Manifestantes protestam em apoio à comunidade universitária argentina, exigindo mais verbas e uma remuneração digna para o setor, além de se manifestarem contra o governo do presidente Javier Milei, em Buenos Aires, Argentina. Pedro Lazaro Fernandez/Reuters Gustavo Raul Perez franze a testa enquanto faz anotações em um caderno na loja de materiais de construção que administra há seis anos nos arredores de Buenos Aires, na Argentina. Desde que Javier Milei assumiu a Presidência do país, em 2023, com o voto de Perez, as reformas econômicas aceleradas de seu governo conquistaram investidores e elogios do Fundo Monetário Internacional (FMI). Para o comerciante, porém, os efeitos mais sentidos são os custos mais altos e a perda de poder de compra dos clientes. “Este plano econômico é para poucos”, afirma Perez. A inflação argentina caiu de quase 300% para cerca de 33%, as importações foram ampliadas e os subsídios diminuíram. Apesar disso, o custo para Perez recompor os estoques da loja triplicou, enquanto seus clientes têm menos dinheiro para gastar. “Havia uma classe média três anos atrás. Ela não existe mais”, diz. A experiência do comerciante reflete uma contradição que se espalha por economias emergentes: as reformas que recuperaram a confiança dos investidores e ajudaram a estabilizar as contas públicas ainda não melhoraram as condições de vida de uma parcela significativa da população. No Marrocos, novos e imponentes edifícios comerciais contrastam com a insatisfação nos arredores das cidades. No Sri Lanka, a crise econômica e o calote da dívida ficaram para trás, mas a pobreza continua acima dos níveis anteriores à crise. Da retirada de subsídios aos combustíveis na Nigéria à privatização de empresas no Egito e à abertura do mercado no Uzbequistão, anos de reformas ajudaram países emergentes a enfrentar choques econômicos. Ao mesmo tempo, as medidas frequentemente provocam insatisfação entre cidadãos que ouvem falar de recuperação econômica, mas não percebem melhorias em suas próprias vidas. O ministro das Finanças da Nigéria alertou que não enfrentar a desigualdade é como “sentar sobre pólvora”. Já o banco central do Marrocos afirma que o desemprego persistente ampliou a distância entre o desempenho da economia e a percepção da população sobre a situação do país. “Quando as pessoas nos mercados emergentes enfrentam aumentos nos preços dos alimentos, dos combustíveis e da energia, é isso que elas sentem imediatamente”, afirma Torbjorn Soltvedt, da Verisk Maplecroft, empresa de análise de riscos. Ele alerta que a insatisfação pode levar a protestos e à instabilidade. Segundo a companhia, o risco médio de agitação social no mundo atingiu neste ano o nível mais alto em quase uma década. 'Não havia outra escolha' Há anos, o FMI e investidores pressionam as economias emergentes a reduzir subsídios e controles cambiais — medidas que interferem nos preços e nas condições de compra e venda de moedas estrangeiras. A pandemia de Covid-19 e, depois, a disparada dos preços dos alimentos e dos combustíveis após a invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia levaram muitos governos a acelerar mudanças. Entre elas estão cortes de gastos públicos, maior liberdade para a cotação das moedas e aumentos das taxas de juros. A retirada de subsídios e a desvalorização das moedas encarecem produtos, enquanto os cortes de gastos podem reduzir a renda disponível da população. Ainda assim, os governos “absolutamente não tinham outra escolha”, afirma Simon Quijano-Evans, da Macro Hive, empresa de análise econômica. Segundo ele, sem essas medidas, os países corriam o risco de cair em um “abismo” de perda de investimentos. As mudanças atraíram investidores de volta. Atualmente, as economias emergentes crescem cerca de 4% ao ano, aproximadamente o dobro do ritmo das economias avançadas. Mas, se a insatisfação popular comprometer as reformas, esses países poderão perder mais do que a confiança dos investidores. O retrocesso nas mudanças pode interromper os investimentos e a criação de empregos necessários para diminuir a distância em relação às nações mais ricas. Um mundo a duas velocidades No Marrocos, o fluxo de investimento estrangeiro direto — recursos aplicados por empresas e investidores de outros países em negócios e atividades produtivas — quase dobrou no ano passado. Mesmo assim, o país foi abalado por protestos liderados por jovens, que deixaram mortos. Em julho, centenas de pessoas que tentavam migrar também se dirigiram a um enclave espanhol vizinho, território cercado pelo Marrocos. “O Marrocos está se desenvolvendo em duas velocidades diferentes”, afirma o engenheiro civil Anass Sayad, enquanto caminha com a família pela Casablanca Finance City, região que concentra empresas e edifícios comerciais na cidade. Ao apontar para estádios e arranha-céus, ele diz que a educação e a saúde deveriam receber mais atenção. O governo aumentou os gastos com as duas áreas no orçamento de 2026, mas os efeitos das medidas ainda levarão tempo para chegar à população. O Banco Mundial estima que 1,2 bilhão de pessoas em países em desenvolvimento chegarão à idade de trabalhar na próxima década. A projeção levanta dúvidas sobre a capacidade dos investimentos de gerar empregos suficientes para absorver essa população. Preocupação mundial A diretora-gerente do FMI, Kristalina Georgieva, alertou que a alta dos preços dos combustíveis e dos alimentos, somada à redução da ajuda internacional ao desenvolvimento, aumenta a pressão sobre os países, apesar de anos de “trabalho árduo”. O Fundo também pediu mais apoio às nações de baixa renda. A insatisfação e os protestos, porém, não se restringem às economias emergentes. O aumento do custo de vida também levou manifestantes às ruas da França, da Itália e da Espanha. Os países ricos, no entanto, têm maior capacidade de usar recursos públicos para amenizar o impacto dos aumentos de preços sobre as famílias. Nas economias em desenvolvimento, a inflação também pode pesar mais porque os alimentos representam de 30% a 50% dos produtos e serviços considerados no cálculo dos índices de preços ao consumidor. Nos Estados Unidos, essa parcela varia de 13% a 14%. Em Colombo, capital do Sri Lanka, a vendedora de alimentos Sirimodara Wadaramge Sriyakanthi acorda antes das 5h para preparar mingau de ervas e marmitas de arroz para o almoço. Mesmo com os custos mais altos, ela tenta manter os preços próximos de US$ 2. “Vendo as marmitas por um preço razoável para que as pessoas possam pagar”, afirma. Ela se preocupa com as despesas escolares do filho e com as aulas de dança da filha. O Sri Lanka pode ter superado a crise econômica, mas, para ela, pouca coisa parece ter mudado. g1 ao vivo: Transmissão ao vivo
Economia melhora, mas população empobrece: por que reformas geram insatisfação em países emergentes?
Piemonte Escrito em 29/10/2026
Manifestantes protestam em apoio à comunidade universitária argentina, exigindo mais verbas e uma remuneração digna para o setor, além de se manifestarem contra o governo do presidente Javier Milei, em Buenos Aires, Argentina. Pedro Lazaro Fernandez/Reuters Gustavo Raul Perez franze a testa enquanto faz anotações em um caderno na loja de materiais de construção que administra há seis anos nos arredores de Buenos Aires, na Argentina. Desde que Javier Milei assumiu a Presidência do país, em 2023, com o voto de Perez, as reformas econômicas aceleradas de seu governo conquistaram investidores e elogios do Fundo Monetário Internacional (FMI). Para o comerciante, porém, os efeitos mais sentidos são os custos mais altos e a perda de poder de compra dos clientes. “Este plano econômico é para poucos”, afirma Perez. A inflação argentina caiu de quase 300% para cerca de 33%, as importações foram ampliadas e os subsídios diminuíram. Apesar disso, o custo para Perez recompor os estoques da loja triplicou, enquanto seus clientes têm menos dinheiro para gastar. “Havia uma classe média três anos atrás. Ela não existe mais”, diz. A experiência do comerciante reflete uma contradição que se espalha por economias emergentes: as reformas que recuperaram a confiança dos investidores e ajudaram a estabilizar as contas públicas ainda não melhoraram as condições de vida de uma parcela significativa da população. No Marrocos, novos e imponentes edifícios comerciais contrastam com a insatisfação nos arredores das cidades. No Sri Lanka, a crise econômica e o calote da dívida ficaram para trás, mas a pobreza continua acima dos níveis anteriores à crise. Da retirada de subsídios aos combustíveis na Nigéria à privatização de empresas no Egito e à abertura do mercado no Uzbequistão, anos de reformas ajudaram países emergentes a enfrentar choques econômicos. Ao mesmo tempo, as medidas frequentemente provocam insatisfação entre cidadãos que ouvem falar de recuperação econômica, mas não percebem melhorias em suas próprias vidas. O ministro das Finanças da Nigéria alertou que não enfrentar a desigualdade é como “sentar sobre pólvora”. Já o banco central do Marrocos afirma que o desemprego persistente ampliou a distância entre o desempenho da economia e a percepção da população sobre a situação do país. “Quando as pessoas nos mercados emergentes enfrentam aumentos nos preços dos alimentos, dos combustíveis e da energia, é isso que elas sentem imediatamente”, afirma Torbjorn Soltvedt, da Verisk Maplecroft, empresa de análise de riscos. Ele alerta que a insatisfação pode levar a protestos e à instabilidade. Segundo a companhia, o risco médio de agitação social no mundo atingiu neste ano o nível mais alto em quase uma década. 'Não havia outra escolha' Há anos, o FMI e investidores pressionam as economias emergentes a reduzir subsídios e controles cambiais — medidas que interferem nos preços e nas condições de compra e venda de moedas estrangeiras. A pandemia de Covid-19 e, depois, a disparada dos preços dos alimentos e dos combustíveis após a invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia levaram muitos governos a acelerar mudanças. Entre elas estão cortes de gastos públicos, maior liberdade para a cotação das moedas e aumentos das taxas de juros. A retirada de subsídios e a desvalorização das moedas encarecem produtos, enquanto os cortes de gastos podem reduzir a renda disponível da população. Ainda assim, os governos “absolutamente não tinham outra escolha”, afirma Simon Quijano-Evans, da Macro Hive, empresa de análise econômica. Segundo ele, sem essas medidas, os países corriam o risco de cair em um “abismo” de perda de investimentos. As mudanças atraíram investidores de volta. Atualmente, as economias emergentes crescem cerca de 4% ao ano, aproximadamente o dobro do ritmo das economias avançadas. Mas, se a insatisfação popular comprometer as reformas, esses países poderão perder mais do que a confiança dos investidores. O retrocesso nas mudanças pode interromper os investimentos e a criação de empregos necessários para diminuir a distância em relação às nações mais ricas. Um mundo a duas velocidades No Marrocos, o fluxo de investimento estrangeiro direto — recursos aplicados por empresas e investidores de outros países em negócios e atividades produtivas — quase dobrou no ano passado. Mesmo assim, o país foi abalado por protestos liderados por jovens, que deixaram mortos. Em julho, centenas de pessoas que tentavam migrar também se dirigiram a um enclave espanhol vizinho, território cercado pelo Marrocos. “O Marrocos está se desenvolvendo em duas velocidades diferentes”, afirma o engenheiro civil Anass Sayad, enquanto caminha com a família pela Casablanca Finance City, região que concentra empresas e edifícios comerciais na cidade. Ao apontar para estádios e arranha-céus, ele diz que a educação e a saúde deveriam receber mais atenção. O governo aumentou os gastos com as duas áreas no orçamento de 2026, mas os efeitos das medidas ainda levarão tempo para chegar à população. O Banco Mundial estima que 1,2 bilhão de pessoas em países em desenvolvimento chegarão à idade de trabalhar na próxima década. A projeção levanta dúvidas sobre a capacidade dos investimentos de gerar empregos suficientes para absorver essa população. Preocupação mundial A diretora-gerente do FMI, Kristalina Georgieva, alertou que a alta dos preços dos combustíveis e dos alimentos, somada à redução da ajuda internacional ao desenvolvimento, aumenta a pressão sobre os países, apesar de anos de “trabalho árduo”. O Fundo também pediu mais apoio às nações de baixa renda. A insatisfação e os protestos, porém, não se restringem às economias emergentes. O aumento do custo de vida também levou manifestantes às ruas da França, da Itália e da Espanha. Os países ricos, no entanto, têm maior capacidade de usar recursos públicos para amenizar o impacto dos aumentos de preços sobre as famílias. Nas economias em desenvolvimento, a inflação também pode pesar mais porque os alimentos representam de 30% a 50% dos produtos e serviços considerados no cálculo dos índices de preços ao consumidor. Nos Estados Unidos, essa parcela varia de 13% a 14%. Em Colombo, capital do Sri Lanka, a vendedora de alimentos Sirimodara Wadaramge Sriyakanthi acorda antes das 5h para preparar mingau de ervas e marmitas de arroz para o almoço. Mesmo com os custos mais altos, ela tenta manter os preços próximos de US$ 2. “Vendo as marmitas por um preço razoável para que as pessoas possam pagar”, afirma. Ela se preocupa com as despesas escolares do filho e com as aulas de dança da filha. O Sri Lanka pode ter superado a crise econômica, mas, para ela, pouca coisa parece ter mudado. g1 ao vivo: Transmissão ao vivo
