ANTES e DEPOIS: veja as fotos originais e as imagens geradas por IA de apreensões divulgadas com erros pela polícia do ES

Piemonte Escrito em 25/09/2026


À esquerda, a imagem original disponibilizada pela Sesp. À direita, a imagem modificada por IA e divulgada pelas corporações aos veículos de imprensa. Arte/g1 Imagens de apreensões geradas por ferramentas de inteligência artificial (IA) e divulgadas pelas polícias Civil e Militar do Espírito Santo apresentam diferenças de iluminação, ângulo, distorções e erros nos materiais apreendidos. A partir das fotografias originais, as quais o g1 teve acesso, também foram identificadas distorções em cédulas, munições, armas e entorpecentes. Os arquivos originais foram disponibilizados pela Secretaria de Estado da Segurança Pública e Defesa Social (Sesp) nesta quarta-feira (23), que admitiu os erros após um levantamento exclusivo do g1 — que analisou os materiais distribuídos pelas assessorias das corporações a veículos de imprensa durante o mês de agosto e revelou que as imagens divulgadas não são fotografias documentais autênticas. 📲 Clique aqui para seguir o canal do g1 ES no WhatsApp Por nota, a secretaria confirmou o uso de ferramentas de IA para a edição de imagens de apreensões e declarou reconhecer que o uso foi "inadequado". Disse, ainda, que determinou uma apuração interna para identificar se há outros casos similares (veja a nota na íntegra ao final da reportagem). Veja o ANTES e DEPOIS das imagens geradas por IA (Basta arrastar a seta para o lado e para o outro e comparar as imagens) À esquerda, a imagem original disponibilizada pela Sesp. À direita, a imagem modificada por IA e divulgada pelas corporações aos veículos de imprensa. Initial plugin text A imagem gerada por IA foi divulgada pela Polícia Militar como registro de uma ação no Morro da Floresta, em Vitória. Segundo o comunicado oficial da corporação, foram apreendidas 66 porções de haxixe, 60 pinos de crack, 56 pinos de cocaína, 22 buchas de maconha, nove unidades de ice, seis porções de skunk, três frascos de lança-perfume e R$ 60 em espécie. Na comparação com a fotografia original, as alterações feitas por IA vão além dos materiais apreendidos. Os policiais que aparecem nas laterais da foto original, segurando a bandeira da 6ª Companhia, foram completamente removidos na versão divulgada pela corporação. A IA também modificou as cédulas de R$ 5, que passaram a apresentar algarismos e elementos gráficos deformados, diferentes do padrão das notas verdadeiras. Há ainda mudanças na aparência e na disposição de objetos sobre a mesa. À esquerda, a imagem original disponibilizada pela Sesp. À direita, a imagem modificada por IA e divulgada pelas corporações aos veículos de imprensa. Initial plugin text A imagem foi divulgada pela corporação em 12 de agosto. Segundo a Polícia Militar, foram apreendidos um carregador com 12 munições calibre 9mm intactas, uma pistola calibre 9mm contendo 11 munições calibre 9mm, uma bolsa com R$ 2.438,75 em espécie, quatro aparelhos celulares e 27 munições calibre 38. A ação ocorreu na região de Nova Rosa da Penha, em Cariacica, na Grande Vitória. Na versão modificada por IA, o cenário original da apreensão foi completamente alterado. A fotografia verdadeira mostra os materiais sobre uma mesa em uma sala, com cadeiras e outros móveis visíveis ao fundo. Já na imagem divulgada, esse ambiente desaparece e foi substituído por um fundo preto com o brasão do Batalhão de Missões Especiais (BME). LEIA TAMBÉM: Polícia do ES aumenta quantidade de munição e altera modelo de celular apreendido em imagens geradas por IA; veja comparações Secretaria de Segurança do ES admite erro em fotos de apreensões geradas por IA e determina apuração interna; veja FOTOS Também foi inserido um objeto azul com a identificação da Polícia Militar, que não aparece no registro original. A disposição dos materiais é reorganizada, e há mudanças na aparência de objetos como a arma, as munições, as cédulas, moedas e celulares. Apesar de manter os principais itens da fotografia original, a versão gerada por IA criou uma nova composição para a cena. À esquerda, a imagem original disponibilizada pela Sesp. À direita, a imagem modificada por IA e divulgada pelas corporações aos veículos de imprensa. Initial plugin text A imagem gerada por IA foi divulgada pela Polícia Militar como registro de uma apreensão realizada no dia 15 de agosto, no bairro Bonfim, em Vitória. Segundo a corporação, foram apreendidas 47 unidades de skunk, três unidades de pac, uma pistola calibre 9 mm, um carregador alongado e materiais utilizados para embalar entorpecentes. Na versão modificada, o ambiente em que os materiais foram fotografados também foi substituído. A imagem original mostra a apreensão sobre uma mesa clara, dentro de uma sala, com objetos do ambiente ao fundo. Na versão alterada, a mesa ganha aparência de madeira escura e o fundo é substituído por uma bandeira preta com o símbolo da 6ª Companhia e a frase “Nem tudo é para todos”. A arma, as munições, o carregador, as embalagens e os sacos plásticos permanecem na composição, mas têm a aparência e a disposição modificadas. As pequenas embalagens, por exemplo, passam a apresentar conteúdos visualmente diferentes dos registrados na fotografia original, enquanto o número de munições aumentou. A iluminação de toda a cena também é alterada, deixando o registro mais escuro. À esquerda, a imagem original disponibilizada pela Sesp. À direita, a imagem modificada por IA e divulgada pelas corporações aos veículos de imprensa. Initial plugin text A imagem foi divulgada pela Polícia Militar em 21 de agosto como um registro de uma operação no bairro Forte São João, em Vitória. Segundo a corporação, foram apreendidos cocaína, crack, maconha, PAC e skunk, dinheiro e rádios comunicadores. Na versão modificada por IA, o fundo da fotografia original foi substituído por uma grande bandeira da Patrulha de Morro, com a identificação “PMES - 1º BPM/1ª CIA”. No registro original, atrás da apreensão há apenas uma parede clara, onde aparece uma pequena placa com a frase “Mantenha o silêncio neste local”. A placa desaparece na versão alterada. Os materiais apreendidos — entre eles dinheiro, celulares, rádios comunicadores e porções de drogas — permanecem em posições semelhantes, mas há alterações na aparência e nos detalhes de alguns objetos. As cédulas, por exemplo, apresentam mudanças em cores, números e elementos gráficos na imagem modificada. À esquerda, a imagem original disponibilizada pela Sesp. À direita, a imagem modificada por IA e divulgada pelas corporações aos veículos de imprensa. Initial plugin text A imagem foi divulgada pela Polícia Civil no dia 19 de agosto como registro de uma operação em Ecoporanga que apreendeu mais de 15 kg de drogas, um revólver calibre .38, munições, dinheiro e materiais utilizados para preparar e embalar entorpecentes. Na versão modificada por IA, os materiais apreendidos permanecem praticamente na mesma disposição da fotografia original, mas o ambiente ao fundo é alterado. A parede em dois tons, visível no registro original, é substituída por um fundo preto uniforme. A placa com a inscrição “Polícia Militar” é mantida, assim como as identificações da Polícia Civil e do GAO sobre a mesa. Também são perceptíveis alterações nos detalhes e nas texturas de diferentes objetos, como embalagens, munições, drogas e correntes, além de mudanças na iluminação e no contraste da cena. À esquerda, a imagem original disponibilizada pela Sesp. À direita, a imagem modificada por IA e divulgada pelas corporações aos veículos de imprensa. Initial plugin text A imagem foi divulgada pela Polícia Militar no dia 25 de agosto como registro de apreensões realizadas em quatro bairros de Vitória. Segundo a corporação, foram apreendidas drogas, dinheiro e peças e componentes relacionados a armas de fogo. Na versão modificada por IA, a parede clara que aparece atrás dos materiais na fotografia original é substituída por uma grande bandeira preta com o símbolo da 6ª Companhia e a frase “Nem tudo é para todos”. A perspectiva da imagem também é alterada: o registro original foi feito de cima, enquanto a versão modificada apresenta a apreensão em um ângulo mais frontal. Os materiais, incluindo drogas, dinheiro e moedas, permanecem organizados de forma semelhante, mas apresentam mudanças de textura, formato e detalhes. As cédulas também têm elementos gráficos modificados na versão gerada por IA. À esquerda, a imagem original disponibilizada pela Sesp. À direita, a imagem modificada por IA e divulgada pelas corporações aos veículos de imprensa. Initial plugin text A imagem foi divulgada pela Polícia Militar no dia 17 de agosto como registro da apreensão de um adolescente de 16 anos no bairro Romão, em Vitória. Segundo a corporação, foram encontrados um radiocomunicador, R$ 136 em espécie e porções de maconha, crack, cocaína, haxixe e skunk. Na versão modificada por IA, o enquadramento da fotografia é ampliado e passa a mostrar uma bandeira da Patrulha de Morro, com a identificação “PMES - 1º BPM/1ª CIA”, atrás dos materiais apreendidos. No registro original, essa área da parede não aparece no enquadramento, que mostra apenas a placa “Mantenha o silêncio neste local”. A balança, que aparece parcialmente cortada à direita na fotografia original, também passa a ser exibida por inteiro. Os materiais sobre a mesa permanecem em posições semelhantes, mas há alterações de aparência e detalhes em cédulas, embalagens e pinos. Polícia do ES divulga fotos de apreensões modificadas por IA com erros Alteração pode gerar questionamentos, diz especialista Segundo o advogado criminalista Israel Domingos Jorio, a inclusão de itens que não foram efetivamente apreendidos pode trazer consequências práticas e gerar questionamentos sobre a fidelidade dos registros policiais. “A polícia pode ser instada a prestar contas sobre materiais que jamais foram apreendidos, mas que constavam nas fotos”, explicou. Ainda de acordo com o especialista, a divergência também pode ser usada para questionar a confiabilidade de outros registros relacionados à apreensão. Ele ressaltou, no entanto, que a alteração da fotografia não configura crime de forma automática. Segundo ele, uma eventual responsabilização criminal dependeria das circunstâncias do caso e, entre outros elementos, da comprovação de que houve intenção de inserir informações falsas para tornar mais grave uma acusação. “Se ficasse caracterizado que a foto foi intencionalmente modificada para aumentar a gravidade do fato apurado — por exemplo, se colocassem uma quantidade maior de droga, mais armas ou armas de calibre proibido — aí a gente poderia trabalhar com a ideia de que estão trazendo para o processo uma informação falsa que pode gerar uma responsabilidade penal mais severa.” Não há, até o momento, indicação de que as seis munições tenham sido acrescentadas e que o modelo de celular tenha sido alterado intencionalmente à imagem com o objetivo de agravar uma acusação. Por nota, a Sesp reconheceu os erros e informou que determinou uma apuração interna para identificar se mais imagens foram modificadas. A secretaria destacou ainda que "já orientou as áreas responsáveis para que recursos de inteligência artificial generativa não sejam utilizados em fotografias destinadas à divulgação de materiais apreendidos, de forma a garantir a fidelidade dos registros apresentados à sociedade" (veja a nota na íntegra ao final da reportagem). Para o cientista político Alexandre Rocha, as divergências entre os registros originais e as imagens modificadas impactam na confiabilidade das instituições. “Embora tenham as imagens reais, gera uma falta de credibilidade. Não é que não seja permitido usar a IA para apresentar melhor os resultados, mas é preciso ter o mínimo de razoabilidade e de credibilidade para a transparência e prestação de contas para a sociedade”. Secretaria de Segurança se manifesta O g1 questionou se a Secretaria de Estado da Segurança Pública e Defesa Social (Sesp), a Polícia Militar e a Polícia Civil utilizam ou já utilizaram ferramentas de IA para editar, tratar, aprimorar ou alterar fotografias de materiais apreendidos antes do envio à imprensa. Além disso, perguntou se existe algum protocolo, norma ou orientação interna que estabeleça quais alterações podem ser feitas antes da alteração e se as imagens divulgadas com distorções também integram inquéritos, boletins de ocorrência, procedimentos investigativos ou outros documentos oficiais. O g1 também questionou se as corporações mantém arquivadas as fotografias originais e se os órgãos pretendem realizar algum tipo de apuração interna para verificar como esses arquivos foram produzidos e divulgados. Por nota, a Sesp confirmou o uso das ferramentas nas imagens citadas e disse reconhecer que o encaminhamento foi "inadequado". A pasta declarou, ainda, que orientou as áreas responsáveis e que atua na identificação de possíveis novos casos. Veja a nota na íntegra: "A Secretaria de Estado da Segurança Pública e Defesa Social (Sesp) informa que identificou o uso de recursos de inteligência artificial na edição de algumas imagens de materiais apreendidos encaminhadas à imprensa. As imagens citadas, especificamente, foram enviadas exclusivamente para fins de divulgação e não integram os registros oficiais das ocorrências ou investigações. A Sesp reconhece que o encaminhamento foi inadequado e informa que já orientou as áreas responsáveis para que recursos de inteligência artificial generativa não sejam utilizados em fotografias destinadas à divulgação de materiais apreendidos, de forma a garantir a fidelidade dos registros apresentados à sociedade. Cabe destacar que a tecnologia de Inteligência Artificial é algo recente, com muitas potencialidades, mas seu uso deve obedecer o que preconiza a lei e as boas práticas, limitando-se à preservação da intimidade, da vida privada e de dados sigilosos. A Secretaria também está identificando se há outros casos e permanece à disposição para esclarecer as situações específicas apontadas. Cabe destacar que as imagens originais das apreensões estão preservadas e à disposição para envio, sendo que não houve alteração do conteúdo das apreensões, mas tão somente modificações estéticas das imagens". Vídeos: tudo sobre o Espírito Santo Veja o plantão de últimas notícias do g1 Espírito Santo