Relatório da Voepass: entenda a diferença entre as investigações da Força Aérea e da Polícia Federal

Piemonte Escrito em 23/07/2026


Tragédia da Voepass: vídeo mostra como foi acidente de avião em Vinhedo A Polícia Federal (PF) e o Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), da Força Aérea Brasileira (FAB), se debruçaram para investigar a queda do avião da Voepass, que matou 62 pessoas em agosto de 2024. As apurações foram conduzidas em paralelo e têm objetivos diferentes - entenda abaixo. Para facilitar a troca de informações entre as duas investigações, a Primeira Vara Federal de Campinas (SP) autorizou, em 23 de agosto de 2024, que a PF tivesse acesso às apurações do Cenipa. Professor do Departamento de Engenharia Aeronáutica da Universidade de São Paulo (USP), James Waterhouse explicou o que cada investigação deve esclarecer. "Uma que é feita pela polícia, que é a investigação com fins judiciais, para identificar a culpa, responsabilidades, e a investigação do Sipaer [Sistema de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos], que o Cenipa é o órgão central, com o objetivo de identificar o que a gente chama de fatores contribuintes", resumiu. 🔎 Fatores contribuintes são aqueles que, se removidos, teriam evitado ou atenuado as consequências do acidente. Uma tragédia aérea pode ter diversos deles. Investigação do Cenipa O relatório final do Cenipa será divulgado nesta quinta-feira (23), às 17h, em Brasília (DF), com transmissão ao vivo pelo g1. A investigação busca reconstituir o acidente e apontar os fatores que contribuíram para a queda, mas não identifica culpados nem pode ser usada para responsabilização criminal. O relatório também deve trazer recomendações para evitar novos acidentes. "É muito importante que o relatório de acidente [do Cenipa] seja, de certa forma, o mais fiel possível ao ocorrido e que não criminalize ninguém. O intuito dele é evitar que novos acidentes aconteçam. Todas as vezes que você tem um viés criminal na investigação, você pode não elucidar por completo o caso, porque a verdade se fecha", explicou Waterhouse. E a investigação criminal? Fotos divulgadas pela Polícia Federal mostram o trabalho da perícia na manhã deste sábado (9), após o desastre aéreo em Vinhedo Polícia Federal Já a Polícia Federal informou, nesta quarta-feira (22), que pretende concluir o inquérito em agosto. A investigação é baseada em dois laudos periciais produzidos pelo Instituto Nacional de Criminalística, com apoio técnico do Cenipa. Os documentos reúnem elementos técnicos e científicos que, confrontados com depoimentos e outras provas, podem indicar se houve falhas humanas ou materiais capazes de justificar eventual responsabilização criminal. O primeiro é o laudo descritivo do local da queda, concluído cerca de 90 dias após o acidente. O documento reúne fotografias, registra a posição da aeronave, o número de vítimas, os danos provocados e os procedimentos realizados pelos peritos, mas não analisa as causas da tragédia. O segundo é o laudo de sinistro aeronáutico, que acompanha os exames realizados pelo Cenipa nos destroços, motores, caixas-pretas e demais componentes da aeronave. Embora tenha base técnica semelhante à do relatório do Cenipa, ele é elaborado para subsidiar a investigação criminal. Esse segundo documento deve trazer: resumo do acidente, com as principais conclusões e recomendações; descrição detalhada do acidente; cronologia dos acontecimentos; condições meteorológicas no momento da queda; análise dos fatores humanos, como experiência da tripulação, treinamento e procedimentos adotados; análise da manutenção e das condições da aeronave; avaliação dos procedimentos operacionais; análise das comunicações durante o voo; avaliação das práticas de segurança e da organização da companhia; análise de fatores ambientais e de possíveis interferências externas. Relembre o caso Equipe que trabalho na remoção dos corpos Arquivo pessoal O voo 2283 da Voepass caiu na tarde de 9 de agosto de 2024 em um condomínio de Vinhedo (SP), durante o trajeto entre Cascavel (PR) e Guarulhos (SP). As 62 pessoas a bordo, sendo 58 passageiros e quatro tripulantes, morreram. Foi o acidente aéreo mais grave do Brasil desde o desastre com o voo da TAM, em 2007. Logo após a tragédia, duas investigações foram abertas. O Cenipa passou a apurar os fatores que contribuíram para a queda e indicar medidas para evitar novos acidentes. Já a Polícia Federal iniciou um inquérito para apurar se houve crime e produzir um laudo próprio sobre o caso, já que o relatório do Cenipa não pode ser usado para responsabilização criminal. Um mês depois, o Cenipa divulgou o relatório preliminar da investigação. O documento confirmou que a aeronave enfrentou condições severas de formação de gelo e registrou que a tripulação relatou uma possível falha no sistema antigelo durante o voo. Também mostrou que o sistema foi acionado e desligado várias vezes ao longo da viagem, mas sem concluir se isso ocorreu por ação dos pilotos ou por outro motivo. O relatório, porém, não apontou a causa do acidente. Enquanto as investigações avançavam, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) suspendeu as operações da Voepass, em março de 2025. Três meses depois, cassou o Certificado de Operador Aéreo (COA) da empresa, impedindo a companhia de operar voos comerciais. Na semana em que a tragédia completou um ano, o g1 publicou reportagens exclusivas sobre o caso. Uma delas revelou o relato de um ex-funcionário da Voepass de que um piloto havia informado verbalmente, horas antes do acidente, falhas no sistema antigelo durante um voo anterior, mas que o problema não foi registrado no diário técnico da aeronave. O g1 também publicou os áudios das conversas entre piloto e copiloto nos minutos que antecederam a queda. Em 30 de junho de 2026, familiares das vítimas tiveram acesso pela primeira vez às transcrições das conversas gravadas na cabine durante uma reunião com a Polícia Federal. Às vésperas de o acidente completar dois anos, a expectativa é pela divulgação do relatório final do Cenipa. O documento deve apresentar as conclusões da investigação técnica sobre a queda e indicar recomendações para aumentar a segurança da aviação e evitar novas tragédias. Como era o avião que caiu em Vinhedo Arte g1 VÍDEOS: tudo sobre Campinas e região Veja mais notícias sobre a região no g1 Campinas