Mesmo após 6 anos do Pix, 30 dos 41 postos da SPTrans só aceitam dinheiro vivo para emitir 2ª via do Bilhete Único

Piemonte Escrito em 04/09/2026


Usuário do bilhete único na cidade de São Paulo Tiago Queiroz/Estadão Conteúdo Em uma das cidades mais ricas e tecnológicas da América Latina, quem perde ou precisa emitir o Bilhete Único ainda esbarra em um problema que parece do século passado: é preciso pagar em dinheiro vivo. Um levantamento feito pelo g1 identificou que três em cada quatro postos da SPTrans na capital só aceitam dinheiro em espécie na emissão da 2ª via do cartão. Dos 41 postos de atendimento da SPTrans no município, 30 não aceitam débito, crédito nem PIX, mesmo seis anos após o lançamento do sistema no Brasil. Os 11 pontos que aceitam a tecnologia operam ainda em fase de teste desde dezembro de 2025. A Prefeitura de São Paulo não informou quando deve ampliar o modelo para todos os postos. Dados obtidos pelo g1 mostram que, apenas em 2025, a SPTrans arrecadou R$ 26,7 milhões com a emissão e a substituição de cartões do Bilhete Único. Como cada emissão ou segunda via custa o equivalente a sete tarifas de ônibus, estima-se que cerca de 760 mil operações tenham sido realizadas no período. Questionada sobre o motivo de ainda exigir dinheiro em espécie em quase 75% dos postos, a prefeitura afirmou que, quando o sistema foi implantado, em 2004, "não havia sistema disponível para pagamento eletrônico sem o desconto de taxas do poder público". Segundo a administração municipal, o prazo para ampliação da modalidade PIX está condicionado à "conclusão das avaliações do piloto e das adequações tecnológicas necessárias". 'É uma vergonha', diz especialista Para o professor Ciro Biderman, da FGV Cidades, a exigência de dinheiro em espécie em pleno 2026 é um retrato de um problema muito maior: a tecnologia por trás do Bilhete Único, batizada de Mifare, está ultrapassada. É uma vergonha, uma completa vergonha. Quase ninguém tem dinheiro vivo... Hoje em dia, até as pessoas em situação de rua recebem via PIX quando pedem doações Segundo ele, o cartão do Bilhete Único é o que se chama de "cartão moedeiro", uma tecnologia com cerca de 30 anos, sem nenhum vínculo com uma conta digital de verdade. O especialista em administração pública e governo destaca que a justificativa da cobrança de taxas dada pela prefeitura não se sustenta. "Temos quase seis anos de PIX. Não tem taxa nenhuma, todo mundo migrou para o PIX. O sistema está em piloto ainda seis anos depois", critica. O professor também questiona a lógica financeira por trás da resistência em aceitar cartões, mesmo com taxa, e diz que essa dinâmica só se explica em razão do descaso do poder público. "Neste ano, [os ônibus na capital] devem rodar cerca de R$ 10 bilhões. Pelo menos 85% desse volume é transacionado pelo bilhete. Um volume desse tamanho não se negocia com um cartão de crédito para cobrar 0,5% de taxa?", questiona. Na avaliação do pesquisador, a consequência vai muito além da obrigatoriedade do dinheiro em espécie: "É só a ponta do iceberg. O sistema inteiro está obsoleto. O jeito como as pessoas se deslocam mudou completamente nos últimos 10 anos, mas o sistema continua funcionando da mesma forma que há décadas". A logística do dinheiro em espécie Outro ponto levantado por Biderman é o custo logístico de movimentar diariamente tanto dinheiro vivo entre os postos de atendimento espalhados pela cidade e os bancos. Segundo a SPTrans, os valores arrecadados são depositados na conta da empresa no dia seguinte à apuração e todas as solicitações são registradas para controle da operação. Imagina isso... R$ 100 mil por dia, o custo logístico disso deve ser brutal. Você tem que juntar tudo isso em um monte de postos, guardar em algum lugar, levar para o banco para depositar. Nem sei como eles fazem isso na prática. O custo administrativo deve ser bem maior do que parece Para Biderman, o poder público deveria separar a gestão do sistema de transporte da tecnologia de pagamentos, mantendo o controle sobre os dados dos usuários, mas permitindo que empresas mais especializadas operassem os meios de pagamento. "Nenhum sistema moderno de aproximação funciona assim. Eles até saíram na frente, eles têm mérito de o sistema não estar nas mãos das operadoras de cartão, mas o modelo de negócio está errado. Eles precisavam ter mudado a tecnologia", avalia. Confusão para o usuário Doutora em Administração Pública e especialista em mobilidade urbana, Ana Carolina Nunes avalia que a exigência de dinheiro vivo causa confusão para os passageiros, principalmente porque o restante do sistema já oferece diversas formas digitais de recarga. "O usuário vê propaganda dizendo que pode carregar o Bilhete Único pelo celular, por aplicativos, até pelo WhatsApp, encontra maquininhas que aceitam diferentes formas de pagamento, mas, quando precisa emitir a segunda via, encontra um procedimento muito mais rudimentar", observa. "A SPTrans demonstra mais dificuldade para se atualizar em relação aos meios de pagamento. Isso evidencia uma deficiência mais ampla na emissão do Bilhete Único." A pesquisadora afirma que o modelo também prejudica moradores recém-chegados e turistas. "É uma cidade que recebe pessoas o tempo todo, mas a emissão continua concentrada em poucos postos. Em outras metrópoles, você consegue solicitar o cartão pela internet e recebê-lo em casa. Aqui, dependendo do caso, a pessoa precisa apresentar comprovante de residência e ainda pagar em dinheiro." Como exemplo, Ana Carolina citou o caso de uma amiga estrangeira: "Ela ficou alguns meses em São Paulo e precisava de comprovante de residência para emitir o bilhete. Imagina uma pessoa de fora do Brasil que chega e descobre que precisa disso e de dinheiro em espécie... Muito provavelmente vai desistir de fazer o bilhete e vai optar só pelo metrô ou por carros de aplicativo, o que é pior para todo mundo", pontuou. 'Ponta do iceberg' de um sistema sem avanço Para Biderman, o problema do dinheiro em espécie na emissão dos cartões é sintoma de uma questão maior: a estagnação tecnológica de todo o sistema de bilhetagem paulistano, com reflexos na qualidade do serviço oferecido à população. A maneira como a gente se desloca na cidade mudou completamente nos últimos 10 anos. O Uber, por exemplo, mudou isso, mas continuamos contratando as empresas de transporte da mesma maneira que se faz há 60 anos Segundo ele, a resistência a mudar de modelo também tem relação com o monopólio que a prefeitura mantém sobre o sistema atual. "Se ele perde esse monopólio, o Bilhete Único acaba em um instante", diz. O professor também associa a estagnação tecnológica a uma piora perceptível na qualidade do serviço. "A qualidade do transporte público diminuiu consideravelmente. O usuário deve ter notado isso. Hoje em dia eu espero muito mais pelo ônibus. E isso faz a gente perder passageiro", completa. Pontos de atendimento Confira abaixo os endereços dos pontos de atendimento para emissão do Bilhete Único na cidade de São Paulo: A.E. Carvalho: Av. Imperador, 1.401 – Cidade A. E. Carvalho (aceita PIX) Alberto Lion: Praça Alberto Lion, s/n – Ipiranga Amaral Gurgel: Rua Dr. Frederico Steidel, 107 – Santa Cecília (aceita PIX) Ana Neri: Rua Dona Ana Nery, 459 – Mooca Aricanduva: Av. Airton Pretini, 86 – Penha Água Espraiada: Av. Jornalista Roberto Marinho, 400 – Cidade Monções Bandeira: Praça da Bandeira, s/n – Bela Vista (aceita PIX) C. A. Ypiranga: Rua do Manifesto, 151 – Ipiranga Cachoeirinha: Av. Inajar de Souza, 4.120 – Cachoeirinha (aceita PIX) Campo Limpo: Estrada do Campo Limpo, 3.465 – Campo Limpo Cantinho do Céu: Rua Nossa Sra. de Fátima, 82 Capelinha: Estrada de Itapecerica, 3.222 – Parque Fernanda Casa Verde: Rua Baía Formosa, 80 – Casa Verde Central: Rua Boa Vista, 274 – Sé Cidade Tiradentes: Rua Sara Kubitscheck, 165 – Cidade Tiradentes Dom Pedro II: Av. do Estado, 4.455 – Mooca (aceita PIX) Estação Varginha 1: Av. Paulo Guilguer Reimberg, 937 – Jardim Maria Fernandes Estação Varginha 2: Av. Paulo Guilguer Reimberg, 937 – Jardim Maria Fernandes Grajaú: Rua Giovanni Bononcini, 77 – Parque Brasil Guarapiranga: Estrada do M'Boi Mirim, 150 – Jardim das Flores Jabaquara: Av. Eng. Armando de Arruda Pereira, 2.051 Jardim Ângela: Estrada do M'Boi Mirim, 4.901 – Jardim Ângela João Dias: Av. João Dias, 3.589 – Jardim Monte Azul Lapa: Praça Miguel Dell Erba, 50 – Lapa (aceita PIX) Mercado: Av. do Estado, 3.350 – Sé Nossa Sra. Aparecida: AC. A. Estação N. Sra. Aparecida, 450 – Ipiranga Parelheiros: Estrada da Colônia, 300 – Parelheiros Parque Dom Pedro: Av. do Exterior, s/n – Sé Penha: Av. Cangaíba, 31 – Penha Pinheiros: Rua Gilberto Sabino, 130 – Pinheiros (aceita PIX) Pirituba: Av. Doutor Felipe Pinel, 60 – Pirituba (aceita PIX) Princesa Isabel: Alameda Glete, 433 – Campos Elíseos (aceita PIX) Rua do Grito: Av. Juntas Provisórias, 1.290 – Ipiranga Sacomã: Rua Bom Pastor, 3.000 – Ipiranga Santana: Rua Olavo Egídio, 274 – Santana (aceita PIX) Santo Amaro: Av. Padre José Maria, 400 – Santo Amaro Sapopemba: Av. Arquiteto Vilanova Artigas, s/nº – Teotônio Vilela São Miguel: Rua Tarde de Maio, s/n – São Miguel Varginha: Av. Paulo Guilguer Reimberg, 247 – Jardim Maria Fernandes Vila Carrão: Av. Dezenove de Janeiro, 884 – Vila Formosa Vila Prudente: Rua Trocari, s/n – Vila Prudente (aceita PIX) Cresce o número de fraudes no Bilhete Único