'Tememos um Brasil evangélico': bandas cristãs fazem rock sobre fé, mas rejeitam rótulo de 'gospel'

Piemonte Escrito em 31/07/2026


Banda Judeu Marginal, integrante do selo Se Vira Records, agrupador da nova cena do rock brasileiro. Rafaela Gomes 🎸 Espalhadas por diferentes cantos do país, bandas de rock têm se articulado em torno de uma proposta em comum e bastante inusitada: fazer música inspirada na fé cristã, mas rejeitando o rótulo de "gospel". Parte dessa articulação acontece por meio do Se Vira Music. O selo independente reúne 12 bandas de estados como Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Rio Grande do Norte e conecta uma rede de cerca de 100 músicos, produtores culturais e artistas. Apesar dessa associação, os próprios integrantes evitam dizer que existe uma cena consolidada de "rock cristão alternativo" hoje no Brasil. Preferem definir o movimento como uma articulação ainda em crescimento. "O rótulo de 'gospel' está ligado a estereótipos aos quais não queremos nos associar. Apesar de sermos todos cristãos, e alguns de nós até pastores, tememos um Brasil evangélico", afirma Sérgio Verine, teólogo fundador da marca fonográfica. 📖 Contra o 'evangeliquês' Agora no g1 Os estereótipos citados por Verine estão relacionados ao que os músicos chamam de "evangeliquês": uma linguagem própria do mercado gospel voltada principalmente para a evangelização. Eles também dizem não se reconhecerem no alinhamento político conservador que, segundo eles, marca parte desse segmento. "O gospel mainstream fala para grupos fechados. E quando fala para fora, geralmente tem como objetivo evangelizar. Nós não queremos evangelizar ninguém. Tocamos em bares e botecos, lugares que parte desse meio considera como 'do mundo'. Como se eles fossem extraterrestres...", ironiza Verine, que também é músico da banda Judeu Marginal. 🤘Nem gospel, nem 'do mundo' AHPE, banda de hardcore de Caxias do Sul (RS), nasceu no meio evangélico e hoje circula entre igrejas, casas de shows, bares e cervejarias. Divulgação Os músicos do coletivo rejeitam essa ideia, comum em alguns círculos evangélicos, de que existe essa distinção entre espaços "sagrados" e "seculares". A AHPE (lê-se "Ágape"), banda de hardcore de Caxias do Sul (RS), é um dos grupos que tenta atravessar essa fronteira. Formado há 13 anos, o projeto nasceu dentro do meio evangélico e continua ligado à Comunidade da Esperança, igreja frequentada pelos três integrantes: Alex André Santin, vocalista e guitarrista; Deco e Dani. Assim como a Judeu Marginal, eles também mantêm agenda em casas de shows, cervejarias e bares. Segundo os músicos, essa escolha faz com que enfrentem resistência dos dois lados: já receberam negativas tanto de igrejas quanto de casas de rock. "Eles dizem que somos 'rebeldes demais' para tocar nas igrejas e 'da igreja demais' para tocar em casas de hardcore. Essa separação foi construída pelos homens, não por Jesus. Ele pregava libertação", defende o vocalista Alex. ✝️Letras questionam a igreja e criticam o moralismo De uma maneira geral, as letras das músicas das bandas que fazem parte do coletivo seguem falando sobre Deus, espiritualidade e religião. A diferença, segundo o idealizador Verine, está na abordagem: elas fogem da linguagem tradicional do mercado gospel, marcada por referências diretas a passagens bíblicas e por mensagens associadas à teologia da prosperidade, corrente que costuma associar sucesso e prosperidade à fé e o sofrimento à falta dela. O próprio Verine, de 32 anos, integra o trio de metal Judeu Marginal, ao lado de Letícia Morais, nos vocais, e EJ, na guitarra. Uma das faixas do grupo é "Deus sem Jesus é o diabo", música que questiona imagens de Deus construídas ao longo do tempo. Na letra, aparecem referências ao "Deus da mentalidade bélica", ao "Deus da bancada evangélica" e até o "Deus do especial do Porta dos Fundos". Já a AHPE aborda temas como depressão e crises existenciais. Alex, o vocalista, deixa claro: a intenção não é convencer ninguém. "Colocamos nossa fé nas letras, mas não buscamos evangelizar. O poder de convencer é de Deus, não nosso." 🎤 Música para 'construir pontes' A mesma lógica aparece na Conexão Vibration, banda de Natal (RN). Formada em 2010, a banda reúne três integrantes cristãos. Um deles frequenta a Igreja Semente, de tradição batista, enquanto os outros dois são da Lagoinha. Com três álbuns lançados, o grupo já dividiu o palco com nomes como Trazendo a Arca, Salomão do Reggae, Novo Som e até bandas de metal como Antidemon. Banda potiguar Conexão Vibration integra o selo Se Vira Music e leva o rock cristão independente para espaços como igrejas, Marchas para Jesus, bares e campeonatos de skate e surfe. Divulgação Assim como os músicos das outras bandas do selo, eles cresceram em lares evangélicos e dizem ter questionado, ao longo da trajetória, a forma como parte das igrejas se relaciona com quem está fora delas. A banda se apresenta tanto em Marchas para Jesus e igrejas quanto em bares, campeonatos de skate e surf. "Os evangélicos que estão dentro desse segmento de mercado chamado 'gospel' estão acostumados a pregar de um jeito que levanta muros. Nós fazemos música que constrói pontes. E isso resume tudo", afirma Juninho, o vocalista.