Encontro com onça-pintada: novas diretrizes estabelecem níveis de risco e como agir

Piemonte Escrito em 23/09/2026


Onça pintada no Pantanal Gustavo Figueirôa/Arquivo Pessoal Encontrar uma onça-pintada perto de uma propriedade rural não significa, necessariamente, que o animal represente perigo imediato. Por outro lado, aproximações recorrentes de áreas habitadas, ataques a animais domésticos ou determinadas mudanças de comportamento exigem atenção e podem demandar a atuação de equipes especializadas. 📱 Acompanhe o Terra da Gente também no Instagram Essas diferenças estão entre os pontos abordados no documento “Diretrizes e Fundamentos para Mitigação de Conflitos entre Humanos e Onças-Pintadas”, elaborado por 15 autores ligados a diferentes instituições brasileiras e estrangeiras. Segundo divulgação do Instituto Homem Pantaneiro (IHP), que participou da elaboração, são as primeiras diretrizes brasileiras voltadas especificamente aos conflitos entre pessoas e onças-pintadas. O documento nasceu das discussões realizadas durante o I Workshop Internacional Conflitos com Grandes Felinos: Riscos, Causas e Soluções, realizado em agosto de 2025, em Campo Grande (MS). Ao longo de 97 páginas, o material reúne orientações para prevenção, monitoramento e resposta a ocorrências envolvendo a espécie, além de abordar conflitos com a pecuária, ataques a animais de estimação, atropelamentos, comunicação de risco, turismo e formas de valorização econômica da conservação. A proposta é orientar gestores públicos, pesquisadores, órgãos ambientais e organizações da sociedade civil na prevenção e resolução desses conflitos em Mato Grosso do Sul, com possibilidade de servir de modelo para outros estados brasileiros. Veja mais notícias do Terra da Gente, no g1: ONÇA-PINTADA: Conheça a Manchita, oncinha que já cruza fronteiras entre Brasil e Argentina VÍDEO: Cerca 'educativa' reduz ataques de onças em 83% e vira aliada de fazendeiros no Pantanal BIRDWATCHING: Aplicativo reúne mais de 900 aves do Sudeste e ajuda na observação em campo Conheça a Manchita, onça-pintada, que cruza fronteiras entre Brasil e Argentina: Manchita é uma onça-pintada jovem que já cruza fronteiras entre Brasil e Argentina Nem todo encontro representa o mesmo risco Um dos pontos centrais das diretrizes é justamente evitar que todas as aparições de onças sejam tratadas da mesma maneira. O documento estabelece quatro níveis de gravidade. Um avistamento esporádico, sem aproximação persistente ou danos, é classificado no nível mais baixo. Situações recorrentes, aproximações de áreas habitadas ou predações pontuais de animais domésticos elevam o grau de atenção. "É preciso desmistificar o medo instintivo: cientificamente, o ser humano não faz parte da dieta da onça-pintada. Casos de ataques não provocados a pessoas são raros em toda a história da América Latina, acontecendo quase sempre quando o animal está acuado, ferido, defendendo filhotes ou defendendo uma presa. Ter uma gradação em quatro níveis de risco, como propõe o documento, é um avanço enorme porque evita o pânico generalizado. Dados de monitoramento por colares de GPS mostram que onças transitam com frequência a poucas centenas de metros de sedes de fazendas sem que os moradores sequer percebam ou sofram qualquer dano", pontua o biólogo Alexandre Rodrigues, sobre sua visão acerca do documento. Mati, onça-pintada que participou da novela Pantanal, está prenha e deve dar à luz nos próximos dias Reprodução/TV Anhanguera Os níveis mais altos envolvem situações como presença em perímetro urbano ou residencial, ferimentos em pessoas e, no nível crítico, ataques graves, mortes ou risco de múltiplas vítimas. A classificação deve considerar evidências verificáveis, como imagens, rastros e registros técnicos, para orientar a resposta adequada e evitar decisões baseadas apenas na percepção de ameaça. Essa diferenciação acompanha o próprio conceito de coexistência adotado pelo documento: humanos e onças compartilharem uma mesma paisagem não significa eliminar completamente os conflitos, mas administrar riscos e reduzir impactos de maneira que as populações humanas e do felino possam permanecer nesses ambientes. O que fazer ao encontrar uma onça? As diretrizes também apresentam recomendações práticas para pessoas que trabalham ou circulam em regiões onde há presença do felino. Entre as medidas preventivas estão evitar caminhadas sozinho, principalmente após o pôr do sol, manter meios de comunicação disponíveis e não se aproximar de carcaças de animais. Em um encontro próximo e inevitável, a principal orientação é não correr. A pessoa deve permanecer em pé, falar alto, erguer os braços para aparentar ser maior e se afastar lentamente, principalmente para perto de outras pessoas, sem dar as costas para o animal. O material também diferencia situações de acordo com a distância e o comportamento da onça. A presença de uma fêmea com filhotes, de um animal se alimentando ou de uma onça vocalizando ou adotando postura defensiva, por exemplo, exige maior cautela. Outra recomendação importante é nunca tentar perseguir ou capturar uma onça por conta própria. Em situações de maior risco, o protocolo prevê isolamento da área e acionamento de equipes especializadas. Onça-pintada flagrada no Brasil soti / iNaturalist Prevenção antes da captura As diretrizes defendem que medidas mais invasivas sejam adotadas de maneira proporcional ao risco e com respaldo técnico. Isso significa que a simples presença de uma onça não leva automaticamente à captura ou retirada do animal. Antes disso, podem ser adotadas medidas como monitoramento por câmeras, redução de fatores que atraem animais para perto das casas, proteção de cães e gatos durante a noite, manejo de resíduos e instalação de estruturas de proteção. A própria definição de manejo preventivo adotada pela publicação inclui ações realizadas antes que incidentes aconteçam, como currais noturnos, cercas de exclusão e campanhas de informação. Nos casos em que uma intervenção é necessária, fatores como o estado de saúde da onça, seu comportamento, a proximidade de residências e escolas, o histórico de ocorrências e a possibilidade de uma soltura segura devem ser avaliados antes da decisão. Convivência também passa pelas comunidades O documento chama atenção para outro lado do conflito: os custos da convivência com grandes predadores muitas vezes recaem diretamente sobre produtores e moradores de áreas rurais. Cercas educativas são utilizadas para reduzir conflito com gado no Pantanal Paul Raad / Instituto Impacto A predação de animais pode representar prejuízo econômico e emocional, enquanto a insegurança provocada pela presença de grandes felinos afeta a rotina dessas populações. Por isso, as diretrizes propõem combinar prevenção com mecanismos como Pagamento por Serviços Ambientais (PSA), compensações, ecoturismo e outras formas de geração de renda relacionadas à conservação. O diretor-presidente do IHP e um dos autores do documento, Ângelo Rabelo, defende que a resposta aos conflitos depende da participação conjunta de diferentes setores. “A onça-pintada, por exemplo, é uma espécie que atrai a atenção de turistas do mundo todo. Temos que potencializar essa possibilidade presente no Pantanal para que haja equilíbrio, respeito e as comunidades possam conviver em harmonia com a espécie”, afirmou Rabelo, em divulgação do IHP. O documento aponta justamente o turismo de observação como uma possibilidade de geração de renda e empregos, ao mesmo tempo em que reconhece que produtores e comunidades rurais assumem parte dos custos dessa coexistência. O biólogo Alexandra também faz essa ressalva. "O contato entre pessoas e onças não ocorre porque a população desses felinos disparou de forma descontrolada, mas sim pelo avanço da conversão de habitats e do desmatamento na Amazônia, Cerrado e Pantanal, que fragmenta os territórios. Para que a coexistência funcione, a conta precisa fechar. Pesquisas socioeconômicas no Pantanal já demonstram que o turismo de observação de onças gera milhões de dólares anualmente, superando em muitas propriedades a receita do ecoturismo tradicional. Transformar a onça de um 'prejuízo presumido' em um 'ativo' através do ecoturismo e do Pagamento por Serviços Ambientais é um caminho sustentável para o futuro". Por que criar diretrizes? A publicação afirma que o Brasil ainda não possui uma política nacional que organize de forma integrada a mitigação de conflitos com grandes felinos. Segundo os autores, as iniciativas existentes são fragmentadas e frequentemente reativas. As novas diretrizes foram elaboradas inicialmente para Mato Grosso do Sul, considerado estratégico para a conservação da espécie, mas os autores defendem que a experiência possa contribuir para protocolos adotados também em outras regiões do país. Para isso, o material propõe atuação coordenada entre órgãos ambientais, forças de segurança, municípios, pesquisadores e organizações da sociedade civil, com protocolos padronizados e definição clara das responsabilidades de cada instituição. A ideia central é que conservar a onça-pintada não dependa apenas de proteger o animal, mas também de tornar mais segura e economicamente viável a vida das pessoas que dividem território com o maior felino das Américas. Acessa aqui o documento com as novas diretirzes. VÍDEOS: Destaques Terra da Gente Veja mais conteúdos sobre a natureza no Terra da Gente