'Minha filha salvou outras vidas': mãe de menina induzida ao suicídio faz alerta às famílias

Piemonte Escrito em 09/08/2026


Mãe de menina induzida ao suicídio faz alerta às famílias "Sei que nada vai trazer minha filha de volta. Mas tenho consciência que a morte dela salvou muitas outras vidas que estavam na mira”. O desejo da mãe da menina de 13 anos que morreu após ser induzida ao suicídio por um grupo de adolescentes pela internet, é que a tragédia vivida pela família ajude a salvar outras vidas. A operação prendeu 5 adolescentes e um jovem de 18 anos no dia 4 de agosto por induzir uma menina de 13 anos ao suícido com ameaças pela internet. Segundo as investigações, eles integravam um grupo virtual que incentivava adolescentes vulneráveis a cometer automutilação e suicídio. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 MS no WhatsApp Em entrevista exclusiva ao g1, a mãe afirmou esperar que a responsabilização dos envolvidos sirva de alerta sobre os riscos enfrentados por crianças e adolescentes na internet. “Que esse caso desperte a atenção da sociedade, incentive mais proteção às crianças e adolescentes na internet e ajude outras famílias a não passarem pela dor que eu estou vivendo”. Ela diz que, apesar do sofrimento, encontrou um pequeno conforto ao saber que a investigação pode ter impedido que outras vítimas fossem aliciadas pelo mesmo grupo. "Também tenho consciência de que a morte dela salvou muitas outras vidas que estavam na mira e fez justiça por outras que também já foram." A mãe conta que descobrir que a filha havia sido manipulada por pessoas na internet tornou a perda ainda mais dolorosa e difícil de aceitar. "Além da dor imensa da perda, veio o sentimento de impotência por saber que pessoas tiveram participação nisso." Segundo ela, acompanhar a operação policial e ver os adolescentes identificados trouxe um sentimento contraditório. "Não existe prisão que traga minha filha de volta ou diminua a saudade que sinto todos os dias. Mas espero que a responsabilização sirva para impedir que outras famílias passem pela mesma tragédia e para mostrar que esse tipo de crime precisa ser levado muito a sério". Ao falar sobre a filha, a mãe faz questão de destacar que a filha era uma menina alegre, carinhosa e muito dedicada à família. "Teve uma infância muito bonita. Gostava de fazer as pessoas sorrirem e tinha um jeito leve de viver. Era uma filha muito amada e deixou lembranças que vou guardar para sempre". Equipamentos utilizados para crimes foram apreendidos Reprodução/PCMS LEIA TAMBÉM 'Escravização virtual': polícia revela esquema usado para induzir menina de 13 anos ao suicídio Grupo suspeito de induzir menina ao suicídio fez mais vítimas e forçava outras violências Ela afirma que nunca percebeu mudanças significativas no comportamento da adolescente. "Ela sempre foi educada, me ajudava a cuidar do irmão de cinco anos. Nunca me respondeu ou me tratou de forma diferente." A mãe ainda destaca que a lembrança da última conversa entre as duas permanece viva. "A última vez que a vi em vida ela estava no quarto fazendo chapinha no cabelo. Chamei para ir jantar e depois lavar a louça para mim, porque eu estava muito cansada. Ela sorriu para mim, disse que já iria e me mandou um beijo". Ao final da entrevista, a mãe fez um apelo para que outras famílias conversem com seus filhos sobre os riscos presentes no ambiente virtual. "Eu só peço que as pessoas olhem para esse caso como um alerta. Minha filha não era uma menina problemática. Era feliz, educada, carinhosa e cheia de sonhos. Mesmo assim, foi vítima de pessoas que se aproveitaram da vulnerabilidade dela pela internet”. Investigação No dia 6 de agosto, a delegada titular da Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA), Karine Sanches, informou que a investigação descartou a hipótese de suicídio e passou a tratar o caso como homicídio. A mudança de entendimento ocorreu após a análise dos materiais apreendidos durante a operação. Ao todo, cinco adolescentes, de 13 a 17 anos, e um homem de 18 anos foram alvos de mandados judiciais nesta terça-feira (4), cumpridos no Ceará, em Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Pará e Rio de Janeiro. O suspeito de liderar o grupo é um adolescente de 14 anos, apreendido na capital fluminense. Conforme a delegada, os criminosos utilizam técnicas de engenharia social para identificar e manipular crianças e adolescentes, principalmente meninas. O primeiro passo é localizar vítimas com perfis públicos nas redes sociais. A partir das informações disponíveis, como escola, familiares, amigos e interesses pessoais, integrantes da organização criam perfis falsos e passam a se apresentar como pessoas da mesma idade e com gostos semelhantes aos da vítima. Momento da captura de um dos alvos da operação. PCMS Após conquistar a confiança da adolescente, ela é levada para plataformas menos conhecidas, onde há pouca ou nenhuma moderação de conteúdo. A investigação também revelou que os criminosos migram constantemente entre plataformas digitais para evitar bloqueios. A Polícia Civil de Mato Grosso do Sul e o Ministério da Justiça encontraram materiais de apologia ao neonazismo, armas e conteúdos de abuso sexual infantil com os adolescentes investigados Segundo a investigação, a estética e a ideologia neonazista eram usadas pelo grupo para radicalizar os jovens no Discord e no Telegram, onde promoviam discursos de ódio, misoginia e desafios de violência extrema contra crianças e animais. Os adolescentes apreendidos viviam com as famílias e, segundo a polícia, não apresentavam comportamento que despertasse suspeitas. Sanches relatou que os pais ficaram desesperados ao descobrirem a participação dos filhos na organização criminosa. A delegada fez um alerta para que pais e responsáveis acompanhem de forma mais próxima à vida digital de crianças e adolescentes. Segundo ela, o uso de ferramentas de controle parental pode dificultar a atuação desses grupos criminosos. Também orientou que os responsáveis acompanhem os aplicativos utilizados pelos filhos e verifiquem os conteúdos consumidos na internet. Ela reforçou que acompanhar a atividade digital dos filhos não representa invasão de privacidade, mas uma medida de proteção. Discord: AGU discute medidas após Janja defender bloqueio Veja vídeos de Mato Grosso do Sul: