'Aulas' de fuzil, tiros na TV: Irã prepara civis para pegarem em armas em caso de invasão dos EUA

Piemonte Escrito em 23/05/2026


Apresentador no Irã dispara tiro de fuzil ao vivo dentro do estúdio após 'aula' de militar Em praças em Teerã, militares ensinam a quem passa, inclusive crianças, como operar uma Kalashnikov. Pela TV, apresentadores colocam as mãos em fuzis AK-47 e incentivam telespectadores a fazerem o mesmo. Casamentos coletivos em praças são adornados com mísseis balísticos, e militares desfilam quase diariamente com metralhadoras soviéticas. Diante do temor de que Donald Trump decida por uma invasão por terra ao Irã e a guerra volte com mais força, o governo iraniano começou a colocar armas nas mãos da população, em uma aparente tentativa de criar um "cordão" de civis na linha de frente de eventuais batalhas. ✅ Siga o canal de notícias internacionais do g1 no WhatsApp ➡️ Na semana passada, o presidente norte-americano ameaçou retomar os ataques ao território iraniano, cancelando o cessar-fogo atualmente em vigor, caso as negociações por um acordo de paz definitivo fracassem e o Irã mantenha o controle do Estreito de Ormuz. Em resposta, Teerã lançou uma campanha agressiva para armar a população em diferentes frentes: A Guarda Revolucionária montou dezenas de estandes em praças e ruas para ensinar a como montar, manusear e armar fuzis de assalto do tipo Kalashnikov. As "aulas" são dadas no local e gratuitamente para quem quiser fazê-las, inclusive crianças; TVs estatais também abriram espaço para as treinamentos ao vivo. Na semana passada, o apresentador de um canal estatal chegou a disparar ao vivo para o teto dentro do estúdio, após ser instruído por um militar da Guarda Revolucionária, que participava do programa (veja no vídeo acima); As TVs também têm intensificado chamadas ao público para as Forças Armadas. Propagandas chegaram a incentivar famílias a enviar meninos a partir dos 12 anos para a Guarda Revolucionária — o que a Anistia Internacional denunciou como crime de guerra; Também na semana passada, o governo iraniano promoveu um casamento coletivo em diversas praças de Teerã. A condição era que os noivos se declarassem dispostos ao "autossacrifício" em caso de guerra. Os casais chegavam carregando fuzis e em veículos militares. Em uma das cerimônias, um míssil balístico adornava o palco; O regime dos aiatolás também tem ordenado desfiles militares quase diários pelas ruas de Teerã, em que militares se aproximam dos civis e os cumprimentam. Um integrante da milícia voluntária Basij, ligada à Guarda Revolucionária do Irã, demonstra como manusear um fuzil no estilo Kalashnikov durante um treinamento com armas em Teerã. Vahid Salemi/AP Imagens mostram momentos de casamento coletivo patrocinado pelo regime dos aiatolás iraniano em Teerã, em 18 de maio de 2026. Reprodução/ g1 Ainda não está clara a dimensão da estratégia e se a quantidade de armas que o regime teria de fato distribuído à população. Mas as chances de que a população mobilizada de fato funcione como uma força de resistência são altas, na avaliação do professor de política internacional Tanghi Baghdadi, fundador do podcast Petit Journal. "Isso passa a sensação de que uma eventual invasão por terra vai encontrar resistência ferrenha, rua a rua", disse Baghdadi ao g1. Nas ruas, os treinamentos têm encontrado adesão de parte da população -- a que apoia o regime dos aiatolás. “Com certeza, resistiremos (aos norte-americanos) e não cederemos um centímetro sequer do nosso território”, disse à agência de notícias Associated Press o iraniano Ali Mofidi, um dos "alunos" presentes em um dos treinamentos da Guarda Revolucionária em Teerã. "É necessário que todo o nosso povo seja treinado, porque estamos em uma situação de guerra atualmente”, acrescentou. A iraniana Rojan Astana, moradora de Teerã, também decidiu fazer uma aula. À TV estatal russa, ela contou que também quer estar preparada para defender seu país. "Quando eu me posicionei atrás do fuzil, eu senti que, assim como os voluntários que protegem nossos compatriotas, eu também sou capaz de pegar em armas. E que se algum dia alguém invadir nosso país, eu posso ir para a linha de frente", disse a jovem à TV estatal russa. 👉 O que já está claro é que Teerã quer que o mundo veja sua nova estratégia. Ao longo da semana, o regime liberou raras imagens das ruas da capital iraniana para mostrar os estandes montados pela Guarda Revolucionária em ruas e praças para ensinar quem passa por lá a manusear fuzis. O movimento é atípico, porque o regime dos aiatolás costuma controlar o acesso a armas, liberadas, em geral, a milícias e grupos associados à Guarda Revolucionária. E também arriscado, já que armas distribuídas podem acabar nas mãos de manifestantes que foram às ruas em peso entre dezembro do ano passado e janeiro deste ano, na maior onda de protestos contra o regime dos aiatolás. Trump já afirmou, inclusive, ter enviado armas aos manifestantes por meio de aliados curdos, em uma tentativa de fazer com que o movimento interno derrube o regime dos aiatolás. Motivação em tempos de guerra Para além da estratégia de guerra, o professor Tanguy Baghdadi acha que a campanha das armas também "mobiliza positivamente a população" em um momento de forte crise econômica e pressão interna por conta da guerra. Em meio à guerra e à crise, iranianos vêm enfrentando demissões em massa, o fechamento de empresas e preços exorbitantes de alimentos, medicamentos e outros produtos. A tentativa também é de manter a base apoiadora da população. Autoridades governamentais afirmam que mais de 30 milhões de pessoas no Irã — país com uma população de cerca de 90 milhões — já se voluntariaram a dar a vida pela teocracia iraniana. A vencedora iraniana do Prêmio Nobel da Paz, Shirin Ebadi, criticou as demonstrações públicas de armas, particularmente as imagens de meninos manuseando fuzis de assalto. "Cenas como essas lembram o sequestro e o armamento de crianças por grupos como o Boko Haram na Nigéria e milícias no Sudão e no Congo", disse a ativista. Irã acelera execuções de manifestantes Ao mesmo tempo em que arma apoiadores do regime, o Irã aumentou internamente a repressão e acelerou as execuções de prisioneiros - incluindo manifestantes. Segundo denúncia divulgada por ONGs na última segunda-feira (18), ao menos 21 pessoas foram executadas pelo regime dos aiatolás desde o início da guerra em 28 de fevereiro. Outras 4 mil pessoas foram detidas nesse período. "Numa situação em que a comunidade internacional dedica atenção limitada às violações de direitos humanos dentro do Irã, a República Islâmica utiliza essa margem para executar prisioneiros com o menor custo político possível", afirmou o diretor Iran Human Rights, Mahmood Amiry-Moghaddam, à DW.