Fuvest 2027 cobra interpretação, repertório e conexão entre diferentes áreas do conhecimento, avaliam professores

Piemonte Escrito em 02/11/2026


Bad Bunny com a bandeira de Porto Rico Foto/AP Photo/Mark J. Terrill A primeira fase da Fuvest 2027, realizada neste domingo (1º), foi marcada pela interdisciplinaridade, pela presença de temas contemporâneos e por uma maior exigência de interpretação e articulação de conhecimentos, avaliaram professores de escolas e cursinhos pré-vestibulares de São Paulo. Apesar de ter passado de 90 para 80 questões, mantendo as cinco horas de duração, a prova continuou extensa e, na avaliação de professores e coordenadores de cursinhos e escolas, apresentou questões mais complexas, com textos longos e diferentes tipos de representação. Fuvest 2027 registra menor índice de abstenção da história: 6,4% faltaram à 1ª fase; candidatos relatam atraso por trem e casos de vômito Cultura pop marca Fuvest 2027, com 'Stranger Things' e Bad Bunny; prova também aborda escala 6x1 e influenciadores fitness Fuvest 2027: veja o gabarito oficial da prova da 1ª fase do vestibular Fuvest 2027: cursinhos apontam erro em questão de matemática A prova seleciona estudantes para a Universidade de São Paulo (USP). Entre os assuntos abordados estavam referências à cultura pop, como a doença genética do ator Gaten Matarazzo, de Stranger Things, e uma fotografia do cantor Bad Bunny, além de temas como o fim da escala de trabalho 6x1, mudanças climáticas, inteligência artificial e questões sociais. Para Vera Lúcia Antunes, coordenadora pedagógica do Objetivo, a prova foi criativa, bem estruturada e atualizada. Ela destacou a variedade de fontes utilizadas nos enunciados, como textos, imagens, músicas, obras literárias e gráficos. "Uma prova criativa e muito bem elaborada e apesar de terem diminuído 10 questões, ainda foi uma prova extensa, que exigiu do candidato domínio de vocabulário e de conceitos", afirmou. Segundo a professora, a interdisciplinaridade e a abordagem de questões sociais contemporâneas foram características importantes do exame. Mais exigência de leitura e interpretação Henrique Braga, coordenador pedagógico do Ensino Médio da Escola Lourenço Castanho, professor doutor em Filologia e Língua Portuguesa pela USP e autor de materiais didáticos, afirma que havia uma expectativa de que a redução do número de questões permitisse cobrar processos mentais mais complexos dos candidatos. Na avaliação dele, essa expectativa se confirmou. O professor chamou a atenção para questões que exigiam a comparação entre diferentes gêneros e tipos de representação, como gráficos e tabelas. Para ele, esse tipo de correlação aumenta a complexidade dos itens e pode reduzir o índice de acertos. Braga também citou uma questão que relacionava uma pintura de Van Gogh a um fragmento da autora Narcisa Amália, exigindo que o candidato estabelecesse relações entre artes visuais e literatura. "Mas, em geral, foi uma prova que valorizou o bom leitor, seja nas questões de ciências humanas, de linguagens, de natureza ou de matemática. O bom leitor teve, enfim, vantagens nesse exame", afirmou. O professor também destacou a presença de temas contemporâneos, como a adoção de carros elétricos e seus impactos ambientais, iniciativas públicas de combate ao trabalho análogo à escravidão e políticas de igualdade de gênero. Sobre a questão que utilizou uma imagem de Bad Bunny segurando uma bandeira de Porto Rico, Braga fez uma ressalva. Para ele, houve uma "falsa contextualização", porque a resolução exigia conhecimentos prévios e não dependia efetivamente da referência ao cantor. Ele também apontou como aspecto fora do padrão uma questão em que o candidato precisava identificar a alternativa incorreta. Segundo o professor, esse tipo de formulação com foco negativo não é recomendável em avaliações e não aparecia havia algum tempo na Fuvest. Linguagens e obras literárias Roberta Hernandes Alves, doutora em Literatura Brasileira pela USP, professora de Língua Portuguesa e assessora da área de Linguagens da Escola Gracinha, avalia que a prova teve características de um exame de Linguagens, e não apenas de Língua Portuguesa. Segundo ela, aproximadamente 20% da prova envolveu questões de Linguagens, incluindo usos da língua, análise linguística, literatura, arte e corpo. A professora destaca que o exame contemplou as nove obras de leitura obrigatória, com questões que exigiam interpretação e reflexão, e não apenas o conhecimento do conteúdo dos livros. A prova também colocou em diálogo autores canônicos, como Carlos Drummond de Andrade e Ferreira Gullar, e produções populares, como a música da Legião Urbana. "Assim, não bastava conhecer as obras, mas era necessário mobilizar ferramentas críticas para interpretá-las em diálogo com a história, a sociologia, a filosofia e as artes", afirmou. Roberta também destacou o protagonismo das obras escritas por mulheres na lista de leitura obrigatória e a presença de uma perspectiva crítica e decolonial em questões de literatura, filosofia, sociologia e história. Como exemplo, citou a questão sobre a semântica da palavra "favela", que, segundo ela, propõe uma reflexão sobre a língua em uso, suas transformações históricas e o combate a preconceitos. A professora também chamou a atenção para as questões interdisciplinares que relacionaram literatura e artes visuais, como a que abordou a obra Nebulosas e uma pintura de Van Gogh. Interdisciplinaridade em 28% das questões Um levantamento da equipe de Viktor Lemos, do Anglo, identificou que cerca de 22 das 80 questões (28%) exigiam conhecimentos de duas ou mais disciplinas, considerando apenas os itens efetivamente interdisciplinares, e não aqueles que apenas utilizavam outra área como contextualização. Entre as combinações identificadas estão Literatura e Biologia, nas questões 77; Literatura e Sociologia, nas questões 78 e 79; Literatura e Arte, na questão 57; Matemática e Geografia, na questão 23; e Biologia e Inglês, na questão 63. A análise também identificou a presença de temas que atravessaram diferentes áreas, como clima, energia e combustão, trabalho, gênero, raça e astronomia. Entre os assuntos contemporâneos, foram citados o debate sobre a escala 6x1, na questão 11; a imagem criada por inteligência artificial, na questão 4; e a clonagem de porco na USP, na questão 60. O levantamento estimou a seguinte distribuição das disciplinas: Português e Literatura: 14 questões; Física: 10 questões; Biologia: 10 questões; História: 9 questões; Geografia: 9 questões; Química: 9 questões; Matemática: 7 questões; Inglês: 6 questões; Filosofia, Sociologia, Arte e Educação Física: 6 questões em conjunto, como disciplinas principais. As quatro últimas áreas, no entanto, apareceram em dez questões quando também são considerados os itens em que dividiram espaço com outras disciplinas. Entre os exemplos estão Marx (questão 11), Warburg (71), influenciadores fitness (72) e Du Bois (79). Imagens, gráficos e textos longos O levantamento da equipe de Viktor Lemos também identificou que aproximadamente 47 das 80 questões (59%) tinham textos verbais. Outras 33 (41%) apresentaram elementos não verbais necessários ou diretamente relacionados à resolução. Foram identificados cinco gráficos, três tabelas e um mapa, além de 12 fotografias, obras e outras imagens e 11 esquemas ou figuras científicas. Não houve charges nem quadrinhos. A análise destaca ainda o tamanho dos textos e a exigência de uma leitura mais rigorosa em comparação com provas anteriores. Na avaliação da equipe, a área de Linguagens ampliou seu espaço, reunindo aproximadamente 20 questões, enquanto Matemática passou de 12 para sete itens, considerados mais acessíveis. Essa redução, entretanto, não significa que a prova tenha sido globalmente mais fácil. Português apresentou dificuldade elevada e Física, considerando também suas interfaces com outras áreas, foi considerada a mais difícil dos últimos anos pela equipe. Por isso, o grupo recomenda cautela nas projeções sobre as notas de corte, já que a maior facilidade em Matemática pode ser contrabalançada pela dificuldade em Português e Física. A equipe também avaliou que os dois simulados oferecidos pela Fuvest para apresentar o novo formato poderiam ter sido mais fiéis à distribuição e ao grau de dificuldade da prova efetivamente aplicada, especialmente em relação ao espaço menor de Matemática, ao perfil das questões de Física e à complexidade de Português. Gabarito Fuvest 2027 Reprodução Números da Fuvest A prova deste ano teve uma novidade: foram 80 questões de múltipla escolha. Antes, esta etapa contava com 90 perguntas. O tempo de prova, no entanto, foi o mesmo: cinco horas. Segundo a Fuvest, esta edição do vestibular teve uma queda de cerca de 5% no número de inscritos em relação ao ano anterior. Foram 106.165 inscritos contra 111.480 em 2026. Cursos mais procurados O curso de medicina, mesmo sendo o mais procurado. Medicina (São Paulo) – 76,3 c/v Psicologia (São Paulo) – 50,9 c/v Psicologia (Ribeirão Preto) – 37,5 c/v Relações Internacionais – 34,8 c/v Audiovisual – 30,8 c/v Jornalismo – 27,5 c/v Ciências Biomédicas – 25,4 c/v Publicidade e Propaganda – 24,3 c/v Fisioterapia – 22,5 c/v 1Direito – 22,2 c/v Calendário da Fuvest 23 de novembro - divulgação dos convocados e dos locais da prova da 2ª fase; 6 e 7 de dezembro - provas da 2ª fase; 8 a 11 de dezembro - provas de Competências Específicas; 26 de janeiro de 2027 - divulgação da primeira chamada para matrícula