em piscina de casa no Marajó Por que países vizinhos sofrem tanto com grandes terremotos, mas Brasil é poupado? Tremores já foram sentidos outras vezes em Belém Embora o episódio desta semana tenha chamado atenção, ele não é inédito. O caso mais antigo bem documentado ocorreu em 12 de janeiro de 1970, justamente no aniversário de Belém. Na ocasião, moradores do centro da cidade relataram portas e janelas tremendo, enquanto o Edifício Manoel Pinto da Silva — então o prédio mais alto da Amazônia — apresentou oscilações perceptíveis. Segundo o professor, não houve rachaduras nem danos estruturais. Ele também faz um alerta sobre uma confusão histórica. "Muita gente associa esse episódio ao grande terremoto de Ancash, no Peru. Mas o terremoto peruano aconteceu apenas em 31 de maio de 1970, quase cinco meses depois. Não existe relação entre os dois eventos." Outro episódio marcante ocorreu em agosto de 2018, quando um terremoto de magnitude 7,3 na Venezuela também foi sentido em Belém. Na ocasião, moradores de edifícios altos deixaram seus apartamentos após perceberem o balanço das estruturas. O tremor registrado nesta semana repete esse padrão: um terremoto distante gerou ondas sísmicas que percorreram milhares de quilômetros até serem percebidas na capital paraense. E os outros tremores registrados no Pará? Além dos reflexos de terremotos ocorridos em outros países, o Pará também registra pequenos tremores com epicentro no próprio estado. Há poucos dias, inclusive, uma reunião sobre isso foi realizada em Tucuruí por causa da segurança da usina hidrelétrica na cidade. Segundo o professor Saulo Martins, esses eventos são resultado de reajustes naturais na crosta terrestre, associados à reativação de antigas falhas geológicas existentes no interior da Placa Sul-Americana. Nos últimos anos, houve registros desse tipo em municípios como Breves, Baião, Canaã dos Carajás e, mais recentemente, Tucuruí. Em geral, são tremores de baixa magnitude, que raramente são percebidos pela população. Instituições discutem tremores de terra e reforçam segurança da usina de Tucuruí. Divulgação Há motivo para preocupação? Para o especialista, não. "Não há qualquer indicação de aumento da atividade sísmica em Belém. O tremor desta semana foi apenas um efeito remoto de um terremoto ocorrido na Venezuela, exatamente como aconteceu em 2018." O professor também destaca que o fato de um edifício oscilar não significa, por si só, que exista comprometimento estrutural. "Prédios bem projetados são construídos justamente para absorver esse tipo de movimento." O monitoramento sísmico no Brasil é realizado continuamente pela Rede Sismográfica Brasileira, coordenada pelo Centro de Sismologia da Universidade de São Paulo (USP) e pelo Observatório Sismológico da Universidade de Brasília (UnB), instituições responsáveis pelo acompanhamento oficial da atividade sísmica no país. Tremor atinge a Venezuela e é sentido no Norte do Brasil Kayan Albertin/g1 VÍDEOS: veja todas as notícias do Pará Confira outras notícias do estado no g1 PA