'Nosso modelo mental tem o potencial de nos tornar mais fortes', diz pesquisadora de Stanford

Piemonte Escrito em 31/05/2026


Dados do Ministério da Saúde revelam crescimento expressivo de atendimentos de saúde mental de crianças e adolescentes A coluna de quinta-feira mostrou como motivação e propósito foram apontados como fatores essenciais na Conferência de Envelhecimento Saudável da Universidade Stanford. Hoje, escrevo sobre a instigante palestra de Alia Crum, professora de psicologia da instituição e principal pesquisadora do Laboratório de Corpo e Mente (Mind & Body Lab). Seu trabalho se concentra em como mudanças em nossas crenças podem alterar a realidade objetiva, e seu ponto de partida foi o efeito placebo. Sabe-se que, apesar de o placebo ser um medicamento sem qualquer princípio ativo, ao tomá-lo e acreditar em sua eficácia, a mente do indivíduo é capaz de ativar mecanismos que o organismo tem para se curar. A psicóloga Alia Crum: “Nosso modelo mental tem o potencial de nos tornar mais fortes” Divulgaçao “Nossas mentes mudam a realidade. A forma como pensamos, como enxergamos as coisas, influencia nosso foco, nossa atenção, e afeta o resultado final. Conseguimos controlar muito mais do que imaginamos e nosso modelo mental tem o potencial de nos tornar mais fortes. Velhice pode ser declínio ou sabedoria. Não se trata de ser falso ou verdadeiro, mas sim das lentes que usamos para nossas experiências”, afirmou Crum. A psicóloga citou algumas pesquisas que endossam estudos já divulgados. No refeitório da universidade, as mesmas cenouras foram apresentadas de duas maneiras: quando eram identificadas como um prato pouco calórico, encalhavam; mas, ao serem descritas como uma iguaria com molho cítrico, seu consumo cresceu 45%. “As crenças sobre a comida moldam a reação do corpo, e isso não ocorre apenas com alimentos: a informação que priorizo vai afetar como meu corpo vai reagir”, detalhou. Outra experiência envolveu 84 arrumadeiras de hotel. Apesar do trabalho braçal – que equivale a um exercício físico vigoroso – dois terços diziam que não se exercitavam. O grupo foi dividido em dois, e um deles teve acompanhamento para alterar sua visão da atividade, passando a encará-la como uma “malhação” saudável. “As mulheres que mudaram o modelo mental apresentaram uma medição de pressão melhor e chegaram a perder peso”, contou. Estudo exemplar da pesquisadora Becca Levy apontou que uma visão negativa da velhice era responsável por “roubar” anos de vida dos idosos. A lição? “Precisamos mudar a bússola em relação ao que nos incomoda, que nos fere, e desconstruir visões, estigmas e estereótipos negativos que nos cercam”, ensinou Crum. A fisiologista Stacy Sims: treinamento de força apoia o equilíbrio, o controle da glicose e a função cognitiva ao longo da vida Divulgação Por fim, a fisiologista Stacy Sims enfatizou a importância do treino de força e de resistência para o envelhecimento saudável: “É o que garante a capacidade de manter os atributos físicos à medida que envelhecemos. O treinamento de força apoia o equilíbrio, o controle da glicose e a função cognitiva ao longo da vida”. Ela abordou um conceito relativamente novo na medicina e na neurociência: o eixo músculo-osso-cérebro (muscle-bone-brain axis), que investiga como o sistema musculoesquelético se comunica com o sistema nervoso central através de sinais químicos. Até pouco tempo atrás, a ciência enxergava os músculos e os ossos apenas como estruturas de suporte físico e movimento. Hoje, sabemos que funcionam como órgãos endócrinos dinâmicos, capazes de enviar mensagens que moldam a saúde, a estrutura e o funcionamento do cérebro. Quando realizamos um treino de força, a contração dos músculos libera substâncias na corrente sanguínea chamadas miocinas. Elas têm ação anti-inflamatória e estimulam a criação de novas conexões neurais, protegendo contra doenças neurodegenerativas. Da mesma forma, durante o impacto físico ou o treinamento de resistência, o esqueleto libera fatores derivados dos ossos, conhecidos como osteocinas, influenciando a massa muscular e o controle da glicose. “Esse eixo explica por que a perda de massa muscular e óssea, que acompanha o envelhecimento, está tão intimamente ligada a um quadro de fragilidade, fraturas, perda de independência e declínio cognitivo”, ressaltou Sims.